A infância é um tempo especialmente bom para se falar das mudanças que se nos vão anunciar ao longo da vida, e em “No Mundo da Lua”, Robert Mulligan (1925-2008) vale-se delas para levar o espectador por um passeio ora sereno, ora atribulado aos meandros das primeiras vivências de uma menina, sem nunca descambar para o simplório e, assim, alcançando o lúdico e mesmo o belo. Poeticamente, Mulligan elenca em seu derradeiro trabalho um meticuloso rol de circunstâncias que vão descrevendo sua protagonista, a partir de seus pais, sua irmã mais velha e, a certa altura, seu primeiro amor, num esforço para que nos vejamos nela e neles. Ao longo de cem minutos, o diretor urde uma história cuja potência está na habilidade de esconder em eventos ordinários uma sóbria reprimenda à hipocrisia e ao puritanismo, evitando juízos de valor.
Adeus à inocência
Resta em algum lugar, escondido no coração dos homens, um baú de de estrelas e de ossos do qual se tiram as lembranças de momentos felizes e horas pálidas que, num prazo que só o tempo é capaz de definir, mudam-se em eternos. A vida dá suas tantas guinadas a despeito do que possamos querer e de quão possamos estar preparados para seus caprichos. Invenções revolucionárias determinam o progresso, mas a rotina na Louisiana de 1957 segue igual, como provam os Trant, família chefiada pelo rigoroso Matthew, inconformado por ainda não ter conseguido seu filho homem. Em vez disso, lida com os desejos e as paixões das filhas, Maureen e Dani, ajudado pela esposa, Abigail, mas as duas irmãs estão prontas para voar, sem o peso da experiência para contê-las. A roteirista Jenny Wingfield elabora a narrativa iluminando os anseios juvenis de Maureen, uma moça de dezessete anos, e da caçula, que aos catorze não fica atrás em inofensivas ambições, como se vê logo na primeira cena, quando Dani exalta a beleza e o carisma da outra, querendo ser assim também. Sem pressa, Mulligan vai deslocando o eixo do filme de questões domésticas para impressões e sentimentos como o idealismo, encarnado em Dani, que desabrocha para o mundo sem ver suas qualidades, e uma dose da crueldade de Maureen, explícita depois que um tal Court Foster aparece na vida das duas. Em sua estreia, Reese Witherspoon já dá sinais de que iria longe, respaldada por Jason London e Emily Warfield, nesta ordem.

