Discover

Momo (Ibrahima Gueye) tem 12 anos, nasceu no Senegal e vive sob os cuidados do médico Coen (Renato Carpentieri) na cidade portuária de Bari, no sul da Itália. Órfão e afastado da escola após ferir um colega com um lápis, ele passa boa parte do tempo nas ruas. Durante uma ida ao mercado, rouba objetos de Madame Rosa (Sophia Loren), sem imaginar que a vítima conhece seu responsável.

Coen recupera os pertences, leva Momo ao apartamento da idosa e exige um pedido de desculpas. A reparação dura poucos minutos. Preocupado com o comportamento do menino e sem condições de acompanhá-lo durante todo o dia, o médico oferece dinheiro para que Rosa cuide dele por alguns meses. Ela já abriga filhos de prostitutas e conhece as dificuldades dessa rotina, mas rejeita a ideia de receber em casa o garoto que a assaltou. A insistência de Coen e a necessidade financeira acabam vencendo sua resistência.

Dirigido por Edoardo Ponti, “Rosa e Momo” começa com essa convivência forçada entre duas pessoas pouco dispostas a agradar. Rosa é judia, italiana e sobrevivente de Auschwitz. Momo é negro, muçulmano e imigrante. As diferenças importam, mas o roteiro não transforma os personagens em representantes artificiais de grupos sociais. Ambos carregam experiências de abandono e aprenderam a desconfiar antes de oferecer afeto.

Dinheiro fácil nas ruas

Momo mora no apartamento de Rosa, porém mantém uma atividade escondida. Ele vende drogas para um traficante de Bari e recebe dinheiro por circular entre compradores sem chamar tanta atenção. O serviço oferece ao garoto uma sensação de independência que os adultos ao redor não conseguem garantir. Nas ruas, ele possui uma tarefa definida e uma renda própria. Em casa, continua sendo uma criança submetida às escolhas alheias.

Rosa percebe que Momo precisa ocupar o tempo e procura uma alternativa. Ela o apresenta a Hamil (Babak Karimi), um comerciante muçulmano que aceita recebê-lo em sua loja. O homem ensina tarefas, conversa com o garoto e oferece uma rotina distante do tráfico. Sua aproximação acontece sem sermões intermináveis ou tentativas de substituir a família perdida. Hamil trata Momo com respeito, mas também espera compromisso com o trabalho.

O menino passa a circular entre dois caminhos. O traficante oferece dinheiro e prestígio nas ruas. Hamil oferece aprendizado e uma presença adulta mais estável. Ibrahima Gueye interpreta essa divisão sem transformar Momo em vítima passiva. O personagem mente, provoca, esconde mercadorias e age com uma confiança maior do que sua idade permite. Por trás da pose, porém, permanece o medo de depender de alguém e ser abandonado outra vez.

Rosa começa a desaparecer

Enquanto Momo tenta construir uma vida fora do apartamento, Rosa enfrenta episódios cada vez mais frequentes de perda de memória. Em alguns períodos, conversa normalmente, administra a casa e cuida das crianças. Em outros, permanece imóvel e distante, alheia às pessoas ao redor. Sophia Loren trata essas mudanças com contenção. Sua personagem conserva a ironia, a vaidade e a impaciência, mesmo quando o corpo e a mente deixam de obedecer.

Lola (Abril Zamora), vizinha e amiga de Rosa, percebe a gravidade da situação e passa a ajudá-la com maior frequência. Mulher trans e prostituta, ela também deixa a filha sob os cuidados da idosa. Lola tem afeto pela amiga, mas não ignora os riscos de manter crianças em uma casa cuja responsável perde períodos inteiros de lucidez. Sua presença traz energia às cenas e impede que o ambiente doméstico fique tomado apenas pela tristeza.

Momo observa os episódios sem saber, de início, o que fazer. A hostilidade entre ele e Rosa perde força quando o garoto percebe que aquela mulher rígida também precisa de proteção. A aproximação nasce de tarefas simples, conversas breves e pequenos cuidados. Ponti permite que a relação cresça sem apagar as brigas. Rosa continua impaciente. Momo continua difícil. O afeto surge em meio a esse convívio imperfeito, onde nenhum dos dois possui talento especial para demonstrar carinho.

Uma promessa difícil de cumprir

Rosa conta que foi submetida a experiências médicas quando criança, durante o período em que esteve presa em Auschwitz. Desde então, hospitais provocam nela um medo profundo. Quando sua saúde piora, ela pede a Momo que jamais permita uma internação. O garoto aceita a promessa sem possuir idade, recursos ou autoridade para garanti-la. A partir desse pedido, cuidar de Rosa deixa de significar apenas permanecer ao seu lado.

A direção mantém o foco nas escolhas dos personagens e usa o passado de Rosa com cuidado. Auschwitz explica seu pavor, mas não resume sua personalidade. Ela também é uma mulher que trabalhou como prostituta, criou filhos de outras mulheres e ergueu uma rede de proteção dentro de casa. Sophia Loren oferece firmeza à personagem e não procura torná-la dócil para conquistar o público. Rosa pode ser generosa e desagradável na mesma conversa, qualidade que a torna mais humana.

Ibrahima Gueye acompanha a atriz com uma interpretação espontânea e inquieta. Momo fala e se movimenta com a segurança de quem deseja parecer adulto, embora suas decisões revelem o menino assustado que ele ainda é. A relação entre os dois sustenta “Rosa e Momo”, inclusive quando o roteiro insiste um pouco mais do que deveria na emoção. Loren e Gueye já dizem bastante com olhares, pausas e gestos pequenos.

“Rosa e Momo” aborda velhice, imigração, prostituição, racismo e memória sem abandonar a história de seus protagonistas. Edoardo Ponti aposta no afeto, mas preserva as contradições que aproximam Rosa e Momo. Quando a saúde da idosa passa a exigir decisões maiores, o menino precisa escolher até onde consegue honrar a promessa feita. Nesse ponto, permanecer ao lado dela deixa de ser uma obrigação paga por Coen e se torna a primeira responsabilidade que Momo assume por vontade própria.


Filme: Rosa e Momo
Diretor: Edoardo Ponti
Ano: 2020
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também