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Em 1985, seis anos depois de escapar do massacre ocorrido em “X: A Marca da Morte”, Maxine Minx (Mia Goth) vive em Los Angeles e tenta deixar o cinema adulto para conquistar um papel em uma produção de Hollywood. Ela está perto da oportunidade que sempre desejou, mas um detetive particular conhece seu passado e ameaça destruir sua carreira enquanto assassinatos assustam a cidade.

Dirigido por Ti West, “MaXXXine” encerra a trilogia iniciada por “X: A Marca da Morte” e continuada por “Pearl”. Os três filmes acompanham mulheres consumidas pelo desejo de fama, embora cada história pertença a uma época e adote um gênero diferente. O primeiro mergulhava no terror rural dos anos 1970. O segundo voltava a 1918 para apresentar a juventude de Pearl. Agora, Maxine ocupa a Hollywood colorida, perigosa e moralista da década de 1980.

A protagonista trabalha em filmes pornográficos, participa de audições e acredita que nasceu para ser famosa. Mia Goth interpreta essa convicção sem pedir licença ou aprovação. Maxine conhece o peso de cada porta fechada, mas também sabe que talento sozinho não garante trabalho. Quando surge o teste para “The Puritan II”, continuação de um filme de terror, ela vê a chance de chegar ao cinema convencional e deixar para trás uma indústria que já lhe deu tudo o que poderia oferecer.

Uma audição decisiva

A diretora Elizabeth Bender (Elizabeth Debicki) procura uma atriz capaz de sustentar o novo filme diante das câmeras e da imprensa. Maxine entra na sala preparada para provar que possui a intensidade exigida pelo papel. Sua apresentação chama a atenção de Bender, que percebe nela uma presença difícil de ignorar. A vaga representa salário, prestígio e acesso a um setor que sempre manteve a jovem do lado de fora.

Elizabeth também conhece a crueldade dos estúdios. Ela sabe que atrizes são celebradas numa semana e descartadas na seguinte, sobretudo quando suas vidas particulares ameaçam a campanha de uma produção. Debicki interpreta a cineasta com elegância e frieza, sem transformar a personagem numa mentora afetuosa. Bender oferece uma oportunidade profissional, cobra comprometimento e deixa evidente que o trabalho pode desaparecer diante do primeiro escândalo.

Maxine aceita essas condições porque não pretende continuar esperando. Ela se movimenta com a segurança de quem já ensaiou mentalmente a própria vitória centenas de vezes. Há algo divertido em sua falta de modéstia. A personagem não entra numa sala perguntando se merece estar ali. Para ela, a fama é quase um direito atrasado, e Hollywood precisa apenas corrigir o equívoco.

O passado bate à porta

Enquanto Maxine tenta preservar o emprego, Los Angeles acompanha os crimes atribuídos ao Night Stalker. As notícias ocupam a televisão, mulheres são assassinadas e a sensação de insegurança cresce pelas ruas. Ti West usa esse episódio real como pano de fundo para uma trama fictícia, sem transformar Richard Ramirez em personagem central. O medo já está instalado na cidade antes mesmo que a ameaça pessoal de Maxine ganhe forma.

O perigo se aproxima por meio de John Labat (Kevin Bacon), um detetive particular contratado para localizar a atriz. Com terno amarrotado, sotaque carregado e uma insistência desagradável, ele parece ter saído de um policial barato exibido de madrugada. Labat conhece informações sobre o massacre no Texas e sabe que a divulgação desses fatos pode encerrar a carreira de Maxine antes da primeira filmagem.

Kevin Bacon se diverte com a inconveniência do personagem. Labat fala demais, invade espaços e transforma encontros aparentemente banais em situações sufocantes. Sua ameaça depende menos da força física do que da informação guardada. Maxine percebe que ignorá-lo não será suficiente, pois o investigador conhece sua rotina e pode chegar ao estúdio, à polícia ou à imprensa.

A jovem procura Teddy Knight (Giancarlo Esposito), seu agente e advogado. Teddy representa artistas que dificilmente seriam recebidos pelos grandes escritórios de Hollywood, mas trata o futuro de Maxine com seriedade. Ele escuta o relato, avalia a chantagem e promete cuidar do problema. Esposito dá ao personagem uma mistura agradável de refinamento e ameaça. Teddy sabe usar palavras, contatos e homens pouco inclinados a preencher formulários.

