O casamento deve ser a instituição falida mais invejada do mundo. As estatísticas acerca de infelicidade conjugal, traições e divórcios revelam que o “até que a morte os separe” quase nunca se concretiza. Assim mesmo, o matrimônio permanece como o símbolo máximo do amor. Casais publicam fotos em que aparecem sorridentes, as alianças cintilam, estralam os beijos e perdura a fantasia de um romance que evoca a eternidade. Para quem está de fora, o casamento parece a coroação de um sonho. Para o marido e a mulher, pode ser um palco de silêncios torturantes, desgaste físico, colapso nervoso e renúncias por coação. Joe Nixon foge do altar como o diabo da cruz, mas vai parar na despedida de solteiro de um homem que nunca vira antes, pagando tudo e ouvindo desaforos só por não ser um gen-Z. “72 Horas em Miami” é mais um besteirol americano, e Kevin Hart, bem ou mal, vai firmando-se como um rei do gênero, ladeado aqui por talentosos comediantes da novíssima safra. Como nem tudo é perfeito, no entanto, o novo filme de Tim Story é uma repetição de piadas escatológicas e blagues sobre a baixa estatura e os iminentes cabelos brancos de Hart — além de outros detalhes de sua anatomia —, em cenas que dependem da simpatia do público.
Chave-fechadura
Não é fruto do acaso que Hart tenha aparecido com frequência cada vez maior em longas da Netflix, com quem assinou um contrato que o autoriza a produzir e estrelar vários projetos num mesmo ano. O humorista tem desempenho acima da média em trabalhos como “O Homem de Toronto” (2022), dirigido por Patrick Hughes, e “De Férias da Família” (2022), levado à tela por John Hamburg. O problema é que, descontando-se um ou outro diálogo ou uma ou outra minúcia técnica, esses filmes são em essência os mesmos. No que respeita a “72 Horas em Miami”, os roteiristas Kevin Burrows, Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg são hábeis quanto a aproveitar o ótimo elenco de apoio, depois que explica o que Hart faz na história. Joe é um diretor de criação de uma agência de publicidade que “não se conecta” com o público jovem, o que pode custar-lhe a promoção pela qual ele vem trabalhando faz bastante tempo. Sua prova de fogo é a campanha de uma vodca em tempos de garotada mens sana in corpore sano, mas ainda chegada a uma bela orgia. Ardiloso, ele chega a Mason e seus amigos por um anúncio de Airbnb, se oferece para bancar a despesa, e o que se acha até o desfecho são as situações previsíveis do quadragenário metido entre garotões, revestidas de algum frescor graças a Marcello Hernández e Mason Gooding.

