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A culpa pode tornar-se uma cela muito antes que as portas de ferro se fechem. David Burroughs sabe que não matou o filho, ainda assim recebe a prisão perpétua com a passividade de quem se julga merecedor de algum castigo, convencido de que falhou na obrigação mais elementar de um pai. Sam Worthington começa “Eu Vou Te Encontrar” quase imóvel, o corpo endurecido pelo confinamento, a voz reduzida ao indispensável, numa composição que faz de David um homem já ausente quando Rachel Mills aparece diante do vidro da sala de visitas. Ela traz uma fotografia tirada num parque de diversões. Entre crianças, brinquedos e adultos distraídos, está um menino com a mesma marca de nascença de Matthew, o morto cujo cadáver fora encontrado desfigurado na cama. Adaptada por Robert Hull do romance publicado por Harlan Coben em 2023, a minissérie de oito episódios encontra nessa imagem sua melhor ideia: devolver esperança a alguém que havia aprendido a respirar sem estar vivo.

Rachel é irmã da ex-mulher de David e uma jornalista investigativa caída em desgraça, combinação providencial para que Britt Lower transforme curiosidade profissional, culpa familiar e teimosia num mesmo impulso. Ela nunca acreditara inteiramente na condenação do cunhado e vê na fotografia a chance de corrigir duas vidas, talvez também a própria carreira. David reconhece Matthew de imediato e volta a mover-se, primeiro dentro da penitenciária, onde uma tentativa de assassinato confirma que alguém ainda o quer fora do caminho, depois nas ruas, ajudado pelo diretor do presídio e por Adam Mackenzie, amigo antigo e policial. Worthington preserva a contenção mesmo durante a fuga, evitando que o protagonista vire um brucutu inocente perseguido pelo sistema. Quando corre, salta de telhados ou enfrenta capangas, David parece movido menos por valentia que pelo pavor de chegar tarde outra vez.

Sam Worthington corre sem abandonar o luto

Hull sabe que uma produção dessa natureza precisa caminhar depressa. David e Rachel descobrem que Hilde Winslow, a vizinha que jurou tê-lo visto enterrando o taco de beisebol usado no crime, mudou de nome e desapareceu em Nova York. Ao procurá-la, os dois entram nos domínios de Nicky Fisher, um mafioso experiente em comprar testemunhos e transformar dívidas familiares em instrumentos de chantagem. Correm atrás deles Sarah Greer e Max Williams, agentes do FBI e filha e pai, interpretados por Logan Browning e Chi McBride com uma dureza funcional, quase burocrática. A lembrança de “O Fugitivo” (1993), de Andrew Davis, impõe-se nas perseguições, nos becos, nos apartamentos invadidos e na convicção dos investigadores de que inocência é um assunto a ser discutido depois da captura. Uma escapada por telhados que termina dentro de um caminhão de lixo e o tiroteio em Washington Square Park mostram uma série segura ao produzir tensão imediata, ainda que pouco interessada nas consequências físicas ou jurídicas de seus milagres.

Harlan Coben costuma erguer suas histórias sobre famílias que escondem segredos com a mesma disciplina com que outras guardam joias. Cheryl, a ex-mulher de David, refez a vida ao lado de Ronald Dreasen, administrador do hospital onde trabalha como cirurgiã pediátrica, e tenta impedir que a fuga do antigo marido reabra a ferida que levara anos para cauterizar. Erin Richards evita tratar Cheryl como a esposa obtusa que se recusa a aceitar o óbvio; sua incredulidade nasce do corpo encontrado, dos exames, do julgamento e da devastação doméstica, provas bastante convincentes até para uma mãe. Hugh Thompson, como Lenny, o pai de David e ex-policial, acrescenta uma geração anterior de homens dispostos a adulterar evidências em nome da proteção familiar, escolha que põe o protagonista diante de uma verdade incômoda sobre a origem de sua desgraça.

Milo Ventimiglia entra nesse emaranhado como Hayden Payne, antigo namorado de Rachel e herdeiro de uma fortuna filantrópica. Sempre disponível, dono de um apartamento luxuoso e de contatos capazes de tirar alguém da cadeia antes do jantar, Hayden oferece ajuda com a serenidade de quem jamais precisou ouvir uma recusa definitiva. Ventimiglia trabalha o personagem na fronteira entre o cavalheirismo e a intromissão, deixando pequenas fissuras sob os sorrisos enquanto Madeleine Stowe, na pele de Gertrude Payne, sua mãe, circula pela vida de Cheryl com uma solicitude que cheira a vigilância. É nesse núcleo que “Eu Vou Te Encontrar” acha seu material mais perturbador, relacionando amor, dinheiro e paternidade a uma ideia de posse que se torna criminosa quando alguém decide fabricar para si a família que a realidade lhe negara.

Quando Harlan Coben acelera além da verossimilhança

A reta final acrescenta túmulo vazio, exames manipulados, clínica de fertilidade, criança substituída, aviões particulares, policiais corruptos, cadáveres inconvenientes e revelações familiares numa quantidade capaz de fazer a verossimilhança pedir clemência. Hull mantém o ritmo e entrega os ganchos na hora exata, conquanto dependa de uma conspiração tão trabalhosa que seus responsáveis poderiam ter resolvido o problema de dez maneiras menos delirantes. Worthington e Lower sustentam esse edifício instável porque nunca tratam David e Rachel como peças descartáveis do quebra-cabeça. Ele continua sendo o pai que olha para uma fotografia até conseguir acreditar que ainda existe algum lugar aonde chegar; ela, a mulher que percebe tarde demais quanto custa confiar nas pessoas certas pelas razões erradas. “Eu Vou Te Encontrar” prende, engana e exagera com desenvoltura, um thriller ligeiro cujo coração bate com força suficiente para sobreviver às muitas armadilhas que Harlan Coben espalha pelo caminho.


Série: Eu Vou Te Encontrar
Diretor: Robert Hull e Harlan Coben
Ano: 2026
Gênero: Drama/Suspense/Thriller
Avaliação: 4/5 1 1
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