Darren Aronofsky levou aos cinemas “Noé”, uma versão sombria da história bíblica sobre o homem escolhido por Deus para salvar os animais de um dilúvio que exterminaria a humanidade. Russell Crowe interpreta o patriarca, que vive com a família em uma terra devastada pela violência e pela disputa por recursos. Depois de receber visões sobre a destruição do mundo, ele inicia a construção de uma arca e assume uma missão que ameaça consumir sua fé, seu afeto e sua capacidade de proteger as pessoas mais próximas.
Noé ainda é criança quando presencia o assassinato do pai, Lameque (Marton Csokas), cometido por Tubalcaim (Ray Winstone). O criminoso pertence à linhagem de Caim e lidera homens que ocupam terras, saqueiam alimentos e exploram tudo o que conseguem dominar. O menino perde o pai e cresce sabendo que a força vale mais do que qualquer princípio naquele mundo.
Décadas depois, Noé (Russell Crowe) vive afastado dos grandes agrupamentos humanos. Ao lado da esposa, Naameh (Jennifer Connelly), ele cria os filhos Sem (Douglas Booth), Cam (Logan Lerman) e Jafé (Leo McHugh Carroll). A família tenta sobreviver sem repetir a brutalidade dos demais habitantes da região, mas o isolamento também significa pouca comida, escassez de ferramentas e ausência de aliados.
Durante uma caminhada, Noé tem visões inquietantes. Ele vê água cobrindo a terra e inúmeros corpos submersos. Sem saber ao certo o que aquelas imagens significam, decide procurar o avô Matusalém (Anthony Hopkins), homem antigo e respeitado que vive distante dos assentamentos. A viagem ganha urgência porque os sonhos continuam e anunciam uma catástrofe que ninguém ao redor parece disposto a reconhecer.
A missão de construir a arca
No caminho, a família passa por um acampamento atacado e encontra Ila (Emma Watson), uma menina gravemente ferida e única sobrevivente do massacre. Noé e Naameh acolhem a criança, que cresce ao lado dos filhos do casal e desenvolve uma relação amorosa com Sem. Uma lesão sofrida durante o ataque, porém, faz Ila acreditar que jamais poderá ter filhos.
Ao conversar com Matusalém, Noé confirma que as visões anunciam um dilúvio enviado para eliminar uma humanidade corrompida. Sua tarefa será construir uma embarcação capaz de abrigar os animais durante a tempestade. Matusalém entrega ao neto uma semente ligada ao Jardim do Éden. Quando plantada, ela fornece a madeira necessária para o projeto.
A matéria-prima resolve apenas uma parte do problema. Noé ainda precisa levantar uma arca gigantesca antes da chegada da chuva. A ajuda surge dos Vigilantes, anjos que desceram à Terra para auxiliar os seres humanos e acabaram aprisionados em corpos de pedra e lama. Rejeitados pelo Criador e perseguidos pelos homens, eles inicialmente desconfiam da família. Depois, reconhecem a missão de Noé e usam sua força para erguer a embarcação.
A presença dessas criaturas indica que Darren Aronofsky não pretende reproduzir uma ilustração religiosa dócil, daquelas em que girafas e elefantes aguardam educadamente a vez de embarcar. “Noé” mistura drama bíblico, fantasia e aventura, com anjos rochosos que lembram personagens saídos de uma produção épica. A escolha pode causar estranhamento, mas oferece uma dimensão física ao trabalho necessário para construir a arca.
Os animais chegam e os homens se aproximam
Enquanto a obra avança, animais de várias espécies chegam ao local em pares. Eles são acomodados dentro da embarcação e colocados para dormir com o uso de uma fumaça preparada pela família. A solução impede que milhares de criaturas transformem o interior da arca em uma mistura de zoológico, curral e pesadelo sanitário. Também conserva os poucos alimentos disponíveis durante a viagem.
A chegada dos animais confirma que o dilúvio está próximo. Também chama a atenção de Tubalcaim, que agora governa um exército de homens famintos e desesperados. Ao descobrir a embarcação, ele procura Noé e exige um lugar. Tubalcaim acredita que os seres humanos possuem o direito de dominar a criação e não aceita que um homem isolado decida quem poderá sobreviver.
