Discover

Lançado em 2026 e dirigido por Sonia Méndez, “Boulevard” acompanha dois estudantes do ensino médio que se aproximam enquanto enfrentam problemas capazes de colocar o romance e a própria segurança em risco. Halsey (Eve Ryan) convive com o vício. Luke (Mikel Niso) carrega dores que prefere esconder. Unidos pela sensação de deslocamento, eles passam a enxergar um no outro uma chance de acolhimento, embora nenhum dos dois esteja preparado para sustentar sozinho o peso dessa ligação.

Halsey e Luke ocupam um lugar incômodo dentro da escola. Eles não pertencem aos grupos mais populares, tampouco demonstram interesse em disputar essa vaga. Cada um tenta atravessar os dias carregando problemas que os colegas pouco conhecem. A solidão aproxima os dois antes mesmo que surja qualquer promessa amorosa. O primeiro vínculo nasce do reconhecimento entre pessoas que sabem o que significa entrar em uma sala e ainda assim permanecer do lado de fora.

“Boulevard” parte dessa identificação para construir o romance. Halsey encontra em Luke alguém disposto a ouvi-la sem tratá-la apenas como uma garota problemática. Ele, por sua vez, passa a baixar a guarda diante de uma pessoa que não exige uma versão mais agradável de sua personalidade. A intimidade cresce porque ambos oferecem acolhimento, mas também porque encontram poucas alternativas fora daquela relação. Essa dependência torna cada gesto carinhoso mais intenso e cada afastamento muito mais doloroso.

Sonia Méndez apresenta os protagonistas com sensibilidade e permite que a proximidade surja aos poucos. Eve Ryan dá a Halsey uma combinação convincente de firmeza e fragilidade. A personagem deseja mudar, mas precisa enfrentar um vício que interfere em suas escolhas e prejudica a confiança de quem está por perto. Mikel Niso trabalha Luke com maior contenção. O rapaz fala pouco sobre aquilo que o atormenta, preferindo esconder a dor atrás de uma postura fechada.

Paula García Lara integra o núcleo principal e ajuda a compor o ambiente social ao redor do casal. Mesmo com a presença de outros personagens, o roteiro mantém a atenção sobre Halsey e Luke. Essa escolha fortalece a ligação entre eles, embora deixe parte do universo escolar menos desenvolvido. A escola existe como ponto de encontro, espaço de julgamento e lembrança diária de que os dois ainda são adolescentes tentando lidar com assuntos grandes demais.

O vício entra no romance

A dependência de Halsey não funciona apenas como detalhe dramático. Ela muda compromissos, alimenta desconfianças e obriga Luke a decidir quanto consegue suportar. O rapaz deseja ajudá-la, mas vontade e afeto não substituem tratamento, responsabilidade ou apoio profissional. A história ganha força quando reconhece essa diferença. Amar alguém pode oferecer companhia, mas não concede preparo para resolver uma doença.

Halsey também enfrenta uma escolha difícil. Ela quer permanecer perto de Luke, porém precisa cuidar da própria vida antes de prometer estabilidade a outra pessoa. A personagem oscila entre a esperança de mudança e comportamentos que a devolvem ao mesmo ponto. Eve Ryan preserva essa contradição sem transformar Halsey numa vítima passiva. A jovem sabe que suas atitudes machucam os outros, embora ainda não consiga controlar tudo o que faz.

Luke carrega outra forma de sofrimento. Sua escuridão surge na dificuldade de confiar, no medo de perder e na tendência de esconder aquilo que sente. Mikel Niso não transforma o personagem em um jovem misterioso fabricado apenas para parecer sedutor. Há momentos em que Luke é afetuoso, outros em que se torna difícil de alcançar. Essa variação ajuda o romance a permanecer humano, ainda que o roteiro flerte algumas vezes com a velha ideia do rapaz ferido que precisa ser salvo pelo amor.

Esse é um ponto delicado de “Boulevard”. Histórias juvenis costumam transformar sofrimento em sinal de profundidade, sobretudo quando o personagem masculino é fechado, bonito e incapaz de falar sobre os próprios sentimentos. Luke possui elementos desse modelo. Méndez, porém, procura mostrar o custo de sua postura. Permanecer ao lado dele exige paciência, energia e uma disposição que Halsey talvez não tenha condições de oferecer.

Quando cuidar também machuca

O sentimento entre os protagonistas cresce enquanto os problemas pessoais se tornam mais difíceis de ignorar. Halsey e Luke passam a depender da presença um do outro para enfrentar a escola, a solidão e o medo. Essa proximidade oferece algum alívio, mas cria outra preocupação. Quando uma pessoa se transforma na única fonte de apoio da outra, qualquer falha ganha proporções enormes.

O roteiro trabalha melhor quando coloca o casal diante de decisões simples e dolorosas. Permanecer, afastar-se, contar a verdade ou esconder uma recaída passam a ter peso real. Ninguém recebe um manual de instruções, o que seria conveniente para os personagens e bem menos interessante para o público. As escolhas nascem de impulsos, culpa e medo. O resultado é uma relação terna, mas também cansativa para quem tenta mantê-la viva.

A direção não trata Halsey e Luke como exemplos a serem seguidos. Eles cometem erros, ferem pessoas e confundem cuidado com obrigação. Ainda assim, permanecem reconhecíveis. São adolescentes que desejam ser amados antes mesmo de aprenderem a conviver com aquilo que carregam. Essa imaturidade explica parte de suas atitudes, embora não apague os danos provocados por elas.

Um romance cercado pelo risco

“Boulevard” funciona melhor quando abandona a imagem do amor capaz de consertar qualquer pessoa. Halsey e Luke possuem uma ligação verdadeira, mas o sentimento não elimina o vício dela nem resolve os conflitos dele. A relação oferece coragem para algumas mudanças e produz novos receios. Esse equilíbrio impede que o drama vire apenas uma sucessão de sofrimentos montados para arrancar lágrimas.

Eve Ryan e Mikel Niso sustentam o filme com uma química delicada. Os dois atores convencem nos momentos de aproximação e também nas pausas desconfortáveis, quando uma frase mal escolhida pode afastar o casal. Sonia Méndez mantém a câmera próxima dos rostos e das reações, deixando que hesitações e silêncios revelem o que os personagens não conseguem dizer.

O roteiro poderia dedicar mais espaço às pessoas ao redor dos protagonistas. Familiares, colegas e amigos ajudariam a mostrar outras possibilidades de apoio, além de impedirem que o romance carregasse sozinho toda a responsabilidade emocional da história. Ainda assim, o foco fechado produz um efeito coerente. Para Halsey e Luke, o mundo parece diminuir até caber naquela ligação.

“Boulevard” mostra um romance juvenil sensível, marcado por vício, medo e desejo de pertencimento. O filme acerta ao mostrar que carinho e perigo podem ocupar a mesma relação sem que um apague o outro. Halsey e Luke querem permanecer juntos, mas precisam descobrir quanto essa escolha custa. Méndez acompanha essa aproximação com respeito pelos personagens e deixa que cada decisão revele aquilo que o amor consegue oferecer, além daquilo que ele jamais poderá resolver sozinho.


Filme: Boulevard
Diretor: Sonia Méndez
Ano: 2026
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 3/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também