Ambientado em Massachusetts durante e após a Guerra Civil americana, “Adoráveis Mulheres” acompanha quatro irmãs que buscam amor, trabalho e independência em uma época que reservava às mulheres poucas escolhas. Dirigido por Greta Gerwig, o drama de 2019 segue Jo March (Saoirse Ronan), uma jovem escritora determinada a publicar seus textos e viver do próprio talento, embora editores, convenções sociais e dificuldades financeiras insistam em lembrar que o mundo literário pertence aos homens.
A história também apresenta Meg (Emma Watson), a mais velha das irmãs, que deseja formar uma família, mas descobre que o amor não elimina contas, frustrações ou diferenças sociais. Beth (Eliza Scanlen), tímida e afetuosa, prefere o piano e o sossego da casa. Amy (Florence Pugh), a caçula ambiciosa, sonha em tornar-se artista e conquistar uma vida que lhe ofereça dinheiro, prestígio e segurança.
Enquanto o pai serve como capelão no exército, Marmee (Laura Dern) mantém a família unida com firmeza e carinho. O orçamento é apertado, mas a casa permanece movimentada por brincadeiras, pequenas brigas, vestidos emprestados, manuscritos e expectativas que quase nunca cabem na realidade. Greta Gerwig transforma esse cotidiano familiar em um retrato vivo de mulheres tentando decidir o próprio futuro.
Quatro irmãs e muitos planos
Jo é o centro mais inquieto de “Adoráveis Mulheres”. Ela escreve peças, contos e romances, corta o cabelo quando precisa de dinheiro e rejeita qualquer plano que a coloque apenas como esposa de alguém. Sua vontade de publicar não nasce de vaidade. A escrita representa renda, liberdade e a possibilidade de permanecer dona da própria vida.
Em Nova York, Jo procura espaço em jornais e editoras, mas precisa lidar com o senhor Dashwood (Tracy Letts), um editor interessado em histórias comerciais e finais capazes de agradar ao público. Ele aceita publicar alguns textos, porém exige mudanças e paga pouco. Jo protesta, insiste e volta para casa com dinheiro suficiente para continuar tentando.
Saoirse Ronan interpreta a personagem com energia e certa impaciência juvenil. Jo fala depressa, entra em salas sem cerimônia e costuma agir antes de pensar. Essa força também produz feridas. Ela ama as irmãs, mas julga algumas escolhas delas com severidade, principalmente quando casamento e dinheiro entram na conversa.
Meg deseja uma vida diferente. Após se apaixonar por John Brooke (James Norton), ela escolhe o casamento e a maternidade. A decisão não a transforma numa mulher sem ambição. Seu desejo é construir uma casa própria, ainda que o salário do marido limite roupas, festas e gastos. Emma Watson apresenta uma Meg dividida entre o amor que escolheu e os luxos que precisou abandonar.
Laurie entra na família
A rotina das March muda quando Theodore “Laurie” Laurence (Timothée Chalamet) se aproxima da família. Neto do rico senhor Laurence (Chris Cooper), ele vive numa grande propriedade vizinha, cercado por conforto e por uma solidão que nenhum móvel caro consegue disfarçar.
Laurie cria amizade com todas as irmãs, mas desenvolve uma ligação especial com Jo. Os dois correm, dançam, discutem e compartilham o desejo de escapar das regras impostas pelos adultos. A convivência alimenta sentimentos que não crescem na mesma proporção. Laurie acredita que a proximidade pode virar casamento. Jo teme que o romance destrua a liberdade que mais valoriza.
Timothée Chalamet dá ao personagem charme, fragilidade e uma boa dose de imaturidade. Laurie é generoso, mas também está acostumado a imaginar que seus desejos serão atendidos. Quando Jo não corresponde ao futuro que ele planejou, o rapaz precisa lidar com uma rejeição que dinheiro algum resolve.
Beth constrói uma relação mais silenciosa com o senhor Laurence. O vizinho permite que ela use o piano de sua casa, um gesto simples que lhe oferece alegria e confiança. Eliza Scanlen interpreta Beth com delicadeza, sem transformá-la apenas na irmã frágil. Sua presença tem peso dentro da família, sobretudo quando uma doença séria obriga as demais a interromper compromissos e voltar para Massachusetts.
