O que o amor tem para nos enfeitiçar tanto? Passam-se os anos, as décadas, os séculos, e o ideal romântico segue como a grande aspiração de gente pobre, gente rica, nos palacetes, nos tugúrios, conduzindo o processo civilizatório em tempos de barbárie, hipnotizando mesmo aqueles que, não sem motivo, há muito perderam toda a fé em Eros. Elize Araújo Giacomini atreveu-se a pensar que ela também tinha direito, que o mais humano dos sentimentos também era para si, mas existe uma grande diferença entre o sonho e a ilusão. Elize nunca foi santa, claro, mas quis ser, como mostra Felipe Vellasco em “Elize: Sombras de Uma Mulher”, o novo lançamento da Netflix sobre sua vida — ou melhor, sobre uma parte dela. Cinco anos depois de “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime” (2021), série documental dirigida por Eliza Capai, a moça simples de Chopinzinho, sudoeste do Paraná, volta a atrair os olhares, desta vez numa reconstituição ficcional de seu inferno particular. Sua dor saiu no jornal, enfim.
Pedaços de uma mulher
Elize decerto pensou em casar-se com o primeiro namorado, com quem teria os filhos que poderiam oferecer-lhe consolo quando o sol da vida descesse e a velhice fosse se impondo. Em vez disso, porém, mudou-se para São Paulo, depois de uma breve passagem por Curitiba, deu expediente como secretária no gabinete de um deputado estadual, e nas horas vagas, foi Kelly e Juliana e Marielly, seus nomes de guerra em sites que agenciavam prostitutas de luxo. Em seu ofício paralelo, conheceu Marcos, um empresário nipo-brasileiro de 34 anos, e aos 23 seu novo plano de ascender usando a sedução parecia infalível. Uma boa parte do roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres dedica-se a recapitular o namoro dos dois, quando Elize era apenas a amante do diretor executivo da Yoki, a empresa da família, sem dúvida o melhor segmento do longa. Trechos de um safári acabam por ilustrar a idiossincrasia daquele relacionamento, sujo, mas idílico assim mesmo. Lorena Comparato usa todas essas referências a fim de elaborar a ambiguidade de Elize, de fato engolida por uma bruma de engano e solidão a dois, agora esposa, mas ainda tratada como mero passatempo sexual. O esquartejamento do corpo de Marcos, após uma das tantas brigas do casal, rendeu-lhe 19 anos, 11 meses e um dia de cadeia, dos quais cumpriu a metade. Mas ela nunca deixará de ser julgada.

