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O Velho Oeste nunca precisou de homens bons. Precisava de sujeitos que conseguissem permanecer de pé quando a lei, o dinheiro e a própria família já haviam decidido abandoná-los. Dan Evans não tem sequer essa vantagem física. Veterano da Guerra Civil, mutilado numa das pernas, endividado e prestes a perder a fazenda, ele encontra em Ben Wade a oportunidade de recuperar a terra e, sobretudo, a autoridade diante do filho. James Mangold transforma “Os Indomáveis” — “3:10 to Yuma”, de 2007 — numa disputa entre dois homens que tentam descobrir quanto vale a palavra de cada um. A produção retoma o filme de Delmer Daves, lançado em 1957, e o conto de Elmore Leonard, expandindo o conflito moral com uma violência seca, direta e condizente com aquela paisagem sem instituições confiáveis.

Evans vive com Alice e os dois filhos numa propriedade castigada pela seca no Arizona. O gado não tem água, o celeiro é incendiado por capangas de um latifundiário e William, o primogênito, olha para o pai com a condescendência cruel que adolescentes reservam aos adultos derrotados. Christian Bale carrega no corpo a vergonha de Dan, curvando-se ao caminhar e medindo as palavras como alguém que já precisou pedir demasiados favores. Quando Ben Wade é capturado, Dan aceita integrar o grupo que deverá conduzi-lo até Contention, onde o fora da lei embarcará no trem das 3h10 para a prisão de Yuma. A missão rende dinheiro; a possibilidade de concluí-la diante de William vale muito mais para aquele fazendeiro.

A civilidade perigosa de Ben Wade

Russell Crowe empresta a Wade uma civilidade que o torna ainda mais perigoso. O bandido desenha rostos, cita a Bíblia, conversa com mulheres sem a brutalidade dos homens ditos respeitáveis e mata com a mesma calma com que pede uma refeição. Crowe faz dele o sujeito mais inteligente de qualquer cômodo, atento às carências dos outros e especialmente interessado na obstinação quase ridícula de Dan. Wade oferece dinheiro, descreve as prováveis consequências da escolta, lembra ao fazendeiro que a companhia ferroviária não merece sacrifício algum. Dan continua. O duelo dos dois não se organiza por força física, já que Wade poderia liquidá-lo em segundos; Mangold fixa-se na irritação crescente do criminoso diante de alguém que defende uma honra sem utilidade prática.

A travessia pelo deserto amplia essa diferença. Byron McElroy, o caçador de recompensas encarnado por Peter Fonda, traz no rosto e na voz o prazer de exercer violência sob uma autorização oficial. Doc Potter, de Alan Tudyk, tenta preservar alguma civilidade entre homens que já perderam o hábito. Ben Foster, na pele de Charlie Prince, veste o fanatismo como um belo casaco de couro, obedecendo a Wade com uma devoção cuja intensidade deixa entrever ciúme, paixão e necessidade de aprovação. O personagem poderia ser apenas o pistoleiro feroz encarregado de resgatar o chefe; Foster faz dele uma criatura ferida todas as vezes em que percebe a curiosidade de Wade por Dan.

Mangold filma os ataques com clareza, sem converter tiroteios em borrões de montagem, e usa a chegada à cidade para reduzir o faroeste a sua essência. Um hotel, uma rua, um trem próximo e dezenas de homens comprados pelo bando de Wade. O desfecho exige algumas concessões à lógica, sobretudo quando o prisioneiro passa a colaborar com o carcereiro e corre ao lado dele rumo à estação. Essa aproximação, preparada desde o primeiro encontro, encontra fundamento no fascínio de Wade por uma coragem que ele próprio nunca precisou cultivar. Dan não conduz o fora da lei para salvar a ferrovia ou servir ao Estado. Quer que o filho possa dizer que o pai, ao menos uma vez, terminou o que começara. Bale e Crowe fazem desse gesto uma das mais belas histórias de lealdade involuntária do faroeste moderno, enquanto o apito do trem anuncia que certas vitórias chegam tarde o bastante para se confundirem com derrota.


Filme: Os Indomáveis
Diretor: James Mangold
Ano: 2007
Gênero: Ação/Drama/Faroeste
Avaliação: 4.5/5 1 1
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