Dias atribulados cedem lugar às noites frias em que a cama parece um deserto branco de lençóis que a fadiga do corpo ajuda a vencer. No entanto, sempre chega a hora em que a solidão renuncia a suas eventuais delicadezas e põe de fora as garras, sabendo exatamente por onde começar seu ataque. “Amor em Câmera Lenta” é outra comédia romântica sobre gente cujos sucesso, dinheiro, beleza e requinte não aplacam uma urgência muito humana, quiçá vital, prontinha para transformar-se no sentimento tão aterrador quanto fascinante capaz de justificar a ponta de esperança que a humanidade, apesar de tudo, segue inspirando. O libanês-canadense Elie El Semaan coloca uma lupa sobre a relação bastante civilizada de dois adultos impávidos em sua autossuficiência, até que as mãos transpiram de repente, o coração acelera e o mundo vira um carrossel de sensações, do qual não se desce como antes.
O amor tudo suporta
O amor é uma utopia sem a qual o mundo para. Muitos se lançam a uma tentativa de desvendar o enigma sem solução que é viver olhando para essa força misteriosa, capaz de enredar até a mais esperta das criaturas, ainda que seu real poder esteja na supina arrogância dos homens. O roteiro de Eiad Saleh bate nessa tecla ao expor a relação de Haya e Jawad, dois amigos-irmãos que começam a rever o que de fato sentem uma pelo outro, e concluem o que todos já imaginam. Até que isso aconteça, porém, os dois batem-se numa miríade de desencontros, críveis ou não, centrados na mistura de romance e melodrama.
Hollywood é a meta
Aos 35 anos, Haya, a diretora de criação de uma agência de publicidade, quer casar e ter filhos, mas apesar de bonita e endinheirada, não dispõe de um único pretendente. Jawad candidata-se ao posto, mas ela o encara somente como um conselheiro sensato, imparcial, até ele revelar um desejo oculto. Como sói acontecer, o jogo vira, ele se interessa por Zeina, uma atriz com quem contracena, e a exemplo do que Samaan já fizera em “Lua de Mel Inusitada” (2024), o filme balança nesse vaivém, chamando atenção mais pela paleta de cores em tons pastéis que pela história em si. Nour Al Ghandour e Ali Kakooli saem-se melhor cada qual em seus próprios momentos num longa que ratifica a tendência de uma boa parte do novíssimo cinema do Oriente Médio quanto a emular Hollywood.

