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Na Inglaterra do fim do século 16, Agnes (Jessie Buckley) e William Shakespeare (Paul Mescal) formam uma família em Stratford-upon-Avon, mas a carreira dele em Londres e a morte do filho Hamnet (Jacobi Jupe) abrem uma distância dolorosa entre o casal. Dirigido por Chloé Zhao, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” acompanha o nascimento desse amor, a criação dos três filhos e a perda que mais tarde seria associada à escrita de uma das peças mais conhecidas do mundo.

Inspirado no romance de Maggie O’Farrell, o longa olha para Shakespeare antes de transformá-lo em monumento da literatura. William ainda é um jovem professor de latim, preso às limitações financeiras da família e incerto sobre o próprio futuro. Agnes, conhecida historicamente como Anne Hathaway, também deixa de ser a esposa quase invisível das biografias. Interpretada com enorme força por Jessie Buckley, ela ocupa o centro da história e reivindica o espaço que lhe foi negado durante séculos.

Um amor nascido em Stratford

William conhece Agnes enquanto trabalha como professor. Ela vive perto da floresta, domina conhecimentos sobre plantas e observa o comportamento das pessoas com uma percepção que, para alguns moradores, beira o sobrenatural. Sua independência desperta fascínio no rapaz e desconfiança na comunidade. Agnes não parece interessada em seguir o manual de boas maneiras reservado às mulheres de sua época, detalhe que torna o envolvimento dos dois mais vivo e também mais arriscado.

Paul Mescal interpreta William longe da imagem solene dos retratos históricos. Seu Shakespeare é jovem, inseguro e sufocado por um pai severo. Ele deseja escrever, atuar e deixar Stratford, embora ainda não saiba se conseguirá transformar essa vontade em sustento. O casamento com Agnes oferece afeto e liberdade, mas também traz novas responsabilidades. Quando os filhos chegam, o desejo artístico passa a disputar espaço com contas, tarefas e noites mal dormidas. Até gênios precisam descobrir quem ficará com as crianças.

O casal tem três filhos. Susanna (Bodhi Rae Breathnach) é a mais velha, enquanto Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe) são gêmeos. Agnes assume boa parte da criação porque William parte para Londres em busca de oportunidades no teatro. A escolha melhora as perspectivas profissionais dele, porém concentra sobre a esposa o cuidado com a propriedade e com as crianças. A distância deixa de ser apenas geográfica e começa a interferir na intimidade dos dois.

O sucesso cobra ausências

Em Londres, William conquista espaço entre atores e dramaturgos. O trabalho avança, o público cresce e seu nome começa a circular. Em Stratford, Agnes mantém a casa funcionando sem saber exatamente quando o marido voltará. Ela conhece as razões da partida, mas isso não torna a ausência menos pesada. Cada compromisso assumido por William nos palcos representa mais tempo longe dos filhos e mais responsabilidades depositadas sobre a esposa.

Chloé Zhao não transforma o escritor em um pai cruel nem tenta absolver todas as suas escolhas. William ama a família e trabalha pensando no futuro dela, mas seu sucesso depende de uma distância que Agnes não escolheu. Paul Mescal registra essa contradição com uma interpretação contida. O personagem quer pertencer aos dois lugares, embora o teatro exija permanência e a casa cobre presença. Nenhuma carta consegue resolver inteiramente esse problema.

Jessie Buckley cria uma Agnes firme, sensível e por vezes áspera. A personagem cuida das crianças, administra o cotidiano e preserva conhecimentos que não são respeitados pelos homens ao seu redor. Sua proximidade com a natureza poderia cair numa representação excessivamente mística, porém a atriz mantém os pés da personagem na terra. Agnes sente medo, perde a paciência e guarda ressentimentos. Também ama William sem transformar esse sentimento em obediência.

Quando a doença chega à família

A rotina muda quando uma doença atinge a região e entra na casa dos Shakespeare. William está em Londres, enquanto Agnes precisa proteger os filhos com os recursos disponíveis. Hamnet percebe o perigo enfrentado por Judith e tenta ajudá-la. Jacobi Jupe interpreta o menino com delicadeza, mas sem torná-lo uma pequena criatura feita apenas para arrancar lágrimas. Ele brinca, observa os adultos e demonstra a coragem desajeitada de quem ainda não possui idade para avaliar o tamanho de uma ameaça.

