Em Nova York, Evan McCauley (Mark Wahlberg) tenta conseguir emprego enquanto convive com lembranças de lugares que nunca visitou e habilidades que ninguém lhe ensinou. Considerado esquizofrênico desde jovem, ele descobre que essas imagens podem pertencer a vidas anteriores. Dirigido por Antoine Fuqua, “Infinito” transforma essa descoberta em uma aventura de ação e ficção científica, na qual duas facções disputam uma arma capaz de destruir a humanidade e encerrar o ciclo das reencarnações.
A história começa na Cidade do México, em 1985. Heinrich Treadway (Dylan O’Brien) foge de Bathurst (Rupert Friend) após roubar um objeto conhecido como Ovo. Durante a perseguição, Treadway dirige em alta velocidade pelas ruas, salta de um carro em movimento e demonstra habilidades pouco compatíveis com uma vida comum. Antes de desaparecer, deixa uma orientação enigmática para Abel (Tom Hughes), seu companheiro naquela missão.
Décadas depois, Evan vive em Nova York cercado pelas consequências de um diagnóstico psiquiátrico. Internações anteriores e episódios de violência dificultam sua entrada no mercado de trabalho. Sem dinheiro para comprar os medicamentos, ele forja uma katana para um criminoso, embora jamais tenha recebido treinamento como ferreiro. O negócio sai do controle, Evan foge da quadrilha e termina preso.
A katana oferece a primeira evidência de que existe algo estranho em sua história. Evan domina técnicas que desconhece ter estudado e reconhece objetos ligados a épocas muito anteriores ao seu nascimento. Para ele, essas lembranças sempre foram sintomas de uma doença. Para outras pessoas, representam peças de uma guerra iniciada séculos antes.
Um inimigo que conhece seu passado
Na delegacia, Evan recebe a visita de Bathurst (Chiwetel Ejiofor), um homem que afirma conhecê-lo há várias vidas. O desconhecido espalha objetos antigos sobre uma mesa e exige que ele identifique quais pertenciam à sua existência anterior. Evan desconfia da conversa, mas suas reações revelam que parte daquela história permanece guardada em sua memória.
Bathurst acredita que Evan seja a nova encarnação de Treadway. O fugitivo visto em 1985 teria escondido o Ovo antes de morrer, impedindo que a arma caísse nas mãos erradas. Agora, o vilão precisa recuperar essas lembranças para descobrir onde o objeto foi deixado. Chiwetel Ejiofor interpreta o antagonista com solenidade e certa extravagância, transformando cada conversa numa ameaça educada demais para ser tranquilizadora.
Nora Brightman (Sophie Cookson) invade a delegacia e resgata Evan antes que Bathurst consiga arrancar a informação desejada. Durante a fuga, ela revela a existência dos Infinitos, um grupo formado por centenas de pessoas capazes de renascer com as recordações acumuladas em outras vidas. Algumas recuperam esse passado ainda na adolescência. Outras, como Evan, recebem diagnósticos médicos porque ninguém ao redor consegue explicar aquilo que relatam.
Essa abordagem toca num terreno delicado. “Infinito” usa a esquizofrenia como ponto de partida para uma revelação fantástica, mas dedica pouco tempo às consequências emocionais do diagnóstico. Evan passou anos acreditando que sua mente o traía e, de repente, escuta que estava certo desde o começo. A descoberta poderia provocar alívio, raiva e medo. Mark Wahlberg, porém, atravessa boa parte dessas mudanças com uma expressão quase permanente de desconfiança.
Crentes e Niilistas entram em guerra
Os Infinitos estão divididos entre Crentes e Niilistas. Nora pertence ao primeiro grupo, que usa o conhecimento das vidas anteriores para ajudar a humanidade. Bathurst lidera os Niilistas, cansados de nascer, morrer e retornar repetidamente. Para interromper esse ciclo, ele pretende usar o Ovo e eliminar toda a vida no planeta. É uma solução um tanto radical para uma crise existencial, mas Chiwetel Ejiofor a defende com a seriedade de quem já perdeu a paciência há alguns séculos.
