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Lançado em 2015 e ambientado em Nova York, “Demolição”, de Jean-Marc Vallée, acompanha o investidor Davis Mitchell (Jake Gyllenhaal), que perde a esposa em um acidente de carro e passa a desmontar objetos, relações e certezas para compreender sua inquietante falta de tristeza.

Davis estava ao lado de Julia (Heather Lind) quando o carro do casal foi atingido. Ele sobrevive quase sem ferimentos, enquanto ela morre. A partir desse instante, parentes e colegas esperam do viúvo uma reação compatível com a gravidade da perda. Davis, porém, não chora, não demonstra saudade e parece mais incomodado com uma máquina automática do hospital do que com a notícia recebida minutos antes.

Essa frieza não significa que ele esteja bem. Sua rotina começa a perder sentido, embora o próprio Davis demore a reconhecer o tamanho do estrago. Ele retorna ao escritório onde trabalha com Phil Eastwood (Chris Cooper), pai de Julia e sócio da empresa, mas já não consegue se comportar conforme as exigências daquele ambiente. Reuniões, relatórios e compromissos financeiros continuam existindo, enquanto o homem responsável por cumprir essas tarefas se afasta cada vez mais de quem era.

Uma carta escrita no hospital

Durante a permanência no hospital, Davis coloca dinheiro numa máquina automática para comprar um pacote de doces. O produto fica preso, e ele decide escrever uma reclamação à empresa responsável pelo equipamento. O pedido de reembolso logo se transforma em algo muito mais pessoal. Davis relata o acidente, fala sobre o casamento e admite que não sabe se amava Julia.

A carta poderia ter sido descartada como o desabafo confuso de um cliente abalado. Karen Moreno (Naomi Watts), funcionária do setor de atendimento, lê o conteúdo e se interessa pela sinceridade pouco comum daquele remetente. Davis continua escrevendo, e cada reclamação revela detalhes que ele não consegue compartilhar com a família ou com os colegas.

Karen telefona para ele durante a madrugada. A conversa inaugura uma relação improvável entre duas pessoas que carregam dificuldades bastante diferentes. Ela enfrenta problemas financeiros, mantém um relacionamento insatisfatório e cria o filho adolescente, Chris Moreno (Judah Lewis). Davis possui dinheiro, prestígio e uma casa confortável, mas perdeu qualquer intimidade com a própria vida.

A máquina de doces torna-se, assim, uma porta lateral para sentimentos que ele mantinha trancados. É uma escolha engenhosa do roteiro de Bryan Sipe, embora a metáfora seja usada com certa insistência. Davis começa pedindo alguns dólares de volta e termina oferecendo a uma desconhecida um inventário desconcertante de seu casamento.

O sogro exige compostura

Phil tenta ajudar o genro, mas também procura preservar a memória da filha. Interpretado com firmeza por Chris Cooper, ele representa o comportamento socialmente esperado diante da morte. Sofre, trabalha, cuida da esposa e busca uma homenagem digna para Julia. Davis reage de maneira oposta, o que transforma a convivência entre os dois numa disputa dolorosa.

O sogro espera que ele retome o controle, respeite o escritório e participe das decisões familiares. Davis responde com comentários inconvenientes, ausências e atitudes que os parentes consideram ofensivas. A distância entre eles cresce porque cada um lida com Julia por um caminho incompatível. Phil tenta conservar a imagem da filha. Davis começa a questionar se alguma vez realmente a conheceu.

“Demolição” ganha força quando permite que os dois homens sejam imperfeitos. Phil pode parecer autoritário, mas sua rigidez nasce de uma perda real. Davis pode soar cruel, porém sua indiferença funciona como sinal de uma perturbação que ele ainda não consegue nomear. Jean-Marc Vallée observa essas reações sem transformar uma delas em modelo correto de sofrimento.

Davis começa a desmontar tudo

Phil diz que, para consertar alguma coisa, primeiro é necessário desmontá-la e descobrir como suas partes funcionam. Davis leva o conselho ao pé da letra. Começa com pequenos objetos, passa por aparelhos domésticos e logo percebe que deseja abrir, quebrar e remover tudo aquilo que esconda uma estrutura interna.

