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Em uma manhã comum em Berlim, o financista Matt Turner (Liam Neeson) leva os filhos à escola quando recebe uma ligação anônima. A voz informa que existe uma bomba sob seu banco e ameaça matar todos no carro caso alguém tente sair. Dirigido por Nimród Antal, “A Chamada” transforma o veículo familiar em uma prisão sobre rodas, na qual cada rua escolhida pelo protagonista pode colocar três vidas em perigo.

Matt trabalha na Nanite Capital, empresa comandada por seu amigo Anders Muller (Matthew Modine). Ele lida diariamente com grandes investimentos, clientes exigentes e quantias milionárias. Dentro de casa, porém, sua capacidade de administrar problemas anda bem menos eficiente. Heather Turner (Embeth Davidtz), sua esposa, está cansada da distância do marido, enquanto os filhos já perceberam que o trabalho quase sempre recebe mais atenção.

A caminho da escola, Matt tenta conversar com Zach (Jack Champion) e Emily (Lilly Aspell). O adolescente reage com impaciência, e a menina procura tornar o ambiente menos desconfortável. A discussão familiar é interrompida pelo toque de um telefone deixado dentro do carro. Quando Matt atende, escuta uma voz distorcida que conhece sua rotina, sabe quem são seus filhos e afirma ter colocado uma bomba sob o banco do motorista.

O criminoso avisa que a carga está ligada a placas de pressão instaladas nos assentos. Se Matt, Zach ou Emily abandonarem o veículo, todos poderão morrer. Um comando remoto também permitiria ao autor da ligação detonar a bomba caso perceba qualquer pedido de socorro. Matt verifica parte da estrutura sob seu banco e conclui que a ameaça precisa ser levada a sério.

A partir desse momento, o carro deixa de representar segurança. Matt precisa continuar dirigindo pelas ruas de Berlim, seguir as ordens recebidas e esconder o medo dos filhos. Seu objetivo inicial é simples e brutalmente difícil. Manter Zach e Emily vivos até descobrir quem está do outro lado da chamada.

A voz conhece seus negócios

O desconhecido não quer apenas assustar Matt. Ele conhece informações ligadas à Nanite Capital e começa a envolver outras pessoas relacionadas ao financista. Uma delas é Sylvain (Arian Moayed), cliente da empresa que também recebe uma ameaça dentro do próprio automóvel. Ao aproximar os dois casos, o criminoso demonstra que acompanha diferentes veículos e está disposto a punir qualquer tentativa de fuga.

Matt percebe que não poderá ganhar tempo com desculpas. A voz acompanha seus movimentos, muda os endereços e cobra o cumprimento das ordens. Cada desvio pode custar a vida dos filhos. A situação também obriga o protagonista a rever sua postura diante deles. O pai acostumado a resolver tudo pelo telefone agora descobre que o aparelho em sua mão pertence, na prática, a outra pessoa.

Liam Neeson conhece bem esse tipo de personagem. Seu Matt é um homem experiente, pressionado por uma ameaça invisível e obrigado a proteger a família durante uma corrida pela cidade. O ator não transforma o executivo em alguém invulnerável. Ele demonstra medo, perde a paciência e erra ao tentar esconder informações. Essa fragilidade ajuda o público a enxergar um pai cercado por escolhas ruins, e não apenas mais um herói de ação com expressão fechada.

Jack Champion também oferece a Zach uma revolta convincente. O garoto questiona o pai, cobra sinceridade e expõe ressentimentos guardados havia algum tempo. Lilly Aspell segue um caminho mais delicado com Emily, que tenta confiar em Matt mesmo quando percebe a gravidade da situação. Presos no banco traseiro, os irmãos deixam de ser acompanhantes passivos e participam da tentativa de sobrevivência.

A família entra no jogo

A ameaça alcança Heather quando Matt recebe a ordem de pedir que ela retire 50 mil euros de um cofre bancário. Ele precisa convencê-la sem revelar informações demais, pois a voz acompanha a conversa. Heather estranha o pedido e exige uma justificativa, enquanto o marido tenta orientá-la em frases curtas. O que já era uma crise familiar passa a envolver dinheiro, polícia e suspeitas de crimes financeiros.

