O respeito às diferenças é a pedra fundamental de qualquer sociedade que se queira civilizada. Baseando-se nessa premissa, nações do mundo todo atravessam o tempo mantendo-se coesas diante das intempéries que atacam as democracias desde sempre, enquanto descobrem ânimo para inspirar em sua gente o desejo de ir além e a necessidade de jamais conformar-se com nada menos que o justo. Assim se fizeram potências que se cristalizaram como verdadeiramente grandes entre o fim do século 20 e a primeira década do século 21. Porém, há circunstâncias em que o Estado democrático de direito é atropelado pela História, e as vítimas não são apenas uma abstração: pagam com o próprio sangue pelo sonho da verdadeira liberdade e de progresso. Os espanhóis têm muito a ensinar nessa matéria, como se assiste em “Miguel Ángel Blanco: As 48 Horas que Mudaram a Espanha”, um filme sobre um homem comum que queria ser ouvido. Miguel Ángel Blanco Garrido (1968-1997), um vereador de 29 anos de Ermua, município de Biscaia, comunidade autônoma do País Basco, começa a ser perseguido, é sequestrado e fica em poder de uma organização terrorista por dois dias inteiros, até ser liberado, gravemente ferido. O que vem a seguir é contado pelos diretores Juanjo López e Jon Sistiaga com fartura de imagens de arquivo, trechos de reportagens veiculadas à época, fotos e entrevistas recentes com familiares, jornalistas, políticos e cidadãos que acompanhou de perto a macabra novela.
A política e sua negação
Quem tem só uma vaga lembrança ou nunca soube do caso sente-se envolver por uma narrativa cuja densidade emocional não interfere nas boas análises de Sistiaga, jornalista à frente da cobertura pela Telecinco, que rememora o contexto do que seria uma tragédia e realça aspectos colaterais da notícia. Feito o pai, Miguel como ele, Blanco trabalhou na construção civil e, algum tempo mais tarde, formou-se em economia pela Universidade Euskal Herriko. Torcedor do Barcelona, o amor pelo esporte o levou a engrossar o coro dos descontentes com o fim do centro desportivo de Ermua, e daí para a filiação ao Herri Batasuna (HB), o Partido Popular, foi um pulo. A eleição à Câmara Municipal não mudou-lhe a rotina, e nos duzentos metros que separavam a estação de trem e seu novo posto de trabalho, ele sumiu. Desconfia-se que o ETA esteja por trás do episódio, e a suspeita se confirma.
Esperança e frustração
López e Sistiaga são hábeis em unir o público e o íntimo e dão voz a personagens como José María Aznar, o então primeiro-ministro espanhol, e a Marimar, a irmã, que em várias passagens narra o martírio da mãe, Consuelo, até Blanco ser encontrado com um tiro na nuca há 29 anos, em 12 de julho de 1997, em San Sebastián. Internado no hospital Nuestra Señora de Aránzazu, ele morre no dia seguinte, e os líderes do ETA, grupo paramilitar marxista-leninista que reivindicava a independência do País Basco, extinto em 3 de maio de 2018, conseguiram asilo na França. Os únicos criminosos ainda vivos insistem em negar a participação no assassinato de Blanco. Marimar ainda recebe cartas de seus admiradores.

