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No verão de 1989, na pequena Derry, no estado norte-americano do Maine, Bill Denbrough (Jaeden Martell) reúne seis amigos para investigar o desaparecimento do irmão mais novo. As pistas levam o grupo aos esgotos da cidade, onde uma criatura capaz de assumir diferentes formas usa os medos infantis para atacar. Dirigido por Andy Muschietti, “It: A Coisa” transforma a famosa obra de Stephen King em um terror sobre amizade, abandono e sobrevivência.

A história começa quando Georgie Denbrough (Jackson Robert Scott) sai de casa durante uma tempestade para brincar com um barquinho de papel feito por Bill. O brinquedo cai em um bueiro e coloca o menino diante de Pennywise (Bill Skarsgård), um palhaço de aparência simpática apenas durante os primeiros segundos. Georgie desaparece, mas Bill se recusa a aceitar que o irmão esteja morto.

Meses depois, ele ainda procura alguma pista sobre o paradeiro do garoto. A polícia não apresenta novidades, os pais permanecem presos ao luto e a cidade parece ter aprendido a conviver com crianças desaparecidas. Bill passa a estudar o sistema de esgoto de Derry e acredita que Georgie pode ter sido levado pela correnteza até uma área conhecida como Barrens.

A procura recebe a ajuda de Richie Tozier (Finn Wolfhard), Eddie Kaspbrak (Jack Dylan Grazer) e Stanley Uris (Wyatt Oleff). Richie enfrenta qualquer situação com piadas, quase sempre inconvenientes. Eddie vive cercado pelos remédios e pelas advertências da mãe superprotetora. Stanley prefere acreditar que existe uma explicação razoável para tudo, embora Derry trabalhe diariamente para contrariá-lo.

Os perdedores se reconhecem

Outras crianças começam a se aproximar do grupo. Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor), aluno recém-chegado, sofre perseguições por causa do peso e passa boa parte do tempo na biblioteca. Enquanto pesquisa a história local, ele descobre que Derry acumula incêndios, mortes e desaparecimentos há várias décadas. Os registros revelam uma cidade marcada por tragédias que os moradores adultos raramente comentam.

Beverly Marsh (Sophia Lillis) ajuda Ben depois de uma agressão e logo conquista seu espaço entre os garotos. A menina enfrenta fofocas na escola e uma situação opressora dentro de casa. Sua aparente segurança esconde o receio provocado pelo próprio pai, Alvin Marsh (Stephen Bogaert), cuja presença transforma o ambiente familiar em outro território ameaçador.

Mike Hanlon (Chosen Jacobs) completa o grupo após ser perseguido por Henry Bowers (Nicholas Hamilton) e seus amigos. Órfão, Mike trabalha com o avô e carrega lembranças dolorosas da morte dos pais. A violência de Henry une os sete jovens antes mesmo que todos saibam o que existe sob Derry. Assim nasce o Clube dos Perdedores, nome adotado com certa ironia por crianças que já cansaram de ouvir insultos.

O vínculo entre elas oferece ao longa sua parte mais calorosa. As conversas são atravessadas por provocações, ciúmes e piadas bobas, mas possuem a intimidade de amizades formadas durante férias intermináveis. Finn Wolfhard dá energia a Richie, enquanto Jack Dylan Grazer transforma Eddie em um pequeno catálogo ambulante de doenças e preocupações. Sophia Lillis traz firmeza a Beverly sem esconder a vulnerabilidade da personagem.

Pennywise conhece cada medo

Os integrantes do grupo percebem que foram perseguidos por figuras assustadoras em lugares diferentes. Bill vê Georgie. Eddie é abordado por um homem doente. Stanley teme uma figura perturbadora retratada em uma pintura. Beverly presencia acontecimentos dentro do banheiro de casa. Mike revive imagens associadas à perda da família. Ben é ameaçado por elementos ligados ao passado violento de Derry.

Por trás dessas aparições está Pennywise, personagem vivido por Bill Skarsgård com uma combinação desconcertante de infantilidade e crueldade. O palhaço muda a voz, contorce o rosto e se movimenta de maneira imprevisível. Às vezes, parece estar brincando. Poucos segundos depois, deixa evidente que conhece a fragilidade de quem está diante dele.

Skarsgård não depende somente da maquiagem ou dos dentes afiados. Seu Pennywise observa as crianças antes de atacá-las e escolhe a aparência capaz de assustar cada uma. Essa habilidade dá à criatura uma vantagem importante, pois nenhum integrante do grupo enfrenta exatamente o mesmo monstro. Todos precisam explicar aos demais aquilo que viram, mesmo correndo o risco de parecerem loucos.

