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Cobrar dinheiro de quem não tem exige uma combinação de força, método e indiferença. Num dominava as três coisas até matar um devedor e atingir também a filha pequena do homem, crime que o levou à prisão e deixou-lhe uma culpa mais resistente que qualquer sentença. “O Cobrador de Dívidas” — “Khon Dueat Thuang Khaen”, no original —, thriller tailandês de 2026 dirigido por Surapong Ploensang, parte do submundo dos empréstimos ilegais para acompanhar um homem cujo corpo está morrendo antes que ele encontre uma maneira de pagar pelo que fez. O roteiro de Ploensang, Onusa Donsawai e Pun Homchuen usa a violência das cobranças clandestinas como ambiente concreto, sem esconder o componente econômico que entrega trabalhadores pobres às mãos de quadrilhas.

Dez anos depois, Num sai da cadeia com um tumor cerebral inoperável e pouco tempo de vida. Tenta trabalhar como entregador, fala o necessário e aproxima-se de Vovó Lek e da neta Nid Noi, moradoras de uma comunidade em que os agiotas chegam antes de qualquer assistência pública. A velha deve dinheiro ao grupo de Madam Pin, antiga chefe de Num, e os cobradores aparecem para lembrar que juros ilegais também vencem quando o devedor não tem o que comer. Num interfere numa agressão e chama a atenção de Po, filho de Pin, um herdeiro mimado que confunde crueldade com aptidão para comandar. O incêndio da casa de Lek devolve o ex-presidiário ao mundo que ele pretendia evitar, agora sem a esperança pueril de sair ileso.

O corpo ainda se lembra da violência

Nadech Kugimiya surge coberto por cicatrizes, tatuagens e um cansaço que parece anterior à doença. Sua melhor escolha está em conter Num. O personagem quase nunca explica o remorso, e o ator deixa que a rigidez do pescoço, a respiração difícil e a demora antes de reagir façam esse trabalho. Quando começa uma luta, a apatia dá lugar à memória muscular do antigo cobrador, alguém que reconhece o ponto exato onde um corpo quebra porque passou anos exercendo essa ciência infame. Ploensang prefere combates filmados em planos longos e próximos do chão, fazendo com que socos tenham peso, tropeços comprometam o equilíbrio e cada vitória retire do protagonista outra parcela da energia que lhe resta.

Daou Pittaya Saechua diverte-se com a torpeza de Po. O vilão desfila roupas impecáveis por vielas onde famílias perdem casas, eletrodomésticos e dentes para pagar dívidas insignificantes, sempre protegido pela influência da mãe e por policiais comprados. A desenvoltura do ator impede que Po seja só um sádico ruidoso, conferindo-lhe o ressentimento de um filho que sabe ter herdado o império sem merecê-lo. Madam Pin, vivida por Nuanprang Trichit, entende melhor a ameaça representada por Num e tenta administrar o conflito como uma empresária, mesmo que seu negócio dependa de homens armados quebrando dedos. O encontro entre o antigo funcionário e a chefe, à beira de um píer, preserva essa frieza até a violência reclamar o espaço que sempre lhe pertenceu.

A lei chega tarde à cobrança

A entrada tardia de Kong compromete o andamento. Chaiwat Thongsaeng interpreta o policial que cresceu com Num num orfanato e agora investiga a organização de Madam Pin enquanto procura dinheiro para a cirurgia da filha bebê. O personagem estabelece um contraponto útil, preso à lei e às mesmas urgências financeiras que empurram outros para a criminalidade, só que Ploensang praticamente reinicia o filme para apresentá-lo. Em seus mais de 130 minutos, “O Cobrador de Dívidas” poderia prescindir de desvios processuais e chegar com maior rapidez a sequências como o confronto num motódromo de parque de diversões, lugar em que a encenação encontra uma personalidade mais áspera e menos dependente do modelo “John Wick”.

O encerramento recusa qualquer cura milagrosa para Num. Seu esforço impede que outra criança seja sacrificada pela mesma engrenagem que o transformou em assassino, sem apagar a menina que ele matou nem devolver Vovó Lek à neta. Kugimiya conduz o personagem até o limite sem reivindicar absolvição, e esse cuidado salva o filme de uma redenção barata. Quando as cinzas de Num chegam ao rio, a quadrilha perdeu homens, a polícia fabrica seus heróis e as famílias continuam precisando de dinheiro. A dívida do cobrador termina. O sistema que a produziu permanece aberto para novos clientes.


Filme: O Cobrador de Dívidas
Diretor: Surapong Ploensang
Ano: 2026
Gênero: Ação/Crime/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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