Amy cresce longe de casa
Florence Pugh ganha algumas das cenas mais interessantes ao interpretar Amy. A personagem começa como uma menina mimada, preocupada com aparência, festas e reconhecimento. Com o passar dos anos, porém, ela percebe que talento artístico não garante sustento e que uma mulher pobre pode perder até o direito sobre o próprio dinheiro após o casamento.
Amy viaja para Paris com tia March (Meryl Streep), uma mulher rica, sarcástica e pouco disposta a adoçar qualquer conselho. Na França, a jovem estuda pintura, frequenta círculos sociais sofisticados e avalia o que realmente pode conquistar. Ela quer amor, mas não pretende ignorar as condições materiais que determinarão sua vida.
O reencontro de Amy com Laurie revela que ambos mudaram. Ela já não aceita ser tratada como a irmã pequena que corre atrás dos mais velhos. Também se recusa a admirar um homem que abandona responsabilidades e desperdiça privilégios. Florence Pugh dá firmeza a essas cenas, fazendo de Amy uma personagem racional sem lhe retirar afeto ou vulnerabilidade.
Greta Gerwig organiza a história em duas épocas que se alternam. A juventude das irmãs surge com mais movimento, proximidade e calor familiar. Os anos seguintes mostram quartos vazios, distâncias maiores e escolhas que já não podem ser desfeitas. A montagem exige atenção, mas ajuda a comparar o que cada uma sonhava com aquilo que conseguiu preservar.
Liberdade também custa dinheiro
“Adoráveis Mulheres” fala de casamento, mas não trata todas as relações da mesma maneira. Meg escolhe a vida doméstica. Amy procura segurança sem abandonar o desejo de ser respeitada. Jo teme perder o trabalho, o nome e a autonomia. Beth deseja permanecer perto das pessoas que ama.
O roteiro reconhece que essas escolhas acontecem sob condições desiguais. Os homens podem herdar propriedades, administrar fortunas e ocupar espaços profissionais. As mulheres dependem de casamentos, parentes ricos ou editores que definem quanto suas páginas valem. Até o romance passa por questões de renda, moradia e direito sobre bens.
Laura Dern oferece a Marmee uma serenidade que não apaga o cansaço. A mãe aconselha as filhas, distribui tarefas e ajuda famílias mais pobres, embora também admita sentir raiva. Sua bondade não nasce de uma personalidade perfeita, mas de um esforço diário para não ferir quem está por perto.
Meryl Streep segue pelo caminho oposto. Tia March fala sobre dinheiro, herança e casamento com uma franqueza quase cruel. A personagem rende graça porque trata o romantismo das sobrinhas com a paciência de quem já ouviu promessas demais. Por trás das provocações, ela expõe regras sociais que as jovens ainda tentam ignorar.
Uma autora assume o próprio nome
A escrita de Jo reúne as experiências das irmãs e também revela sua necessidade de transformar perdas em trabalho. Ela começa vendendo contos sob exigências alheias, mas passa a defender com mais firmeza o valor do próprio manuscrito. O embate com o editor deixa de envolver apenas algumas páginas. Jo quer controlar o texto, o pagamento e os direitos ligados ao livro.
Greta Gerwig cria uma adaptação afetuosa sem tratar as personagens como figuras intocáveis. As irmãs são generosas e egoístas, maduras e infantis, amorosas e cruéis em momentos diferentes. Brigam por vestidos, viagens, atenção, dinheiro e reconhecimento. Depois, precisam conviver com o estrago causado por palavras ditas dentro de casa.
“Adoráveis Mulheres” preserva o romance, mas dedica o mesmo cuidado ao trabalho feminino e às dificuldades de viver da própria criação. A pergunta sobre casamento permanece importante, embora Jo também esteja ocupada com algo menos encantador e bastante decisivo. Ela precisa descobrir quanto vale sua história, quem ficará com os direitos e qual nome será impresso na capa.

