Há filmes que despertam os incômodos atávicos da condição humana. Para algumas pessoas, a vida assemelha-se mesmo a um jogo, com uma legião de chorosos a perseguir sucesso, fortuna, amor, salvação — sonhos tolos que a morte faz questão de reduzir a pó. Enredos que tocam o sobrenatural ora fazem brotar do mais escuro do homem suas idiossincrasias menos óbvias e quase luminosas, ora levam-no para os recantos ainda mais sombrios de sua alma, atirando-o a conjunturas tumultuosas, perversas, cheias das revelações que ele mesmo não pode tolerar. Asiáticos nunca viram o menor inconveniente em tapear a indesejada das gentes de uma maneira jocosa, como o sul-coreano Yoo Sun-Dong mostra em “0.0 MHz Frequência da Morte”, aproveitando para juntar à sátira de costumes uma discussão sempre bem-vinda. Baseado no webtoon de Jang Jak, o roteiro de Yoo investiga uma estranha teoria que conta de possessões quando estamos fora do ar. Espíritos diabólicos aproveitam-se dessa distração do corpo e se apropriam de tudo.
Entre o clichê e a diversão
Os personagens de “0.0 MHz” parecem suportar a incerteza fundamental do existir, mas são atropelados com violência pelo que amam e mesmo por aquilo que tem por indevassável. Yoo está sempre flertando com a ironia e a metalinguagem, e pela estética de que lança mão, fica claro que a história é um contraponto, com a medida de humor possível, a muito do que é o terror, a começar pela tétrica abertura. Depois que fecham os livros, um grupo de estudantes aficionados por fenômenos paranormais decide investigar uma casa famosa por, supostamente, abrigar fantasmas. O imóvel tem essa reputação porque, anos antes, uma mulher enforcara-se ali, e sua alma o ocupa, prato cheio para quem deseja testar a coragem. A casa é um labirinto de corredores estreitos e lembranças de eventos traumáticos, que podem outra vez tomar corpo quando um dos invasores concorda em dormir até o ponto em que suas ondas cerebrais atinjam 0.0 MHz, momento ideal para estabelecer contato com a anfitriã. Yoo sabe muito bem como dosar os chavões característicos do gênero com originalidade, oferecendo um filme tão absurdo que diverte. Ou seja, um tiro certo

