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O terror e o ridículo têm muitas semelhanças. Os patinhos feios do mundo despertam tal simpatia que certos diretores passam a ter como missão iluminar o lado obscuro do homem, sem medo de cara feia ou das represálias do mercado, mais e mais implacáveis graças ao politicamente correto. Sam Raimi, felizmente, continua a não dar bola para a patrulha, como se assiste em “Socorro!”, uma declaração de amor ao gênero que inscreveu seu nome no panteão de Hollywood. A refinada excentricidade de Raimi, materializada na montagem dinâmica, em enquadramentos que desafiam a gravidade, nas tomadas que unem artesania e cálculo, servem a uma história aparentemente batida, mas que aos poucos transmite o seu recado. Aqui, o diretor faz reflexões estimulantes sobre as humanas misérias ao enxergar no ambiente corporativo um recorte da vida como uma sucessão de hediondezas, perpetradas por monstros apolíneos.

Rindo de nervoso

O universo de fortunas que se erguem no ar é o trampolim de que Raimi salta para alcançar a profundidade ardilosamente escondida dos assuntos incômodos. O diretor escolhe ancorar suas teses a respeito das perversões do capitalismo na figura de Linda Liddle, uma talentosa e abnegada gerente de Planejamento e Estratégia de uma tal Preston Strategic Solutions, só mais um dente da roda de moer dignidades inventada pelo homem. Essa pobre mulher feiosa em sapatos masculinos gastos, desgrenhada, solitária, ignorada pelos colegas, vê no trabalho um prazer, mas também uma oportunidade de ascender socialmente e conquistar os privilégios dos machos engravatados que a rodeiam. Linda é covardemente manipulada por seu supervisor, que consegue a promoção a vice-presidente que deveria ser dela, e como prêmio de consolação, é chamada a viajar para a Tailândia por Bradley, o novo presidente, filho do dono recém-falecido. Resignada, mas esperançosa, ela vai.

Caótico espetáculo

O roteiro de Damian Shannon e Mark Swift sobe alguns tons durante a tal viagem, misturando catástrofe e escatologia ao passo que, acertadamente, mantém Linda no foco. Avariada depois de uma pane, a aeronave termina numa ilha deserta em algum lugar no Golfo da Tailândia, e a ultrajada Linda tem a chance de uma vingança contra Bradley, fazendo questão de, primeiro, alimentá-lo e tratar seus ferimentos, numa brincadeira sadomasoquista ao longo da qual ouve impropérios e reage com chantagem emocional e tortura psicológica. Muito à vontade, Raimi junta referências a Louca Obsessão (1990), o clássico de Rob Reiner (1947-2025) adaptado do romance de Stephen King, apostando na interpretação matadora de Rachel McAdams. Diferentemente de Annie Wilkes, a enfermeira diabólica de Kathy Bates, Linda Liddle se dá bem — e difícil afirmar que ela não o mereça. 


Filme: Socorro! Send Help
Diretor: Sam Raimi
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Suspense/Terror
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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