Assassinatos cercam Maxine

A situação piora quando mulheres próximas de Maxine aparecem mortas. Os detetives Williams (Michelle Monaghan) e Torres (Bobby Cannavale) procuram a atriz em busca de informações. Williams trabalha com maior sobriedade, enquanto Torres gosta de transformar cada pergunta numa pequena apresentação policial. Os dois suspeitam que Maxine saiba mais do que admite e passam a acompanhar seus movimentos.

Ela precisa proteger o papel em “The Puritan II”, escapar da chantagem de Labat e responder à polícia sem revelar o que aconteceu no Texas. Essas pressões mantêm o enredo em movimento e aproximam “MaXXXine” tanto do terror quanto dos antigos filmes policiais. Há perseguições, mortes e ameaças, mas boa parte da tensão nasce de conversas nas quais qualquer palavra pode custar um pode custar um contrato ou despertar uma suspeita.

Maxine não ocupa o lugar tradicional da vítima indefesa. Ela sobreviveu aos acontecimentos de “X: A Marca da Morte” e aprendeu a reagir quando alguém tenta controlá-la. Essa firmeza torna a personagem interessante, embora também diminua parte do medo. O público raramente acredita que ela ficará paralisada diante do perigo. A pergunta passa a ser quanto custará sua resistência e quem pagará essa conta.

Mia Goth sustenta essa mistura de ambição, trauma e brutalidade. A atriz abandona a fragilidade inquietante de Pearl e cria uma mulher mais contida, habituada a esconder emoções para não oferecer vantagens aos adversários. Maxine pode ser fria, vaidosa e impaciente, mas sua determinação possui uma origem compreensível. Depois de sobreviver a uma noite sangrenta, ela se recusa a permitir que outra pessoa escreva seu destino.

Hollywood também produz monstros

Ti West filma Los Angeles como uma cidade em permanente encenação. Calçadas sujas convivem com fachadas luminosas, protestos religiosos dividem espaço com festas e os estúdios vendem fantasia enquanto exploram inseguranças reais. As referências aos anos 1980 aparecem nas locadoras, nas fitas VHS, nas roupas, nos carros e na música. Esses elementos ajudam a situar a época sem transformar o longa numa coleção cansativa de lembranças.

O diretor também brinca com a relação entre cinema de terror, pornografia e moralismo religioso. Maxine circula por ambientes condenados por grupos conservadores, embora os maiores perigos venham de pessoas que afirmam defender valores respeitáveis. A crítica ganha força quando permanece ligada às escolhas dos personagens. Em algumas passagens, porém, a provocação fica óbvia demais e perde parte da mordacidade.

“MaXXXine” é mais movimentado que “Pearl” e possui uma escala maior que “X: A Marca da Morte”. O elenco numeroso acrescenta novas forças à história, mas também disputa espaço dentro de uma duração limitada. Lily Collins interpreta Molly Bennett, estrela do primeiro “The Puritan”, enquanto Moses Sumney vive Leon Green, funcionário de uma locadora e amigo de Maxine. Halsey aparece como Tabby Martin, colega da protagonista no cinema adulto. Alguns deles recebem menos desenvolvimento do que poderiam.

Ainda assim, o longa permanece preso à presença magnética de Mia Goth. Maxine quer fama, dinheiro e reconhecimento, sem fingir que busca uma recompensa mais nobre. Essa honestidade torna sua ambição curiosamente simpática. Ela pode tomar decisões duras e tratar Hollywood como uma guerra particular, mas nunca esconde o objetivo que a trouxe até Los Angeles.

“MaXXXine” fecha a trilogia com um thriller sangrento, elegante e mais interessado na conquista da fama do que no medo puro. Nem todas as ideias recebem o mesmo espaço, e algumas figuras promissoras passam depressa pela história. Mesmo assim, Ti West entrega uma continuação coerente com a personalidade de sua protagonista. Maxine entra no estúdio certa de que nasceu para ser uma estrela e luta para permanecer diante das câmeras quando o passado tenta retirá-la de cena.


Filme: MaXXXine
Diretor: Ti West
Ano: 2024
Gênero: Crime/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
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