A tragédia que dá sentido ao título rompe a família. Hamnet morre aos 11 anos, fato histórico conhecido e ponto de partida tanto do romance quanto do filme. A perda alcança Agnes de maneira física. Ela esteve na casa, cuidou das crianças e acompanhou a doença, enquanto William recebe parte dessa dor à distância. Quando ele retorna, marido e mulher sofrem pelo mesmo filho, porém carregam lembranças diferentes das horas decisivas.

A direção permanece perto de Agnes durante o luto. Jessie Buckley oferece uma atuação sem vaidade, feita de movimentos bruscos, respiração pesada e períodos de silêncio. Sua personagem não ganha frases cuidadosamente preparadas para comover a plateia. Ela sofre com raiva e confusão, cercada pelos cômodos onde o menino viveu. O espaço doméstico guarda objetos, hábitos e lembranças que William não enfrentou da mesma maneira.

Mescal trabalha numa frequência mais recolhida. William tenta permanecer ao lado da esposa, mas não consegue dividir plenamente aquilo que sente. Seu refúgio está nas palavras, recurso que lhe trouxe reconhecimento e também o manteve longe da família. Agnes enxerga esse afastamento como abandono, ainda que saiba que o marido perdeu o mesmo filho. O casamento passa a depender da capacidade dos dois de reconhecer dores que nunca serão idênticas.

Da casa para o palco

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” liga essa perda à criação de “Hamlet”, peça escrita alguns anos depois da morte do menino. A associação possui uma dimensão imaginada, pois não existem documentos suficientes para afirmar de que maneira o luto familiar participou da composição da obra. Maggie O’Farrell parte desse vazio histórico para imaginar uma ligação íntima entre o pai, o filho e o personagem que atravessaria séculos.

Chloé Zhao leva essa ideia ao cinema sem transformar William no único dono da dor. O nascimento da peça também depende daquilo que Agnes viveu em Stratford. Enquanto ele possui o palco, os atores e as palavras, ela guarda a experiência doméstica da perda. A criação artística surge entre essas duas formas de sobrevivência. Para William, escrever permite aproximar-se do filho. Para Agnes, descobrir o que o marido escreveu exige atravessar uma resistência construída durante o luto.

A narrativa perde um pouco da precisão quando insiste na ligação espiritual de Agnes com a natureza. Algumas imagens tornam o sentimento mais grandioso do que a história precisava, sobretudo porque Jessie Buckley já comunica muito sem ajuda ornamental. Ainda assim, Zhao preserva a intimidade dos personagens e mantém a atenção sobre ações simples. Uma ausência à mesa ou uma porta fechada carrega mais peso do que qualquer declaração solene.

Jessie Buckley ocupa o centro

Embora Paul Mescal tenha uma presença cuidadosa, “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” pertence a Jessie Buckley. Agnes atravessa paixão, maternidade, abandono e luto sem perder sua personalidade. A atriz não transforma força em frieza e tampouco apresenta sofrimento como sinal de pureza. Sua personagem pode ser amorosa num instante e hostil pouco depois, variação compatível com alguém que tenta continuar vivendo sem possuir qualquer mapa para isso.

Jacobi Jupe também deixa uma marca importante. Hamnet precisa existir como criança antes que sua morte alcance o público, e o ator consegue oferecer essa presença sem afetação. O menino não aparece apenas como origem distante de uma obra famosa. Ele é filho, irmão e parte ativa daquela casa. Quando sua ausência se instala, o público sabe o que foi retirado da família.

Chloé Zhao devolve nome, rosto e vontade própria às pessoas que costumam aparecer nas margens da história de Shakespeare. “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” mantém o dramaturgo em cena, mas entrega a Agnes o direito de contar o que aconteceu dentro da casa enquanto o marido conquistava Londres. O resultado é um drama doloroso, íntimo e acessível, sustentado por uma mulher que perdeu o filho e ainda precisou descobrir o que o marido faria com essa memória.


Filme: Hamnet
Diretor: Chloe Zhao
Ano: 2025
Gênero: Biografia/Drama/História
Avaliação: 5/5 1 1
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