Uma das maiores pensadoras do século 20, Hannah Arendt (1906-1975) dedicou a vida a investigar a razão pela qual comportamentos bestiais iam tomando conta de uma sociedade. Os estudos da filósofa alemã relacionam-se à matança generalizada de judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mas seu raciocínio é fundamentado sobre tamanha sensatez que pode-se aplicá-lo em quase todas as circunstâncias macabras de conflitos bélicos e o consequente genocídio de populações vulneráveis ao longo do século 20. Arendt continua encorajando pensadores e artistas a buscar alguma explicação para o inexplicável, e “Nuremberg” é mais um filme que remexe o baú sem fundo da História e tira dele outro enredo macabro, de heróis anônimos e vilões que tornam-se um exemplo célebre de até onde podem ir o homem e sua perversão. Baseando-se em “O Nazista e o Psiquiatra” (2013), livro de não ficção do jornalista Jack El-Hai, James Vanderbilt descortina um jogo psicológico cheio de nuanças, travado pela civilização e a barbárie na pele de dois homens.
Como julgar o impensável?
O marechal Hermann Göring (1893-1946) é o único nazista ainda vivo, e aguarda julgamento numa cela no Palácio da Justiça de Nuremberg, norte da Bavária. O psiquiatra americano Douglas Kelley (1912-1958) é chamado a realizar exames no prisioneiro, assegurando-lhe um direito que nunca observara quando chefe da Luftwaffe, a força aérea alemã do Terceiro Reich, e em boa parte dos 148 minutos, Vanderbilt procura esse delicado equilíbrio, prezando pela neutralidade, fantasiosa quimera para muitos, sem prejuízo da ênfase no trágico. O filme cresce para além do que é contado com as interações entre as duas figuras centrais, e as performances mediúnicas de Russell Crowe e Rami Malek sublinha o estranhamento quando sabe-se que Göring e Kelley morreram nas mesmas circunstâncias, cada qual no seu lado da História. Como a obra de Arendt quis demonstrar.

