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A praia tornou-se um território político quando trabalhadores franceses chegaram ao litoral carregando malas modestas, roupas do dia a dia e o direito recém-conquistado de descansar sem perder o salário. Promulgada em 20 de junho de 1936, a lei das férias remuneradas garantia duas semanas anuais aos empregados, e centenas de milhares deles viajaram naquele mesmo verão, ocupando trens, pensões e faixas de areia que a burguesia tratava como extensão natural de suas propriedades. “O Verão de 1936” começa nesse instante de assombro coletivo, quando os hóspedes habituais da Riviera Francesa descobrem que o mar não exige sobrenome nem saldo bancário. Marie Deshaires e Catherine Touzet transformam essa invasão pacífica num thriller histórico, conduzido por Fred Garson ao longo de seis episódios.

No luxuoso Hotel Riviera, em Nice, o promotor Adrien Jacquart aparece morto num quarto. A descoberta lança quatro mulheres sobre a mesma engrenagem, ainda que cada uma chegue ao crime por uma porta diferente. Blanche Ackerman, interpretada por Julie de Bona, pertence à família que frequenta salões, organiza piqueniques e jamais precisa explicar de onde vem o dinheiro; casada e mãe de uma menina, ela mantinha um caso com Jacquart. Eugénie Berthier, de Sofia Essaïdi, é uma operária sindicalizada, antiga noiva da vítima e irmã de Blanche por parte de pai, parentesco que durante anos serviu apenas para lembrar às duas que nasceram sob regras distintas. Giulia Vincent, a governanta do Riviera vivida por Nolwenn Leroy, conhece os corredores, os hábitos dos hóspedes e o valor do silêncio profissional. Léonie Morel, de Constance Gay, trabalha como auxiliar de polícia e precisa provar sua competência diante de colegas que prefeririam vê-la servindo café. Giulia e Léonie também são meias-irmãs, e essa coleção de laços ocultos faz do assassinato um assunto familiar antes que o comissário Raven consiga tratá-lo como caso policial.

O hotel como mapa da desigualdade

O Riviera organiza a sociedade francesa em andares. Nos salões, os burgueses vestem tons claros, bebem, dançam e observam com repugnância os novos veranistas; nas áreas de serviço, empregadas atravessam passagens estreitas, carregam bandejas e aprendem os segredos de gente que nem sequer sabe seus nomes. Garson tira proveito dessa geografia, deslocando a investigação entre suítes, cozinhas, escadarias, praias e o cassino, de tal maneira que cada mudança de cenário também altera a autoridade dos personagens. O palácio fictício foi composto a partir de quatro espaços diferentes, entre Paris e Nice, e os figurinos reforçam a divisão social com precisão: pastéis quase imaculados para os endinheirados, tecidos escuros e gastos para operários, cores mediterrâneas para os moradores da cidade. A reconstituição deixa de ser decoração quando Blanche e Eugénie ocupam o mesmo quadro; os vestidos já informam qual delas seria acreditada numa delegacia.

Julie de Bona confere a Blanche uma altivez sempre prestes a rachar, sobretudo quando a filha Angèle aproxima-se de Eugénie e ameaça romper a redoma erguida pela mãe. Essaïdi faz da operária uma mulher prática, habituada a medir o custo de cada gesto, que conhece a importância das conquistas sindicais sem repetir discursos como quem lê um panfleto. Nolwenn Leroy trabalha Giulia pelo recolhimento; ela governa empregados, antecipa os desejos dos hóspedes e enrijece o rosto quando algum homem poderoso tenta cobrar-lhe uma dívida antiga. Constance Gay tem a função mais movimentada. Léonie acompanha Raven, interroga, observa contradições e percebe pistas que os policiais descartam, embora o texto às vezes precise tornar os homens excessivamente obtusos para que sua inteligência se destaque.

François-Xavier Demaison oferece ao comissário Raven uma mistura saborosa de cansaço e vaidade. Ele começa convencido de que resolverá o crime seguindo os procedimentos habituais, e logo se vê diante de amantes, filhos desconhecidos, dívidas de jogo, confissões precipitadas, pingentes perdidos e álibis confeccionados por gente que dispõe de empregados para mentir em seu lugar. O mistério avança com a eficiência de um Cluedo bem montado, ainda que algumas revelações cheguem acompanhadas de explicações redundantes. A série teme que o público não compreenda a relação entre classe social, gênero e presunção de inocência, e por isso volta ao mesmo ponto quando a posição de Blanche ou Eugénie já o havia deixado suficientemente claro.

Quatro mulheres contra a verdade oficial

Essa inclinação didática não arruína o conjunto, porque o crime conserva força e as quatro protagonistas escapam da condição de ilustrações históricas. Elas mentem, traem, protegem filhos, escondem amantes e tomam decisões que não cabem numa cartilha sobre emancipação feminina. A solidariedade entre elas nasce da necessidade, sofre abalos e só ganha consistência quando compreendem que a verdade administrada pelos homens do Riviera lhes reserva culpa, prisão ou obediência.

“O Verão de 1936” usa o cadáver de Jacquart para abrir as portas de uma sociedade que tentava conservar seus privilégios enquanto operários estendiam toalhas na areia. O promotor morto é importante, naturalmente, porém o verdadeiro escândalo está vivo e chega de trem, trazendo crianças, marmitas, bicicletas e quinze dias livres. A burguesia suportaria um assassino entre seus hóspedes com mais elegância do que a visão de trabalhadores tomando banho no mesmo mar.


Série: O Verão de 1936
Diretor: Fred Garson
Ano: 2026
Gênero: Mistério/Policial
Avaliação: 4/5 1 1
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