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Uma vida sem sobressaltos num lugarejo perdido em algum rincão do Kansas deveria ser a expressão máxima da plenitude para quem habituou-se a nunca esperar nada de especial. Tragédias pessoais moldam o caráter desses homens, deixando mais amena sua apreensão sobre a vida, ou, pelo contrário, fustigando-os com tal ímpeto que aprisionam-se na ideia de que eles merecem uma segunda chance, claro. O mítico Velho Oeste, o paraíso por ser descoberto, uma terra sem lei ao longo do século 19, encantou figuras imbuídas de um desejo de recomeçar, dispostas a atirar-se sem medo a uma jornada contra o que quer que ameace seus sonhos bárbaros e inocentes, fonte de inspiração e abrigo do sol e da neve. Entre essas almas puras e um tanto selvagens está Charles Ingalls, o utopista errante detalhado em “Uma Casa na Pradaria”. Começada em 1932, a série de livros de Laura Ingalls Wilder (1867-1957) serve de base para Rebecca Sonnenshine e cinco roteiristas, que junto com o pesquisador osage Robert Warrior tentam conferir à narrativa o máximo de imparcialidade e rigor histórico. Sonnenshine e sua equipe também voltam a “Os Pioneiros”, seriado desenvolvido por Blanche Hanalis (1915-1992) e levado ao ar pela NBC entre 1974 e 1983. E nostalgia é um ativo poderoso aqui.

Há coelhos no céu?

Dores de amor de facínoras, a moral improvável dos matadores, as vontades carnais dos tristes são temas que guardam em suas camadas visões de mundo delirantemente incompatíveis. Veredas de capim-gordura e grama-azul a perder de vista para alimentar milhares de cabeças de gado (se gado houvesse) esperam por Charles, a esposa, Caroline, e as filhas do casal, Laura e Mary. No primeiro dos oito episódios, eles atravessam um rio excepcionalmente cheio depois das chuvas primaveris e quase perdem o pouco que tem, e a abordagem homérica perdura como outra das fórmulas para prender o público. Os Ingalls querem escapar da miséria, juntar um dinheiro e comprar um pedacinho de chão para criar seus animais, mas para isso dependem de um Congresso que não sabe que eles existem — e seduzido pelas propinas generosas dos filhos das águas médias. “Uma Casa na Pradaria” é só um recorte afetivo das memórias da infância da autora, e é nisso que a Netflix aposta ao querer repetir o êxito do programa de há meio século, alento de milhões na pandemia. Não muito mais.


Série: Uma Casa na Pradaria
Diretor: Rebecca Sonnenshine
Ano: 2026
Gênero: Faroeste/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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