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O destino prepara-nos surpresas, e muitas delas escondem uma infelicidade avassaladora. Deparamo-nos com obstáculos aparentemente invencíveis ao longo da vida, mas escalar essas muralhas não é para qualquer um. Até que se conheçam os sacrifícios que valem a pena, padecemos dos males que só nós mesmos sentimos, anunciados por aqueles instantes singulares de dúvida, de agonia, de solidão, durante os quais cada indivíduo enfronha-se em seu espírito e vê a força infinita que há nele. Aline Morel, a protagonista de “Amor de Mãe”, encara um luto particularmente doloroso e vive uma inesperada transformação, num enredo de reviravoltas à altura da complexidade do tema. Em seu filme de estreia, Sylvie Audcoeur fala do medo e a indignação de uma mulher no limite da insânia, em busca de alguma forma de justiça, até que um laço misterioso prende-a ao seu verdugo.

Amar é deixar ir

O existir é um paradoxo, absurdo e racional, abjeto e encantador, bravio e delicado, e o mais prudente a se fazer é integrar-se ao fluxo. Viver não é entender, mas supor, verbo chegado à especulação e, esticando-se a corda, ao milagre. Na sequência de abertura, entende-se do modo mais truculento a fonte do sofrimento de Aline. Ela está num tribunal, a alguns metros do assassino de Samy, seu filho de dezessete anos. Uma tela exibe imagens do cadáver de Samy, implacavelmente surrado até a morte por reagir ao roubo de sua Scooter e, ao final dessa tortura, Maxime Vittoni é condenado a nove anos, sai da cadeia depois de ter cumprido cinco, e os dois reencontram-se sem querer num supermercado, ou melhor, Aline o avista de longe, num cenário que pode ter sido aquele no qual trucidou Samy. Audcoeur e os corroteiristas Jacques Akchoti e Anna Fregonese explorem as vulnerabilidades de uma e do outro a fim de chegar ao plano de desforra calculista da personagem central. Debaixo desse novo ângulo, Karin Viard e Darren Muselet penetram nos meandros invisíveis de Aline e Maxime, com direito a uma troca de papéis levada com tal destreza que a pergunta que fica é: por que não vi esse filme antes?


Filme: Amor de Mãe
Diretor: Sylvie Audcoeur
Ano: 2022
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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