Essas cenas trazem leveza à história porque Gyllenhaal interpreta os atos mais absurdos com concentração quase profissional. Davis examina parafusos e ferramentas com uma dedicação que jamais ofereceu ao casamento. Há algo engraçado nessa seriedade deslocada, embora os danos materiais mostrem que a situação ultrapassou uma curiosidade passageira.

A destruição física também revela sua incapacidade de seguir o roteiro imposto pelos outros. O escritório exige eficiência. Phil espera respeito. A família deseja recolhimento. Davis prefere martelos, chaves e paredes abertas. Ele procura dentro dos objetos uma lógica que não conseguiu localizar em sua reação à morte de Julia.

O simbolismo não é discreto. Em certos trechos, Vallée parece desconfiar que o público compreenderá a relação entre quebrar uma casa e examinar uma existência. Ainda assim, a energia de Gyllenhaal impede que a ideia fique inteiramente mecânica. O ator oferece inquietação ao personagem sem torná-lo apenas excêntrico ou insensível.

Karen e Chris abrem outra casa

A aproximação com Karen leva Davis até uma realidade distante dos escritórios de investimento. Ela não possui a estabilidade financeira dele e precisa administrar trabalho, maternidade e um relacionamento desgastado. Naomi Watts interpreta Karen com uma mistura convincente de curiosidade e cansaço. Sua personagem deseja ajudar, mas também procura algum alívio para os próprios problemas.

Chris inicialmente recebe Davis com desconfiança. O adolescente fala sem muita cerimônia, faz perguntas incômodas e não demonstra a delicadeza esperada diante de um viúvo. Judah Lewis cria uma presença viva, capaz de contrariar o protagonista sem transformá-lo em conselheiro precoce. A convivência entre os dois possui graça porque ambos tratam assuntos sérios por caminhos inesperados.

Davis passa a frequentar a casa de Karen e cria com Chris uma amizade baseada menos em conselhos do que em companhia. O adulto oferece atenção ao adolescente. O garoto, por sua vez, dispensa a piedade que cerca Davis desde o acidente. Essa liberdade beneficia os dois, embora também complique a vida de Karen e exponha feridas que pertencem àquela família.

A ligação entre Davis e Karen não segue o desenho comum de um romance reparador. Ela não surge para salvar um homem rico e triste, nem possui serenidade suficiente para assumir essa tarefa. Ambos estão emocionalmente desorientados. A relação funciona melhor quando o filme aceita essa desordem e piora quando tenta encaixar muitas dores no mesmo espaço.

Uma comédia dramática sobre o luto

“Demolição” fala sobre perda por meio de um personagem que parece incapaz de sofrer. Essa contradição sustenta a história e permite a Jake Gyllenhaal criar um homem simultaneamente distante, irritante e vulnerável. Davis não conquista simpatia por ser agradável. Ele desperta interesse porque sua franqueza desmonta a aparência organizada de sua antiga vida.

Jean-Marc Vallée adota um ritmo inquieto, alternando o ambiente controlado da empresa com os gestos destrutivos de Davis. A montagem acompanha sua dificuldade de permanecer num único estado emocional. Em vez de grandes discursos, o filme prefere cartas, ferramentas, telefonemas e silêncios desconfortáveis. Alguns símbolos recebem atenção excessiva, mas as atuações preservam a humanidade da história.

Chris Cooper dá peso ao sofrimento de Phil, enquanto Naomi Watts impede que Karen seja apenas uma passagem na recuperação do protagonista. Judah Lewis completa o grupo com espontaneidade e alguma insolência. Cada personagem deseja algo concreto de Davis. Phil cobra respeito pela filha, Karen busca companhia e Chris quer ser ouvido. Davis, contudo, ainda procura uma maneira de voltar a sentir.

Sensível sem ficar açucarado, “Demolição” mostra o luto como uma experiência desordenada, por vezes cruel e difícil de reconhecer. Nem todas as escolhas do roteiro possuem a mesma delicadeza, e algumas metáforas são marteladas além do necessário. Gyllenhaal, porém, mantém Davis vivo por trás da frieza. Quando começa a quebrar a casa, ele já perdeu o emprego de representar para os outros um viúvo aceitável.


Filme: Demolição
Diretor: Jean-Marc Vallée
Ano: 2015
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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