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Nas ruas de Boston, o ex-policial Spenser (Mark Wahlberg) deixa a prisão disposto a começar outra vida, mas adia a mudança ao investigar dois assassinatos ligados a antigos colegas. Dirigido por Peter Berg, “Troco em Dobro” mistura ação, investigação criminal e comédia para acompanhar um homem que perdeu o distintivo, mas continua incapaz de ignorar uma injustiça. Ao lado do lutador Hawk (Winston Duke), ele segue pistas que envolvem corrupção policial, interesses imobiliários e criminosos protegidos por gente poderosa.

Spenser passou cinco anos preso por agredir o capitão John Boylan (Michael Gaston), seu superior na polícia de Boston. A violência teve origem numa suspeita antiga. O ex-policial acreditava que Boylan estava envolvido no assassinato de Gloria Weisnewski, uma mulher que protestava contra a especulação imobiliária em seu bairro. Sem conseguir provar a acusação, Spenser perdeu a carreira e foi parar atrás das grades.

Durante o cumprimento da pena, ele estuda para trabalhar como motorista de caminhão. Seu plano parece simples. Sair da cadeia, mudar-se para o Arizona e abandonar Boston com seus crimes, policiais corruptos e lembranças desagradáveis. A cidade, porém, não facilita a despedida.

Ao ganhar a liberdade, Spenser passa a morar na casa de Henry Cimoli (Alan Arkin), seu antigo treinador de boxe. O quarto disponível já está ocupado por Hawk (Winston Duke), um lutador de MMA reservado, disciplinado e bem maior do que o novo hóspede. A convivência começa com uma disputa por espaço e pouca simpatia. Henry observa tudo com a serenidade impaciente de quem já viu homens valentes demais apanharem por falta de juízo.

Spenser também tenta manter distância de Cissy Davis (Iliza Shlesinger), sua ex-namorada. A tarefa exige mais esforço do que enfrentar alguns criminosos, pois Cissy tem opinião sobre a prisão, o relacionamento fracassado e a mania do ex de se meter em problemas. Ela fala muito, fala alto e raramente deixa alguma irritação para depois.

Duas mortes mudam os planos

Pouco depois da libertação de Spenser, Boylan é encontrado morto. O histórico entre os dois leva a polícia a procurar o ex-detento, embora seu paradeiro na hora do crime seja confirmado. A investigação oficial logo aponta outro responsável. O detetive Terrence Graham (Brandon Scales) teria assassinado Boylan e cometido suicídio horas depois.

A versão parece conveniente demais. Terrence era respeitado por pessoas próximas e não possuía um motivo convincente para praticar os crimes. Sua esposa, Letitia Graham (Hope Olaidé Wilson), rejeita a acusação e pede ajuda para limpar o nome do marido. Spenser, que deveria estar arrumando as malas, aceita investigar por conta própria.

A decisão nasce tanto do senso de justiça quanto da velha incapacidade de cuidar apenas da própria vida. Spenser conhece os procedimentos da polícia, sabe onde procurar informações e identifica as falhas deixadas pela apuração. O problema é que já não possui distintivo, autorização ou colegas dispostos a colaborar. Cada pergunta chama a atenção de homens interessados em encerrar o assunto.

As pistas indicam que Terrence investigava atividades ilícitas dentro da corporação. Antes de morrer, ele descobriu ligações entre policiais, criminosos e um projeto imobiliário milionário. A apuração paralela de Spenser começa a ameaçar pessoas que possuem dinheiro, armas e acesso aos registros oficiais.

Hawk entra na investigação

Hawk se junta a Spenser primeiro por insistência de Henry e depois porque percebe o perigo enfrentado por ele. Os dois formam uma parceria marcada pelas diferenças. Spenser provoca suspeitos, fala antes de pensar e recebe pancadas com frequência impressionante. Hawk prefere observar o ambiente e agir quando surge uma oportunidade.

Winston Duke oferece ao lutador uma presença tranquila e firme. Hawk poderia ser apenas o parceiro musculoso encarregado das brigas, mas ganha personalidade própria. Ele sonha em abrir uma academia e usar o esporte para trabalhar com jovens da comunidade. A investigação representa um desvio arriscado desse projeto, embora também revele o compromisso do personagem com pessoas que têm pouca proteção institucional.