Noé rejeita a exigência. Para ele, os animais são inocentes, enquanto a humanidade destruiu a terra e merece desaparecer. Essa certeza torna o protagonista mais difícil e interessante. Russell Crowe não interpreta um patriarca sereno, sempre pronto a distribuir conselhos sábios. Seu Noé é forte, cansado e cada vez mais obcecado pela tarefa recebida.
Tubalcaim reúne seguidores ao redor da construção e prepara uma invasão. A ameaça coloca os Vigilantes entre o exército e a arca, enquanto a família tenta terminar os preparativos. A aventura cresce nesse trecho, mas Aronofsky mantém o foco nas escolhas domésticas. O maior perigo pode estar fora da embarcação, embora as divergências entre pais e filhos já tenham atravessado a porta.
Uma família dividida pela missão
Cam (Logan Lerman) sofre por não ter uma companheira. Ele teme entrar na arca sem a possibilidade de formar sua própria família depois do dilúvio. O rapaz procura uma jovem entre os habitantes da região, contrariando as ordens do pai e expondo todos ao ataque de Tubalcaim. Seu ressentimento aumenta quando Noé se recusa a considerar aquilo que o filho deseja.
Sem (Douglas Booth) vive uma situação diferente. Ele ama Ila (Emma Watson), mas os dois acreditam que a ferida dela impede uma gravidez. Jafé (Leo McHugh Carroll), o caçula, ainda é jovem demais para questionar o pai com a mesma firmeza. A ausência de companheiras para os filhos leva Noé a concluir que sua família foi escolhida apenas para salvar os animais, e não para repovoar a Terra.
Naameh (Jennifer Connelly) percebe o sofrimento dos filhos e enfrenta o marido. Ela respeita sua fé, ajudou a construir a arca e suportou anos de privação, mas não aceita que a missão apague os laços familiares. Connelly oferece calor e firmeza a uma personagem que poderia ficar restrita ao papel de esposa compreensiva. Naameh participa das decisões, protege os jovens e cobra de Noé uma compaixão que ele começa a tratar como fraqueza.
A relação entre Noé e Naameh dá à produção sua parte mais humana. Enquanto ele interpreta o silêncio de Deus com severidade, ela observa as pessoas que poderão pagar por essa interpretação. O casal continua unido pela necessidade de sobreviver, embora a confiança acumulada ao longo dos anos comece a se romper dentro da própria arca.
Um épico bíblico pouco convencional
Aronofsky transforma o relato do Gênesis em uma história sobre fé, medo e autoridade familiar. A água, os animais e a construção oferecem a grandiosidade esperada de uma aventura bíblica. O drama nasce quando Noé assume que precisa decidir o destino de todos, inclusive das pessoas que ama. A missão recebida de Deus passa a disputar espaço com a responsabilidade de marido, pai e avô de uma nova geração.
Russell Crowe sustenta essa contradição sem buscar simpatia o tempo inteiro. Seu personagem pode ser protetor em uma cena e assustador pouco depois. Jennifer Connelly equilibra a dureza do protagonista, enquanto Emma Watson dá a Ila uma sensibilidade que ganha importância dentro da família. Ray Winstone interpreta Tubalcaim com brutalidade, mas também oferece ao vilão argumentos compreensíveis sobre sobrevivência e poder.
“Noé” toma várias liberdades em relação ao texto bíblico, especialmente ao desenvolver os Vigilantes, os conflitos entre os filhos e a personalidade do protagonista. Essas escolhas podem incomodar quem espera uma adaptação fiel e reverente. Para quem aceita uma releitura, porém, o longa oferece uma versão corajosa, irregular e inquietante de uma história conhecida.
O resultado mistura ação, aventura, fantasia e drama familiar sem transformar Noé em santo de vitral. Aronofsky prefere acompanhá-lo como um homem esmagado pela responsabilidade de interpretar uma ordem divina. A arca consegue proteger seus ocupantes da tempestade, mas não os livra das escolhas tomadas antes de a porta ser fechada.