Nora leva Evan para a sede dos Crentes, onde ele conhece outros integrantes da organização e começa um treinamento destinado a recuperar suas memórias. O grupo acredita que Treadway sabia onde o Ovo estava escondido. Sem acesso a essa informação, os Crentes permanecem em desvantagem e Bathurst continua perseguindo qualquer pista deixada pelo antigo guerreiro.
Evan aprende técnicas de combate, reconhece movimentos e percebe que seu corpo reage antes que sua consciência consiga explicar o gesto. Cada descoberta confirma sua ligação com Treadway, mas as lembranças completas permanecem bloqueadas. Tratamentos médicos recebidos durante a juventude e um acidente sofrido anteriormente dificultaram esse acesso. O tempo também trabalha contra o grupo, pois Bathurst possui agentes, armas e recursos suficientes para invadir seus esconderijos.
A ameaça inclui o Destronador, uma arma criada pelos Niilistas para aprisionar a consciência de um Infinito. A vítima deixa de renascer e permanece presa em um pequeno recipiente eletrônico. Nora procura libertar Abel, vivido em sua encarnação atual por Tom Hughes, cuja consciência foi capturada. A missão dá uma dimensão pessoal à disputa e oferece à personagem um motivo concreto para permanecer na guerra.
Muita ação para tantas ideias
Antoine Fuqua investe em perseguições de automóveis, lutas, aviões, tiroteios e saltos que desafiam qualquer acordo razoável com a gravidade. O diretor domina o movimento e sabe manter Evan sob pressão. O problema está na quantidade de informações reunidas entre uma fuga e outra. Reencarnação, memória, tecnologia, fanatismo e saúde mental disputam espaço, enquanto os personagens correm para impedir a destruição do mundo.
O roteiro apresenta regras suficientes para sustentar uma história extensa, mas atravessa várias delas com pressa. Nora passa boa parte do tempo explicando a organização dos Infinitos, enquanto Evan precisa aceitar em poucos dias que seus delírios pertencem a outras existências. A aventura ganha energia, embora perca intimidade. Pouco se conhece sobre quem Evan era antes da perseguição, além de seu desemprego, do diagnóstico e da habilidade para fabricar uma katana.
Sophie Cookson oferece firmeza a Nora e preserva a humanidade da personagem mesmo quando o roteiro a transforma em guia do protagonista. Jason Mantzoukas interpreta o Artesão, um Infinito excêntrico que guarda armas, equipamentos e métodos pouco convencionais para recuperar memórias. Sua presença traz leveza a uma história frequentemente ocupada com o fim da humanidade, assunto que raramente favorece conversas descontraídas.
Mark Wahlberg sustenta bem as sequências físicas, mas não transmite toda a vertigem emocional prevista pela premissa. Evan descobre que grande parte de sua vida foi construída sobre uma interpretação incompleta de sua mente. Ainda assim, o ator demonstra maior segurança empunhando uma espada do que lidando com essa revelação. Ejiofor percebe a oportunidade e domina muitas cenas com um vilão que parece aproveitar cada palavra antes de ameaçar alguém.
Uma boa premissa apressada
“Infinito” possui uma ideia atraente e um começo capaz de despertar curiosidade. A katana forjada sem treinamento, os objetos reconhecidos na delegacia e a divisão entre os Infinitos formam uma base promissora. Fuqua, entretanto, prefere acelerar a aventura e reservar menos espaço às perguntas humanas sugeridas pelo enredo.
A produção é movimentada, acessível e por vezes divertida, embora inferior às possibilidades de sua premissa. A guerra entre Crentes e Niilistas permanece compreensível, Bathurst representa uma ameaça convincente e Nora possui razões pessoais para enfrentá-lo. Evan precisa recuperar o passado antes que o inimigo alcance o Ovo, enquanto cada lembrança liberada o aproxima do homem que foi em 1985.
Mesmo sem aprofundar suas melhores ideias, “Infinito” mantém a história legível e oferece ação em quantidade generosa. O filme pede que o espectador aceite séculos de memórias, sociedades secretas e armas que capturam consciências sem fazer muitas perguntas. Quem aceitar o acordo encontrará uma ficção científica agitada, na qual fabricar uma katana pode ser mais útil do que atualizar o currículo.

