Viajar costuma ser a forma mais civilizada de fugir, sobretudo quando se leva no porta-malas a esperança de que uma fronteira, uma língua estranha ou a simples sucessão de placas na estrada silenciem o que ficou para trás. Victor ainda não sabe disso quando decide deixar a costa grega no velho Audi da família e seguir até a Baviera, onde vive Angeliki, a mãe de quem se afastou. Ex-campeão de saltos ornamentais, agora reduzido ao expediente numa fábrica de móveis e a lembranças guardadas em medalhas, ele parte como quem cumpre uma obrigação tardia. Stelios Kammitsis, diretor e roteirista de “O Homem com as Respostas”, longa de 2021, dá a esse rapaz fechado o tipo de viagem em que cada quilômetro parece remover uma camada de defesa, ainda que o filme preserve por bastante tempo as razões de sua secura.
No ferry rumo à Itália, Victor cruza com Mathias, um alemão falante, curioso e incapaz de respeitar o silêncio alheio por mais de alguns segundos. Anton Weil entra no filme com a leve insolência de quem nunca precisou pedir licença para ocupar espaço, enquanto Vasilis Magouliotis faz do corpo enrijecido, dos olhos baixos e das respostas monossilábicas uma trincheira. Mathias consegue uma carona e transforma a travessia até a Alemanha numa sequência de pequenos desvios: o jogo das vinte perguntas, provocações diante do cardápio, uma parada para nadar num lago, uma festa de casamento que parece cair do céu. O roteiro não depende de grandes acontecimentos, preferindo deixar que a intimidade surja no atrito entre o homem que pergunta tudo e aquele que gostaria de não responder coisa alguma.
Quando o silêncio pega carona
Kammitsis encontra seus melhores momentos quando reduz ainda mais o volume da história. Depois do mergulho, os dois secam ao sol sobre um píer e dividem um cigarro; num quarto de hotel, um contato quase involuntário entre os pés contém mais desejo que uma cena carregada de declarações. Magouliotis sabe tornar visível o esforço de Victor para não recuar, e Weil modera a exuberância de Mathias justamente quando o personagem percebe que insistir demais pode arruinar o que começa a nascer. A fotografia de Thodoros Mihopoulos acompanha essa aproximação sem transformar as estradas italianas e alemãs em folheto turístico: a paisagem abre espaço ao redor dos rapazes, ao passo que o enquadramento vai diminuindo a distância entre eles.
Há uma delicadeza rara na escolha de apresentar o romance sem fazer da sexualidade uma sentença, um escândalo familiar ou o anúncio de alguma violência iminente. Victor e Mathias podem hesitar, ferir-se e interpretar mal os gestos um do outro pelos mesmos motivos banais que atormentam qualquer casal em formação. O filme não apaga a reserva do protagonista nem lhe atribui um discurso edificante; deixa-o experimentar o desejo com a cautela de quem passou tempo demais vivendo sob regras que talvez nem tenham sido impostas por terceiros. Essa normalidade, tão pouco espetacular, dá à relação uma força que falta a muitas produções empenhadas em converter personagens gays em porta-vozes de uma tese.
A delicadeza também tem limites
O despojamento também cobra seu preço. Mathias permanece quase sem passado, como se tivesse sido inventado apenas para destrancar Victor, e a passagem pela festa de casamento surge sem explicação suficiente, um capricho simpático que o filme abandona logo depois. Angeliki, interpretada com firmeza por Stella Fyrogeni, só ganha densidade no terço final, quando a chegada à Baviera obriga o filho a encarar o abandono que alimentara sua aspereza. São cenas importantes, capazes de reorganizar a viagem inteira, embora apareçam quando os breves 81 minutos já se encaminham para o fim. Kammitsis confia tanto na contenção que às vezes deixa de dar aos personagens o tempo necessário para que suas contradições amadureçam.
Ainda assim, “O Homem com as Respostas” conserva o encanto das histórias que sabem exatamente até onde podem ir. O velho Audi chega à Alemanha levando um Victor diferente daquele que embarcara sozinho, sem que o diretor precise anunciar transformação alguma. Magouliotis e Weil sustentam o filme naquilo que fazem com os intervalos, os olhares e a súbita coragem de permanecer perto. Ao fim da estrada, ninguém entrega respostas definitivas. Victor aprende algo bem mais útil: certas perguntas deixam de assustar quando há alguém disposto a atravessá-las no banco ao lado.