Andy Muschietti mantém o foco nas reações dos jovens e usa corredores, porões, casas abandonadas e tubulações para limitar suas saídas. O susto possui peso porque surge ligado a uma insegurança conhecida. Ainda assim, algumas sequências apostam demais no excesso de movimento e no barulho. Pennywise costuma ser mais perturbador quando fala baixo e permanece parado, deixando a imaginação trabalhar.

Uma cidade que abandona crianças

O perigo de “It: A Coisa” não está restrito aos esgotos. Os adultos de Derry raramente oferecem proteção. Alguns são ausentes, outros controladores e há aqueles que praticam a violência dentro de casa. Mesmo quando uma agressão ocorre em público, os moradores parecem incapazes de interrompê-la.

Essa apatia ajuda a explicar por que Pennywise age há tanto tempo. A criatura cresce em um lugar onde o sofrimento infantil pode ser ignorado, arquivado ou tratado como exagero. Bill e seus amigos precisam investigar sozinhos porque nenhuma autoridade assume a responsabilidade. A aventura nasce dessa falta de amparo e transforma bicicletas, mapas e lanternas nos recursos disponíveis.

Bill insiste em relacionar o desaparecimento de Georgie à rede subterrânea. Ben cruza os mapas com os registros pesquisados na biblioteca, e o grupo chega a uma casa abandonada na Rua Neibolt. A entrada representa uma mudança importante. Até aquele ponto, as crianças tentavam escapar das aparições. Agora, decidem procurar a origem delas.

A iniciativa provoca discordâncias. Bill coloca a procura pelo irmão acima da própria segurança, enquanto Richie e Eddie questionam até onde devem acompanhá-lo. A amizade não elimina o medo, tampouco transforma os garotos em heróis invencíveis. Eles discutem, se afastam e cometem erros. Essa instabilidade torna o grupo convincente e dá valor a cada gesto de lealdade.

O terror sustentado pela amizade

“It: A Coisa” acerta ao dedicar tempo suficiente à convivência entre os integrantes do Clube dos Perdedores. Sem essa proximidade, Pennywise seria apenas um palhaço bem produzido perseguindo adolescentes pelos esgotos. A amizade dá sentido ao risco porque cada personagem possui algo concreto a perder.

Jaeden Martell faz de Bill um líder movido pela culpa e pela esperança. Sua gagueira se acentua nos períodos de pressão, mas não define toda a personalidade do garoto. Jeremy Ray Taylor traz delicadeza a Ben, especialmente na relação com Beverly. Chosen Jacobs oferece sobriedade a Mike, ainda que o roteiro lhe reserve menos espaço do que aos demais.

A adaptação preserva o espírito de formação presente no livro de Stephen King, embora transfira a infância dos personagens da década de 1950 para os anos 1980. A mudança permite incluir referências culturais reconhecíveis sem transformar o longa em uma coleção de lembranças decorativas. Derry conserva o aspecto de uma cidade parada no tempo, onde bicicletas ainda garantem liberdade e uma ligação telefônica pode representar o único contato com os amigos.

Muschietti equilibra o terror sobrenatural com conflitos familiares, perseguição escolar e descobertas afetivas. Nem todos os sustos possuem a mesma força, e o abuso frequente de efeitos digitais enfraquece algumas aparições. A história, porém, permanece envolvente porque o espectador acompanha crianças bem definidas, com personalidades, casas e receios diferentes.

“It: A Coisa” também sabe que a infância pode ser divertida mesmo sob circunstâncias terríveis. Richie provoca os amigos, Eddie reclama das condições sanitárias e Ben tenta esconder sua paixão por Beverly. Esses instantes aliviam a tensão sem transformar a ameaça em brincadeira. Eles lembram que o grupo ainda é formado por jovens tentando aproveitar as férias, embora um palhaço assassino tenha decidido complicar bastante o calendário.

O terror é acessível, emotivo e sustentado por um elenco jovem muito afinado. Pennywise oferece a imagem mais conhecida, mas são Bill, Beverly, Richie, Ben, Eddie, Stanley e Mike que mantêm a história viva. Quando os sete deixam a segurança das ruas e seguem para os túneis de Derry, levam apenas lanternas, informações incompletas e a certeza de que permanecer juntos lhes oferece alguma chance de voltar.


Filme: It: A Coisa
Diretor: Andy Muschietti
Ano: 2017
Gênero: Terror
Avaliação: 4/5 1 1
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