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Teorias conspiratórias costumam nascer de uma verdade pequena, ferida e insuficiente, à qual alguém acrescenta túneis secretos, laboratórios clandestinos, crianças sequestradas e a mão invisível de uma corporação disposta a dominar o mundo. Martín já passou desse estágio quando Ruth atravessa a porta da casa da família. Em “Conspiradores” — “Los Creyentes”, no original espanhol —, Roger Gual explora a facilidade com que o luto transforma desconfianças ordinárias em certezas absolutas, recorrendo ao roteiro de Carlos Montero e Darío Madrona, antigos parceiros em “Elite”, e ao confronto entre José Coronado e Stéphanie Magnin para sustentar este thriller psicológico de 2026.

Ruth tem trinta anos, mora longe dos pais e regressa depois da morte de Lucía, encontrada sem vida no banheiro. Fanny Gautier aparece em lembranças que não esclarecem tanto quanto perturbam, ao passo que Martín, aposentado e entregue a uma irritação permanente, recebe a filha como se ela fosse uma intrusa. A casa guarda câmeras escondidas, papéis empilhados, mapas e um sótão convertido numa central de inteligência para um homem que passa os dias relacionando rastros de aviões, vacinas, desaparecimentos e as atividades da farmacêutica Certyx. O que poderia soar como mania inofensiva ganha outra natureza quando Ruth começa a pensar que o pai teve participação na morte da mãe. A permanência sob o mesmo teto passa a ter a forma de um interrogatório em que ninguém admite estar fazendo perguntas.

A paranoia diante dos monitores

Gual acerta quando deixa Martín sentado diante de seus monitores, falando com a serenidade de quem já não precisa provar nada. José Coronado sabe que a ameaça perde vigor quando se anuncia e compõe o personagem por meio de pausas, olhares enviesados e súbitas explosões, sem oferecer ao público o conforto de classificá-lo como louco ou assassino. Magnin move Ruth no sentido oposto. A personagem observa gavetas, abre portas, examina gravações e procura em cada silêncio uma confissão. A fotografia de Juana Jiménez cobre os interiores com tonalidades frias, fazendo da casa um lugar em que pai e filha parecem parentes apenas nas fotografias antigas. Os planos fechados preservam a tensão; as tomadas aéreas da região, repetidas com certo automatismo, diluem a claustrofobia que o filme vinha construindo com competência.

A melhor ideia de “Conspiradores” surge quando Ruth começa a reproduzir o método de Martín. O pai reúne fatos verdadeiros — a poluição causada pela Certyx, o desaparecimento do menino Alejandro, a opacidade da empresa — e força-os a confirmar sua fantasia sobre experiências humanas em instalações subterrâneas. A filha recolhe a agressividade dele, a recaída de Lucía no alcoolismo, as câmeras e a presença suspeita de Berta, transformando esse material numa acusação de homicídio. Ambos precisam que o sofrimento tenha um culpado visível. Gual encontra aí um movimento dramático muito mais instigante que a investigação policial sugerida na primeira metade, uma vez que a paranoia deixa de ser excentricidade de um homem envelhecido e passa a contaminar quem se considerava imune.

Os personagens periféricos pagam o preço dessa concentração. Arón entra como possível aliado e peça da Certyx, Berta parece destinada a abrir outra dimensão da loucura de Martín, Lucía permanece presa a recordações funcionais. Quando o enredo abandona a casa e parte para explosivos, invasões e paredes demolidas, Gual troca uma boa guerra doméstica por um clímax convencional, ruidoso e apressado. Ainda assim, Coronado deixa atrás de si a imagem incômoda de um homem que prefere morrer dentro da própria versão dos fatos a voltar para uma realidade onde a esposa se foi, a filha o teme e nenhuma teoria poderá restituir-lhe coisa alguma. A última manifestação em Berlim mostra que Martín desapareceu, enquanto sua convicção, órfã de provas e cheia de novos adeptos, continua caminhando pelas ruas.


Filme: Conspiradores
Diretor: Roger Gual
Ano: 2026
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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