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Um ex-boxeador decide romper o silêncio nas docas de Nova York, um oficial britânico atravessa o deserto ao lado de tribos árabes, uma viúva desembarca numa propriedade onde encontra o marido e os enteados mortos, um concierge foge com um quadro valioso e uma família inteira aprende a entrar numa mansão pela porta de serviço. De 1954 a 2019, mudam os idiomas, as paisagens e o tamanho das ambições; permanece a velha divisão entre quem ocupa os salões e quem limpa o chão depois que os donos se retiram.

Elia Kazan comprime a corrupção entre guindastes, porões e homens treinados para baixar os olhos. David Lean dilata o poder até que um sujeito pareça pequeno diante da areia e imenso diante de um exército. Sergio Leone deixa a ferrovia avançar sobre terras manchadas de sangue, enquanto Wes Anderson colore com requinte farsesco um mundo europeu já condenado ao desaparecimento. Bong Joon-ho recolhe essas disputas de classe, poder e impostura e as enfia numa casa de linhas perfeitas, onde cada escada conduz a um segredo e cada emprego conquistado exige que outra pessoa seja empurrada para fora. No extremo mais recente desse arco, os Kim ainda vivem abaixo do nível da rua e observam, pela janela do porão, um mundo ao qual pretendem subir.


Parasita (2019), Bong Joon-ho

A família Kim vive num porão apertado de Seul, sobrevivendo de pequenos trabalhos até que Ki-woo consegue emprego como professor particular na mansão dos Park. Percebendo a ingenuidade dos novos patrões, ele cria oportunidades para que a irmã, o pai e a mãe sejam contratados sob identidades falsas, expulsando os antigos funcionários da casa. O plano parece funcionar com perfeição, até uma noite de tempestade revelar um segredo escondido sob a residência. A infiltração, inicialmente conduzida como uma comédia de golpes, transforma-se numa disputa feroz entre pessoas pobres lutando pelas sobras de uma família rica que quase nunca percebe o que acontece ao seu redor.


O Grande Hotel Budapeste (2014), Wes Anderson

Na Europa fictícia dos anos 1930, Monsieur Gustave H. administra com elegância um hotel luxuoso frequentado por aristocratas, diplomatas e viúvas endinheiradas. Seu cotidiano muda quando Madame D., uma hóspede idosa com quem mantinha uma relação íntima, morre e lhe deixa um quadro valioso. Acusado de assassinato pelos herdeiros da falecida, Gustave foge com a ajuda de Zero Moustafa, o jovem mensageiro que se torna seu amigo e protegido. Entre perseguições, prisões, testamentos adulterados e uma sociedade secreta de concierges, os dois tentam provar a inocência do gerente enquanto a guerra aproxima-se daquele universo de requinte, disciplina e delicadeza já condenado ao desaparecimento.


Era uma Vez no Oeste (1968), Sergio Leone

Jill McBain chega a uma pequena cidade do Arizona para encontrar o marido e os enteados, descobrindo que toda a família foi assassinada. A propriedade herdada por ela ocupa uma posição estratégica para a expansão da ferrovia, despertando o interesse do empresário Morton e de seu pistoleiro Frank. Enquanto o bandido Cheyenne é responsabilizado pelo massacre, um forasteiro conhecido apenas como Harmônica aproxima-se de Jill e demonstra ter contas antigas a acertar com o assassino. A disputa pela terra reúne vingança, cobiça e sobrevivência numa região transformada pelos trilhos, onde cada silêncio anuncia violência e o progresso avança deixando cadáveres pelo caminho.


Lawrence da Arábia (1962), David Lean

Durante a Primeira Guerra Mundial, o oficial britânico T.E. Lawrence é enviado à Península Arábica para avaliar a revolta organizada contra o Império Otomano. Fascinado pelo deserto e pela cultura local, ele aproxima-se do príncipe Faisal e convence diferentes tribos a unirem forças numa campanha militar improvável. Suas vitórias transformam-no em herói e estrategista admirado, enquanto sua identidade se fragmenta entre os interesses do governo britânico e a lealdade aos combatentes árabes. À medida que cresce sua fama, Lawrence torna-se mais impetuoso, violento e convencido de que pode controlar uma guerra marcada por alianças frágeis, ambições coloniais e promessas que dificilmente serão cumpridas.


Sindicato de Ladrões (1954), Elia Kazan

Terry Malloy, um ex-boxeador que trabalha nas docas de Nova York, presencia as consequências de um assassinato ordenado pelo chefe sindical Johnny Friendly. Acostumado a obedecer e manter-se calado, Terry começa a questionar sua própria covardia ao aproximar-se de Edie, irmã da vítima, e do padre Barry, decidido a enfrentar a corrupção que controla os estivadores. O conflito ganha contornos pessoais porque Charley, irmão de Terry, atua como braço direito do criminoso. Pressionado a escolher entre a lealdade familiar, a segurança e o testemunho diante das autoridades, o antigo lutador encontra uma última oportunidade de recuperar a dignidade que perdera dentro e fora do ringue.

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