Embeth Davidtz oferece firmeza a Heather. A personagem não aceita cegamente tudo o que escuta, mas percebe que o medo do marido tem uma origem concreta. Sua participação também recorda que Matt vinha deixando o casamento em segundo plano. A ligação entre os dois ganha uma camada incômoda, pois ele precisa pedir confiança depois de passar muito tempo ausente.

Nimród Antal mantém boa parte da história dentro do automóvel. A câmera acompanha rostos, retrovisores, telas de celular e movimentos vistos através das janelas. Berlim permanece ao alcance dos personagens, mas sair do carro não é uma opção. Essa limitação cria pressão sem exigir perseguições intermináveis. Uma mudança no semáforo, a aproximação de uma viatura ou uma ligação perdida já pode comprometer a segurança dos ocupantes.

O filme perde um pouco de naturalidade quando precisa explicar contas, transferências e relações entre os clientes da Nanite Capital. Alguns diálogos parecem escritos para informar o público, e não para representar pessoas sob ameaça. Ainda assim, a duração enxuta impede que a parte financeira domine por muito tempo. Logo surge outra ordem, outro endereço ou uma nova dificuldade para Matt.

A polícia cerca o carro

Depois que o nome do financista aparece associado aos ataques, a agente da Europol Angela Brickmann (Noma Dumezweni) entra em contato. Matt tenta provar que está sendo coagido e pede ajuda para bloquear os sinais usados pelo criminoso. Angela, porém, precisa considerar a possibilidade de que o homem ao volante seja responsável pelo que está acontecendo.

Noma Dumezweni interpreta a agente com sobriedade. Angela não trata Matt automaticamente como culpado, mas também não pode aceitar sua versão sem provas. Existem dois menores dentro do veículo, pessoas feridas pela cidade e uma ameaça que pode ser acionada a distância. Qualquer ação policial precipitada colocaria Zach e Emily sob risco maior.

A presença das autoridades muda o ritmo da história. Matt passa a receber ordens do criminoso enquanto tenta responder às perguntas da Europol. O telefone serve para pedir ajuda e, simultaneamente, permite que o agressor controle seus movimentos. Essa contradição sustenta alguns dos melhores trechos de “A Chamada”, sobretudo quando o protagonista percebe que falar a verdade não basta para recuperar sua liberdade.

Liam Neeson preso ao volante

“A Chamada” adapta o filme espanhol “El Desconocido”, lançado em 2015, e trabalha com uma premissa eficiente. A ameaça é apresentada cedo, as regras são compreensíveis e o espaço apertado mantém os personagens próximos. O suspense cresce menos pela força física de Matt e mais pelo esforço para descobrir quais ordens pode desafiar sem sacrificar a família.

Há elementos conhecidos do cinema de Liam Neeson. Outra vez, ele interpreta um homem maduro, de voz grave e habilidades úteis, envolvido numa ameaça contra pessoas queridas. O ator, contudo, sustenta o papel com dignidade e faz até uma ligação bancária parecer questão de vida ou morte. Poucos profissionais venderiam tamanha urgência enquanto permanecem presos ao cinto de segurança.

O roteiro nem sempre esconde suas intenções com habilidade, e algumas pistas tornam o mistério menos surpreendente. Também falta maior desenvolvimento para certos personagens ligados à Nanite Capital. Mesmo assim, “A Chamada” preserva a tensão durante boa parte de sua duração, apoiado na relação entre Matt e os filhos.

Mais do que descobrir a identidade da voz, Matt precisa decidir quanto está disposto a perder para tirar Zach e Emily daquele carro. Essa dimensão familiar oferece sensibilidade ao suspense e impede que o filme dependa apenas da bomba. Quando o financista abandona a cautela e assume o controle do caminho, sua escolha determina quem poderá sair vivo do veículo.


Filme: A Chamada
Diretor: Nimród Antal
Ano: 2023
Gênero: Ação/Mistério/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
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