Apresentadoras infantis em trajes sumários, brinquedos vistosos e criativos, programas dominicais com gente seminua, canções de duplo sentido que hoje soam apenas ridículas e um personagem de cabelos loiros escorridos numa franja, músculos e vozeirão tonitruante. Para alguém que foi criança ao longo dos anos 1980, a palavra He-Man é como a senha que dá acesso a um portal para uma outra dimensão. Todos os dias, os moleques da vizinhança ou da escola se reuniam para brincar de alguma coisa que mencionasse, mesmo que obliquamente, a figura desse herói incomparável, com espaço até os para coadjuvantes, e sem as encucações dos adultos com “mensagens subliminares”. Travis Knight resgata em “Mestres do Universo” a magia da aventura épica mais kitsch da cultura pop num espetáculo de cor, brilho e movimento, oferecendo aos fãs uma ótima chance de matar a saudade do Defensor de Grayskull e dos bons tempos num filme cujas adaptações casam lindamente com o original.
A nostalgia é a alma do negócio
Durante o longo preâmbulo, semelhante ao que se assistia quatro décadas atrás, o príncipe Adam explica como foi forçado a deixar Eternia, seu planeta natal, e cair aqui, ou melhor, em Nova York. Ele não tem mais direito aos apanágios da realeza, tem de pagar boletos como todo mundo, mas continua sonhando acordado com sua terra de dragões e unicórnios, enquanto tenta recuperar a Espada do Poder e, assim, garantir seu regresso ao lar, doce lar. Esse flashback, com a devida apresentação das figuras centrais da animação desenvolvida por Lou Scheimer (1928-2013) e roteirizada por J. Michael Straczynski, dá corpo ao Homem de Armas, chamado apenas de Mentor na versão nacional, e à Feiticeira, e Idris Elba e Morena Baccarin parecem terem nascido para os papéis. O mesmo pode-se dizer de Nicholas Galitzine e Jared Leto, os arquirrivais He-Man e Esqueleto, encarnando o batido choque do bem e do mal, depois de uma aparição de Dolph Lundgren, o protagonista do longa dirigido por Gary Goddard em 1987. A lição do Gorpo, naturalmente, também não poderia faltar.

