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Antes que William Shakespeare se tornasse uma instituição, um busto, uma coleção de peças e um sobrenome usado para intimidar estudantes, havia um jovem tutor de latim preso à oficina do pai em Stratford-upon-Avon. “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” entra justamente nesse período indistinto, quando o futuro dramaturgo ainda não passava de Will, um rapaz inteligente, franzino e inquieto, atraído por Agnes, mulher que dorme sob as árvores, cria um falcão e desperta na vizinhança o temor destinado às criaturas que não se submetem facilmente. Chloé Zhao adapta o romance publicado por Maggie O’Farrell em 2020 e escreve o roteiro com a autora, deslocando Shakespeare da posição de monumento para o canto de uma casa dominada por Agnes.

Jessie Buckley aparece em comunhão física com a paisagem, atravessando bosques, tocando cascas, observando animais e pressentindo acontecimentos cuja explicação seria inútil. Essa inclinação mística corre o risco de transformar Agnes numa feiticeira de catálogo turístico, e Zhao chega perto disso algumas vezes. O que salva a personagem é Buckley, que trata cada excentricidade como uma extensão concreta de seu temperamento, não como ornamento. Paul Mescal, na pele de Will, responde com um Shakespeare mais carnal e menos solene. Ele conta histórias para seduzi-la, enfrenta a família, casa-se com uma mulher já grávida e descobre que talento nenhum dispensa um homem de conseguir dinheiro para alimentar os filhos.

O nascimento de Susanna e, depois, dos gêmeos Hamnet e Judith oferece ao casal uma breve vida doméstica, cheia de correrias, refeições e pequenas alianças infantis. Will parte para Londres, onde o teatro lhe abre uma saída profissional e o afasta do cotidiano que Agnes sustenta. Zhao evita fazer da ausência uma vilania fácil. Ele precisa trabalhar, deseja escrever, sente-se sufocado pela oficina paterna e volta para casa sempre como alguém que ama aquele lugar, embora já não pertença inteiramente a ele. Agnes vê a partida com orgulho e ressentimento, duas reações que Buckley deixa conviver sem discurso explicativo.

A peste chega à casa dos Shakespeare

A peste chega primeiro ao corpo de Judith. Hamnet deita-se ao lado da irmã, conta-lhe uma história e oferece-se à morte em seu lugar, gesto de criança que a diretora filma com uma gravidade quase ritual. Judith melhora; o menino adoece. Agnes usa ervas, compressas e todo o conhecimento acumulado junto às plantas, enquanto a respiração do filho vai ficando mais curta. Will está em Londres. Quando retorna, encontra Hamnet preparado para o enterro e uma esposa que não consegue enxergar naquela chegada tardia nenhuma forma de consolo. Jacobi Jupe não interpreta o garoto como um símbolo destinado ao sacrifício. Sua vivacidade anterior, a cumplicidade com Judith e o desejo de subir num palco dão peso ao espaço que fica vazio depois de sua morte.

É nesse segmento que Buckley toma o filme. Agnes não sofre com beleza, discrição ou a elegância habitual dos melodramas de época. Ela grita, contorce-se, agride o marido, cava na terra e passa pelos cômodos como quem procura o filho atrás dos móveis. Mescal escolhe outra estrada. Will encolhe, tenta aproximar-se, compra uma casa maior como se paredes pudessem corrigir a ausência e retorna a Londres, onde transforma a dor num trabalho que Agnes interpreta como abandono. A incompatibilidade dos dois modos de sofrer ameaça o casamento com uma força que nenhum adultério teria. Zhao mantém a câmera perto dos corpos, permitindo que o luto apareça na rigidez dos ombros, nas mãos sem destino e na distância entre duas pessoas sentadas no mesmo quarto.

Barro, velas e a música do luto

Łukasz Żal fotografa bosques úmidos, interiores iluminados por velas e rostos atravessados pela luz das janelas sem transformar a Inglaterra do século 16 numa coleção de quadros decorativos. A câmera move-se devagar, detendo-se no barro, na palha, na madeira e nas roupas gastas, elementos que devolvem ao clã Shakespeare sua condição terrena. Max Richter reforça esse andamento com vozes femininas, cordas e uma partitura que às vezes insiste onde o desempenho dos atores já bastaria. O uso de “On the Nature of Daylight” carrega lembranças de outros filmes, especialmente “A Chegada”, e poderia soar como uma convocação automática às lágrimas; na sequência final, a composição encontra uma imagem forte o bastante para reclamá-la de volta.

Agnes viaja a Londres ao descobrir que Will escreveu uma peça cujo título reproduz quase exatamente o nome do filho. A princípio, o gesto lhe parece uma apropriação intolerável. No Globe, ela vê o marido interpretar o fantasma do rei assassinado, enquanto um jovem príncipe chamado Hamlet tenta compreender a morte do pai. Aos poucos, percebe a inversão preparada por Will. No palco, é o filho quem sobrevive tempo suficiente para perder o pai, lutar, falar e receber uma despedida. Quando o ator cai e estende a mão, Agnes avança; outros espectadores repetem seu gesto, e a dor fechada naquela família passa de braço em braço pela plateia. Zhao alcança aí o ponto para o qual vinha conduzindo cada árvore, cada ausência e cada palavra mal pronunciada.

Há momentos em que “Hamnet” força a natureza encantada de Agnes e reveste o sofrimento com uma solenidade demasiadamente consciente de seu prestígio. Nada disso diminui o impacto de Jessie Buckley, Paul Mescal e Jacobi Jupe, nem a inteligência com que Zhao imagina a origem emocional de uma peça cuja verdadeira gênese ninguém poderá reconstituir. O menino morre em Stratford e torna a morrer no palco, desta vez cercado por mãos que se levantam para ampará-lo; Agnes finalmente consegue soltá-lo porque, durante alguns minutos, uma casa inteira de desconhecidos o segura com ela.


Filme: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Diretor: Chloé Zhao
Ano: 2025
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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