Em 2026, em uma comunidade rica sustentada por aparências, Lucero (Ludwika Paleta) inicia um caso com Matías (Óscar Casas), o jovem treinador de natação de sua filha, porque o casamento com Fernando (José María Yazpik) se tornou confortável, silencioso e sexualmente vazio. Dirigido por Teresa Simone, “Desejo” acompanha o avanço dessa relação proibida e os riscos criados quando atração, vaidade e segredos começam a circular dentro da mesma família.
Lucero e Fernando são vistos pelos amigos como um casal admirável. Estão juntos há muitos anos, construíram uma vida confortável e aprenderam a representar felicidade diante dos outros. Dentro de casa, porém, a intimidade desapareceu. Os dois cogitam incluir uma terceira pessoa na relação, mas nenhum deles consegue transformar a fantasia em conversa adulta. Em vez de admitir o incômodo, preferem alimentar insinuações e aguardar que o parceiro assuma a responsabilidade pela mudança.
A chegada de Matías cria a oportunidade que Lucero procurava sem confessar. Bonito, mais jovem e seguro de seu poder de sedução, ele começa a trabalhar como treinador de Viviana (Pilar Pascual), filha do casal. A piscina lhe garante presença constante na rotina da família, enquanto a proximidade com Lucero cresce longe dos olhos de Fernando. O caso nasce menos de uma paixão arrebatadora do que do cansaço de uma mulher que deseja sentir novamente alguma coisa além de tédio.
Um casamento preservado pelas aparências
Teresa Simone apresenta bem a situação doméstica. Lucero não vive um casamento marcado por agressões ou grandes brigas. Seu problema é mais silencioso e, talvez por isso, bastante reconhecível. Ela tem estabilidade, prestígio e uma família admirada, mas passa os dias ao lado de um homem que parece ter se acostumado à ausência de afeto físico. Fernando também demonstra insatisfação, embora trate o assunto com uma passividade que deixa qualquer solução para depois.
Ludwika Paleta sustenta essa primeira parte com uma atuação segura. Lucero não surge apenas como esposa frustrada. Ela também é mãe, profissional bem-sucedida e mulher consciente do risco que assume. A atriz transmite desejo, culpa e irritação sem transformar a personagem em vítima inocente. Lucero sabe que Matías trabalha com sua filha e percebe desde cedo que a relação pode destruir mais do que o casamento. Ainda assim, segue adiante porque o prazer lhe devolve uma atenção que havia desaparecido de sua vida.
José María Yazpik recebe menos espaço como Fernando. O personagem participa da crise conjugal, mas passa boa parte da história afastado das decisões que movem o enredo. Ele percebe mudanças no comportamento da esposa, demonstra desconforto e tenta recuperar alguma autoridade dentro de casa. O roteiro, contudo, demora a lhe oferecer atitudes consistentes. Fernando aparece em certos momentos quase como visitante da própria família, o que enfraquece o conflito entre marido, esposa e amante.
O treinador deixa de ser aventura
Matías entra em cena com charme suficiente para tornar a atração de Lucero compreensível. A diferença de idade entre os dois recebe bastante atenção, embora não seja tão escandalosa quanto o longa pretende sugerir. Ele é um homem adulto próximo dos trinta anos, enquanto Lucero permanece confiante, atraente e socialmente poderosa. O verdadeiro problema está no vínculo de Matías com Viviana e no acesso que ele recebe à rotina da casa.
Óscar Casas começa bem ao interpretar um rapaz sedutor, observador e confortável diante de uma mulher mais experiente. Conforme o envolvimento cresce, porém, Matías perde parte dessa segurança e assume um comportamento mais dependente. A mudança deveria elevar a tensão, mas algumas reações o tornam apenas insistente e irritadiço. A figura misteriosa dos primeiros encontros dá lugar a um homem que exige atenção e parece surpreso ao descobrir que um caso escondido possui regras pouco românticas.
Viviana ocupa uma área delicada da história. Pilar Pascual interpreta uma jovem ingênua, encantada pelo treinador e alheia ao relacionamento mantido pela mãe. Sua presença aumenta o perigo porque Lucero precisa esconder o caso sem afastar Matías de maneira brusca ou levantar suspeitas. A mãe passa a observar cada conversa entre os dois, enquanto tenta manter a filha longe de uma situação que ela própria criou. O segredo deixa de pertencer ao quarto e começa a interferir na convivência familiar.
O suspense cobra outra precisão
“Desejo” se sai melhor quando permanece perto dos silêncios do casal, das mensagens escondidas e dos encontros que precisam caber entre compromissos domésticos. Teresa Simone retarda algumas informações e usa pausas demoradas para criar desconforto. Nem sempre funciona. Há diálogos tão lentos que parecem aguardar autorização para continuar, e certas cenas escuras obrigam o espectador a confiar que os atores realmente estão dentro do ambiente.
A parte erótica também entrega menos ousadia do que promete. As cenas íntimas são prolongadas, mas filmadas de maneira cuidadosa e pouco inventiva. O longa tenta vender perigo por meio de corpos bonitos e iluminação baixa, embora raramente alcance a provocação de produções como “Cinquenta Tons de Cinza” ou “365 Dias”. Quando a sensualidade representa o principal chamariz e até ela parece tímida, sobra ao suspense a tarefa de manter o interesse.
É nesse ponto que “Desejo” enfrenta seu maior problema. A história abandona gradualmente a crise íntima e passa a depender de acontecimentos mais graves, suspeitas e mudanças de comportamento. O roteiro deseja surpreender sem preparar cada passo com o mesmo cuidado usado na aproximação entre Lucero e Matías. Algumas escolhas surgem apenas para levar os personagens ao próximo perigo, deixando a impressão de que a lógica também resolveu manter um caso escondido.
Ludwika Paleta sustenta o risco
Mesmo quando o enredo perde firmeza, Ludwika Paleta preserva a atenção. A atriz oferece peso às decisões de Lucero e impede que a personagem se resuma a uma mulher rica entediada. Sua expressão muda conforme o caso deixa de representar liberdade e passa a ameaçar sua relação com Fernando e Viviana. Paleta torna crível o esforço de uma mãe que tenta proteger a família sem admitir que foi responsável por colocar todos naquela situação.
Teresa Simone possui um ponto de partida promissor. A diretora observa um casamento gasto, uma mulher carente e um jovem que entra na rotina familiar por uma porta aparentemente inofensiva. Enquanto permanece nesse espaço, “Desejo” mantém curiosidade e algum desconforto. Quando busca transformar a relação em um grande thriller, o longa acumula atitudes difíceis de defender e perde a contenção que tornava sua primeira metade mais interessante.
“Desejo” pode agradar a quem procura um suspense erótico leve, com elenco atraente, conflitos familiares e uma dose generosa de imprudência. Quem espera cenas ousadas ou uma trama policial muito bem construída talvez encontre algo mais comportado e confuso. O filme promete fogo, entrega algumas faíscas e passa boa parte do tempo procurando o interruptor em ambientes mal iluminados.