Mark Wahlberg interpreta Spenser dentro de um tipo que conhece bem. Ele é teimoso, falante, impulsivo e resistente a conselhos sensatos. A atuação combina com o ritmo de “Troco em Dobro”, que prefere colocar o protagonista correndo pelas ruas, interrogando suspeitos e entrando em brigas a mantê-lo examinando documentos durante horas.

A dupla ganha força com Henry e Cissy. Alan Arkin domina as cenas com poucas palavras e uma expressão de cansaço permanente diante das escolhas de Spenser. Iliza Shlesinger transforma Cissy na pessoa mais barulhenta e, muitas vezes, mais sensata do grupo. Quando os homens aparecem machucados ou trazem criminosos até sua porta, ela oferece abrigo enquanto deixa evidente o tamanho da insatisfação.

Corrupção debaixo do distintivo

A investigação leva Spenser e Hawk ao antigo Wonderland Greyhound Park, área destinada a receber um cassino. O empreendimento reúne interesses de empresários, traficantes e policiais dispostos a proteger o negócio. Os dois assassinatos passam a fazer parte de uma operação maior, criada para afastar testemunhas e responsabilizar um homem que já não pode se defender.

Peter Berg apresenta essas informações sem transformar o mistério num quebra-cabeça complicado. O espectador acompanha as descobertas de Spenser e reconhece cedo quem merece desconfiança. Essa simplicidade deixa o enredo acessível, porém enfraquece parte do suspense. Há poucas dúvidas sobre o caminho adotado pela história e algumas revelações chegam com a discrição de uma porta derrubada.

A ação recebe mais espaço do que a investigação detalhada. Perseguições, emboscadas e brigas aparecem com frequência, mas preservam certo peso físico. Spenser sente os golpes, cai e precisa da ajuda de Hawk. O protagonista não ganha todas as disputas apenas porque ocupa o centro da história. Essa vulnerabilidade combina com um homem corajoso, embora nem sempre especialmente brilhante.

A comédia surge da convivência entre os personagens. Spenser e Hawk discutem durante o trabalho, Henry ironiza a imprudência dos dois e Cissy transforma qualquer reunião numa cobrança coletiva. Nem todas as piadas funcionam, mas o elenco cria uma intimidade agradável. A impressão é que aquelas pessoas se irritam umas com as outras há tempo suficiente para já saberem onde guardar o gelo e os curativos.

Uma investigação sem grandes surpresas

Inspirado no romance “Robert B. Parker’s Wonderland”, escrito por Ace Atkins a partir do personagem criado por Robert B. Parker, “Troco em Dobro” preserva Boston, Spenser, Hawk e alguns elementos do livro, mas segue um enredo bastante próprio. O filme aposta menos na sofisticação do detetive dos romances e mais na imagem de Mark Wahlberg como um homem comum, briguento e determinado.

Essa escolha torna a produção leve e fácil de acompanhar, embora também limite a personalidade da investigação. Spenser avança porque insiste, suporta agressões e conta com bons aliados. Poucas descobertas exigem raciocínio elaborado. A solução depende mais de seguir pessoas, conseguir gravações e pressionar suspeitos do que de montar uma dedução memorável.

Mesmo previsível, “Troco em Dobro” mantém o interesse pela química entre seus personagens. Winston Duke oferece equilíbrio à agitação de Wahlberg, Alan Arkin cria autoridade sem esforço e Iliza Shlesinger impede que Cissy vire apenas a ex-namorada impaciente. Peter Berg reúne o grupo em uma aventura policial despretensiosa, movimentada e consciente de que deseja deixar espaço para novos casos.

Spenser começa a história planejando dirigir caminhões longe de Boston. Quando percebe que um homem morto foi transformado em culpado para proteger policiais corruptos, abandona a mudança e coloca a própria liberdade em risco. Ao seguir as pistas com Hawk, ele recupera algo que a prisão não conseguiu apagar. O direito de agir quando o distintivo já não lhe oferece autoridade.


Filme: Troco em Dobro
Diretor: Peter Berg
Ano: 2020
Gênero: Ação/Comédia/Crime/Drama/Mistério/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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