Novas perspectivas e novos mundos muitas vezes se nos descortinam nascidos de questões que nem sempre soam oportunas. Liberdade talvez seja o mais caro dos valores da condição humana, e em assim sendo, como sói acontecer, torna-se imprescindível quando falta. Um homem recém-saído da cadeia tenta recompor suas forças, mas depara-se com um desafio ainda maior, quiçá o milagre que busca. Este é o ponto de partida de “O Sonho pela Redenção”, uma história que deixa esse argumento um pouco menos genérico, um pouco menos nebuloso, e muito mais objetivo, ainda que Sheldon Candis não se furte a somar ao corpo de seu filme um mistério que vai tomando ares de uma inescapável sensação de desconforto gradual, de repulsa frente ao que o diretor reserva para mostrar no instante exato. Candis e os corroteiristas Michael Minahan e Andrew Renzi não perdem a chance de dar novo fôlego a um gênero que intriga o público desde sempre, menos pelas situações em que medo e euforia se fundem que pela crítica levantada contra elementos da vida que passam por normais, a despeito do incômodo que deveriam causar.
Coragem para recomeçar
O exercício de digressão filosófica proposto por Candis, emoldurado por filigranas técnicas que realçam sua criatividade, suscitam na audiência uma frêmito estranho, entre a piedade e revolta. Walter Manigan recebe tranquilo a autorização para cumprir o restante de sua sentença em liberdade condicional, mas sabe que sua vida não será um mar de rosas. Ele deixa a prisão com a sacola em que guarda suas miudezas, volta a procurar amigos suspeitos, dorme na rua, mas é acolhido por Slim, o coordenador de um programa que ensina boxe a garotos em situação de vulnerabilidade. O diretor é hábil em juntar as cenas dos dois homens com a participação das crianças, recurso que resulta num providencial dinamismo na introdução, momento em que os dramas de cada um deles vêm à superfície. André Holland costura quatro subtramas distintas, mas complementares, que vão oscilando da tragédia para o melodrama, representado por um Wendell Pierce que empenha-se em dar a mesma ênfase ao laconismo e à ternura de Slim. A admirável espontaneidade de Anthony B. Jenkins e Toissant François Battiste, por seu turno, encarnam a salvação a que alude o título, debochando da sina infeliz que os persegue. Esses, sim, nunca jogam a toalha.

