Discover

A ciência progride quando alguém suporta a humilhação de descobrir que estava errado. Ryland Grace conhece essa pedagogia da pior forma possível, despertando sem memória, os músculos quase inúteis, preso a uma maca dentro de uma nave que atravessa o espaço a anos-luz da Terra. Há dois cadáveres em compartimentos próximos, um computador que responde com a frieza de um carcereiro e nenhuma explicação imediata para aquele homem desgrenhado, de camisola hospitalar, ter sido transformado no derradeiro recurso de uma espécie inteira. Phil Lord e Christopher Miller aproveitam o desnorteamento para introduzir “Devoradores de Estrelas”, adaptação do romance de Andy Weir publicada em 2021, roteirizada por Drew Goddard, como uma aventura científica em que cada fórmula resolvida abre passagem para outro problema muito mais desagradável. Ao longo de 156 minutos, o fim do mundo depende de um professor que, em circunstâncias normais, preferiria continuar explicando micróbios a adolescentes.

A memória de Grace volta em estilhaços e leva o filme à Terra, onde o Sol perde energia porque uma forma de vida microscópica, o astrofágico, alimenta-se da estrela. Colheitas entrarão em colapso, temperaturas cairão e a civilização terá poucas décadas antes de começar a devorar a si mesma. Eva Stratt, administradora investida de poderes quase absolutos, recruta cientistas, mobiliza governos e atropela escrúpulos porque já não existe tempo para delicadezas. Sandra Hüller confere-lhe uma autoridade glacial, deixando escapar alguma ternura apenas em momentos muito calculados, como a festa em que canta “Sign of the Times”, de Harry Styles. Ryan Gosling reage a ela com o sarcasmo defensivo de Grace, um homem inteligente o bastante para compreender a gravidade da catástrofe e honesto apenas até o instante em que percebe o preço pessoal da salvação. O roteiro acerta ao não fazer dele um mártir por vocação. Sua coragem nasce contrariada, quase arrancada a fórceps, e essa covardia anterior torna cada decisão tomada no espaço consideravelmente mais valiosa.

O passado que Grace tentou esquecer

Lord e Miller organizam a sucessão de lembranças como uma investigação sobre o próprio protagonista. Grace recorda o trabalho com Martin DuBois, vivido por Lionel Boyce, depois revê Yáo Li-Jie e Olesya Ilyukhina, os astronautas interpretados por Ken Leung e Milana Vayntrub, até alcançar a parte de sua história que o cérebro parece ter escondido para poupá-lo da vergonha. A estrutura mantém o suspense, conquanto também repita informações e interrompa algumas sequências espaciais quando estas começavam a encontrar um ritmo próprio. A fotografia de Greig Fraser ajuda a separar os dois tempos. A Terra surge em enquadramentos mais horizontais e familiares, enquanto o presente de Grace é comprimido pela geometria da nave, pelas luzes que mudam segundo os ciclos de sono, trabalho e emergência e por closes que transformam os olhos de Gosling numa espécie de painel adicional. As cores verdes, vermelhas e ultravioletas dão função dramática ao interior da Hail Mary, impedindo que o confinamento se torne um corredor cinzento de ficção científica genérica.

A verdadeira guinada acontece quando outra nave surge perto de Tau Ceti. Dentro dela está Rocky, criatura de cinco membros, carapaça mineral, nenhuma face reconhecível e uma atmosfera incompatível com a fisiologia humana. Grace e o extraterrestre começam separados por paredes transparentes, temendo-se com toda a sensatez, até que números, objetos, sons e uma tabela improvisada dão origem a uma língua comum. O que poderia virar uma coleção cansativa de cenas sobre tradução transforma-se na parte mais viva do filme. Gosling atua diante de Rocky como quem descobre um parceiro de comédia, reagindo às pausas, aos movimentos inquietos e ao humor involuntário do alienígena, enquanto James Ortiz tira emoção de uma criatura sem olhos ou boca. A combinação de marionete, performance física e animação digital preserva peso, presença e pequenas imperfeições; Rocky ocupa o cenário, bate nos objetos, recolhe as pernas, hesita, e nunca parece um desenho acrescentado depois que o ator foi embora.

Quando Rocky muda o eixo da viagem

A amizade também salva “Devoradores de Estrelas” de sua inclinação para o espetáculo edificante. Quando Grace e Rocky trabalham no problema dos astrofágicos, o filme diverte porque a ciência aparece como ação concreta. Eles fabricam instrumentos, cometem erros, testam hipóteses, enfrentam diferenças de pressão e temperatura e descobrem que certas certezas terrestres têm pouca serventia diante de um organismo criado sob outras condições. O longa perde firmeza nos momentos em que Daniel Pemberton aumenta a trilha para anunciar emoções já perfeitamente visíveis ou quando os diretores prolongam o desfecho por sucessivas despedidas, explicações e recompensas. O elenco terrestre também vai desaparecendo conforme Rocky cresce, deixando Boyce, Leung e Vayntrub como peças de uma preparação que prometia relações mais densas. Mesmo Hüller fica presa aos flashbacks, embora sua Stratt continue assombrando Grace pela lembrança de uma decisão que ele jamais teria tomado por conta própria.

Gosling sustenta a extensa duração com domínio da comédia física, sobretudo nas primeiras tentativas de caminhar dentro da nave, e encontra um Grace menos heroico do que vaidoso, irritadiço, vulnerável e genuinamente curioso. Ortiz, por sua vez, faz do alienígena a presença que reorganiza toda a experiência. A missão para restaurar o Sol continua gigantesca, carregada de cálculos, explosões e paisagens cósmicas, porém o que prende o espectador é a negociação diária entre dois seres que não compartilham corpo, idioma, comida ou ideia de civilização. “Devoradores de Estrelas” força um pouco o coração quando já o tinha conquistado e alonga uma despedida que pedia maior secura, sem perder a graça de sua dupla improvável. No vidro que os separa, Grace ergue a mão; Rocky responde com um polegar apontado para o lado errado, gesto desajeitado que, depois de duas horas e meia, já não necessita de tradução.

Leia Também