Desde que abrimos os olhos para o mundo, buscamos por alguma beleza capaz de justificar o grande sofrimento que é a vida. Tudo que imaginamos ser nosso, as surpresas que o porvir nos reserva, a gravidade de tudo quanto toca o que não se permite revelar: por mais que alimentemos expectativas, mesmo as que soam bestamente avizinhadas do palpável, sempre ficamos longe do que torna-se real. Entretanto, o gosto pelo devaneio é o que nos confere algum relevo sobre todas as demais criaturas a povoar a Terra, tirando de nossos ombros o peso de ser a espécie mais infeliz. Muito do que o homem sonha fala a suas reminiscências mais íntimas, até o destino resolver que é hora de dar o jogo por findo e embaralhar novamente as cartas, com cuidado. Kimmy Gatewood mantém acesa no público a vontade de conhecer o outro lado do espelho, fazendo de “Descendentes: País das Maravilhas Malvado” a releitura inspirada de um clássico. No quinto longa da franquia, a diretora junta números musicais ao nonsense revelador inaugurado por Lewis Carroll (1832-1898), preservando a essência do original ao passo que dá a seu filme uma exuberância cativante.
Uma nova jornada
Os roteiristas Tamara Chestna, Dan Frey e Ru Sommer oferecem a Gatewood uma fartura de elementos para que se chegue a um espetáculo visual montado sobre um cenário que prima pelos detalhes. Aqui, o País das Maravilhas ressurge como um universo vibrante, pleno de seres fantásticos com muito a dizer. Claro que a aura de fantasia e delírio tem por carro-chefe o Gato de Cheshire, um arco-íris ambulante em computação gráfica, que aparece e some com seus enigmas, apresentando os demais personagens. Entre os de carne e osso, Red e Luis Madrigal roubam a cena, com Kylie Cantrall e Alexandro Byrd costurando as subtramas e arrebatando o espectador num encerramento apoteótico que faz valer a espera.

