Discover

Uma estrada vazia oferece a ilusão de que ninguém está ouvindo. O motorista fecha os vidros, aumenta o volume do rádio e sente-se dispensado das regras elementares que ainda observaria diante de outra pessoa, como se o anonimato concedido pelo asfalto fosse uma licença para a estupidez. Em “Perseguição: A Estrada da Morte”, basta uma voz atravessar a estática de um rádio PX para essa fantasia tornar-se castigo. Dirigido por John Dahl a partir do roteiro de Clay Tarver e J.J. Abrams, o thriller de 2001 acompanha os irmãos Lewis e Fuller durante uma viagem que deveria terminar com o primeiro reencontrando Venna, sua amiga de infância e paixão mal resolvida.

Paul Walker, Steve Zahn e Leelee Sobieski ocupam o centro dos 97 minutos, embora o personagem decisivo permaneça fora do quadro. Ted Levine fornece a voz de Rusty Nail, o caminhoneiro que transforma uma brincadeira grosseira numa caçada de alcance indefinido. A decisão de ocultá-lo salva o filme de muitas vulgaridades comuns ao gênero. Sem um rosto que lhe imponha limites, o perseguidor pode ser qualquer homem ao volante de qualquer caminhão surgindo na noite.

Lewis compra um carro e atravessa os Estados Unidos rumo ao Colorado, até alterar o trajeto para tirar Fuller da cadeia em Salt Lake City. O irmão mais velho entra no veículo carregando o comportamento de quem sempre transforma uma concessão em novo problema, instala um rádio comunicador no painel e convence Lewis a conversar com caminhoneiros fingindo ser uma mulher chamada Candy Cane. Paul Walker reage com o desconforto de alguém que sabe estar cedendo a uma ideia ruim e prefere participar a ser chamado de covarde. Steve Zahn dá a Fuller o equilíbrio exato entre a fanfarronice divertida e a irresponsabilidade irritante, deixando à mostra o medo infantil que se esconde por baixo da provocação.

Candy Cane chama o homem errado

A brincadeira degringola quando eles marcam um encontro entre Rusty Nail e um hóspede grosseiro do quarto 17 de um motel. Protegidos pela parede, os irmãos escutam a chegada do caminhoneiro, uma discussão, pancadas e um silêncio que deveria bastar para fazê-los compreender a gravidade do que provocaram. Na manhã seguinte, o homem é encontrado à beira da estrada, em coma e com a mandíbula arrancada. Fuller ainda trata o episódio como uma travessura que saiu do controle, até insultar Rusty Nail pelo rádio e eliminar qualquer possibilidade de que o desconhecido os deixe seguir viagem.

John Dahl percebe que mostrar o perseguidor diminuiria seu poder. Rusty Nail existe na cadência grave de Ted Levine, no rugido do motor, nos faróis surgindo pelo retrovisor e na sombra de um caminhão grande demais para caber na estrada. Há um eco evidente de “Encurralado”, de Steven Spielberg, especialmente na maneira como a máquina adquire personalidade própria e o motorista se torna menos importante que a sensação de estar sendo caçado por algo sem feições. Dahl acrescenta uma crueldade íntima, construída pela voz que repete Candy Cane como se saboreasse cada sílaba da humilhação.

Rusty Nail passa a dirigir o comportamento das vítimas, obrigando os irmãos a repetir frases, pedir desculpas e reconhecer que o anonimato não os absolve. Uma das melhores passagens nasce de um engano. Lewis e Fuller avistam um caminhão frigorífico num posto de gasolina, fogem em pânico e acabam num beco sem saída, perseguidos pelo motorista, que pretendia apenas devolver um cartão de crédito esquecido. O alívio dura poucos segundos. O verdadeiro caminhão atravessa o veículo do homem e começa a esmagar lentamente o carro dos irmãos contra uma árvore.

Dahl mede a cena pela demora, deixando o metal ceder e os vidros estalarem até que a ameaça se torne física sem que Rusty Nail precise descer da cabine. Fuller abandona toda a valentia, chora e implora perdão, enquanto Lewis tenta negociar com alguém que já não demonstra interesse por explicações. O filme encontra sua força nesse tipo de sequência, amparada pelo som, pelo espaço restrito e pela consciência de que o agressor poderia surgir de qualquer ponto da escuridão.

A voz que passa a dirigir a viagem

A entrada de Venna deveria aliviar a relação entre os irmãos, uma vez que Lewis enfim alcança o objetivo da viagem. Leelee Sobieski chega a um carro já contaminado pelo segredo. Fuller ocupa o banco traseiro, provoca o casal e tenta converter o pânico recente em anedota, ao passo que Lewis hesita em contar à moça por que um caminhoneiro invisível parece conhecer cada parada do trio. O roteiro reduz Venna a objeto da disputa masculina durante parte considerável do percurso, deficiência que Sobieski contorna com uma presença alerta, percebendo antes dos rapazes que o perseguidor pretende prolongar o castigo.

Rusty Nail sequestra Charlotte, amiga de Venna, e passa a deixar mensagens em placas à beira da estrada, conduzindo o trio como se controlasse o mapa inteiro. O último ato exagera essa onisciência. O caminhoneiro prepara armadilhas, sequestra pessoas, antecipa os movimentos policiais e recupera a encenação do quarto 17 com uma eficiência que roça o sobrenatural. A montagem de Eric Beason e Glen Scantlebury impede que o acúmulo de coincidências arrefeça a tensão, e a trilha de Marco Beltrami mantém uma pulsação nervosa quando o roteiro começa a trapacear.

Walker sustenta Lewis pela culpa, Sobieski oferece a Venna uma atenção que os irmãos não possuem, e Zahn continua sendo a melhor parte do trio, especialmente quando Fuller percebe que seu humor já não protege ninguém. “Perseguição: A Estrada da Morte” conserva o vigor dos thrillers que dependiam de som, espaço e expectativa, sem a obrigação de revelar o vilão a cada cinco minutos. O desfecho estende demais a invulnerabilidade de Rusty Nail, ainda que a voz que torna a surgir no rádio recoloque o filme no lugar de onde nunca deveria ter saído. Enquanto Candy Cane continuar atravessando a estática, a estrada ainda pertencerá ao homem que Lewis e Fuller acharam divertido provocar.


Filme: Perseguição: A Estrada da Morte Joy Ride
Diretor: John Dahl
Ano: 2001
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Leia Também