O destino prepara-nos surpresas, e muitas delas escondem uma infelicidade avassaladora. Deparamo-nos com obstáculos aparentemente invencíveis ao longo da vida, mas escalar essas muralhas não é para qualquer um. Até que se conheçam os sacrifícios que valem a pena, padecemos dos males que só nós mesmos sentimos, anunciados por aqueles instantes singulares de dúvida, de agonia, de solidão, durante os quais cada indivíduo enfronha-se em seu espírito e vê a força infinita que há nele. Aline Morel, a protagonista de “Amor de Mãe”, encara um luto particularmente doloroso e vive uma inesperada transformação, num enredo de reviravoltas à altura da complexidade do tema. Em seu filme de estreia, Sylvie Audcoeur fala do medo e a indignação de uma mulher no limite da insânia, em busca de alguma forma de justiça, até que um laço misterioso prende-a ao seu verdugo.
Amar é deixar ir
O existir é um paradoxo, absurdo e racional, abjeto e encantador, bravio e delicado, e o mais prudente a se fazer é integrar-se ao fluxo. Viver não é entender, mas supor, verbo chegado à especulação e, esticando-se a corda, ao milagre. Na sequência de abertura, entende-se do modo mais truculento a fonte do sofrimento de Aline. Ela está num tribunal, a alguns metros do assassino de Samy, seu filho de dezessete anos. Uma tela exibe imagens do cadáver de Samy, implacavelmente surrado até a morte por reagir ao roubo de sua Scooter e, ao final dessa tortura, Maxime Vittoni é condenado a nove anos, sai da cadeia depois de ter cumprido cinco, e os dois reencontram-se sem querer num supermercado, ou melhor, Aline o avista de longe, num cenário que pode ter sido aquele no qual trucidou Samy. Audcoeur e os corroteiristas Jacques Akchoti e Anna Fregonese explorem as vulnerabilidades de uma e do outro a fim de chegar ao plano de desforra calculista da personagem central. Debaixo desse novo ângulo, Karin Viard e Darren Muselet penetram nos meandros invisíveis de Aline e Maxime, com direito a uma troca de papéis levada com tal destreza que a pergunta que fica é: por que não vi esse filme antes?

