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O céu deve ter repartições muito parecidas com as da Terra, com funcionários distraídos, prontuários trocados e chefes que tentam consertar uma tragédia oferecendo à vítima um formulário ainda mais absurdo. “Um Pesadelo Maravilhoso” tira graça dessa burocracia celestial e põe diante dela Maria Luisa “Lui” Manuel, advogada acostumada a transformar a lei numa máquina de esmagar adversários. No tribunal, ela defende o filho de um magnata acusado de estupro, constrange a vítima e obtém o acordo que lhe garante fama, dinheiro e uma proposta de trabalho nos Estados Unidos. A repulsa com que recebe a comemoração arrogante do cliente sugere que alguma consciência ainda respira sob os ternos impecáveis, embora Lui já tenha aprendido a calá-la sempre que isso favorece sua carreira. RC Delos Reyes apresenta a personagem sem pedir simpatia para ela, confiando a Kim Molina a tarefa de tornar interessante uma mulher cuja inteligência serve, naquele momento, à pior espécie de gente.

A caminho da vida com que sonhara, Lui sofre um acidente e desperta no Centro de Transmissão da Vida Após a Morte, um paraíso administrativo de edifícios brancos à beira-mar, onde o diretor interpretado por Al Tantay lhe comunica o equívoco. Uma idosa homônima deveria ter morrido em seu lugar. Como o erro exige um mês para ser corrigido, a advogada poderá retornar ao próprio corpo desde que aceite viver durante esse período como Mary Jane Alcantara, dona de casa pobre, casada e mãe de dois filhos. A comédia fantástica filipina dirigida por Delos Reyes adapta o longa sul-coreano “Wonderful Nightmare”, de 2015, a partir do roteiro de Easy Ferrer e Rod Marmol, trocando o asseio sentimental da matriz por uma atmosfera doméstica movimentada, cheia de contas, vizinhos intrometidos, panelas baratas e crianças que fazem perguntas nas horas mais inconvenientes.

Kim Molina entre o tribunal e a cozinha

Mary Jane, chamada de “Wifey” pelo marido, Julian, acorda numa casa em Manila que parece pequena demais para o susto de Lui. Aos 33 anos, ela agora tem Jaja, uma adolescente interessada em aulas de interpretação, e Justin, menino esperto que conclui, diante das súbitas mudanças da mãe, que ela deve estar entrando na menopausa. Vegana, Lui precisa preparar carne com ingredientes de segunda linha; avessa a qualquer intimidade compulsória, repele os avanços conjugais de Julian; acostumada a ter empregados e motoristas, descobre que naquela família uma refeição, uma mensalidade ou um remédio podem exigir cálculos tão minuciosos quanto os de uma ação judicial. Delos Reyes encontra aí o melhor veio cômico do filme, sobretudo quando Kim Molina faz coexistirem no mesmo corpo a irritação aristocrática da advogada e os gestos automáticos da mulher cuja rotina ela tomou de empréstimo. A atriz não muda Lui de uma hora para outra. Ela altera o olhar, amansa a postura, demora alguns segundos a mais antes de responder e deixa que a nova experiência avance por pequenas rachaduras.

O problema é que “Um Pesadelo Maravilhoso” sabe desde cedo aonde deseja conduzir sua protagonista e, ao longo de duas horas, repete algumas lições até que o espectador já tenha entendido tudo. Lui passa a usar a língua afiada e o conhecimento jurídico para enfrentar uma vizinha presunçosa, defender a família e ajudar Julian diante de humilhações no trabalho. Aquele talento que servia a clientes ricos começa a produzir resultados concretos na casa dos Alcantara, e o roteiro tem inteligência suficiente para não fazer dela uma santa improvisada. A arrogância continua ali, agora empregada contra pessoas que sempre contaram com a resignação dos pobres. Algumas transições bruscas e o gosto por músicas que anunciam a emoção prejudicam cenas que Kim Molina poderia sustentar sozinha, fraqueza perceptível sempre que Delos Reyes abandona uma situação doméstica promissora para apressar a próxima etapa da conversão moral de Lui. O filme conserva, ainda assim, uma observação incômoda sobre a justiça. Conhecer a lei vale pouco quando apenas os endinheirados podem pagar por quem sabe manejá-la.

O casal que sustenta a fantasia doméstica

Jerald Napoles demora a fazer Julian escapar do molde do marido simples e bonachão, alguém destinado a ensinar à mulher poderosa as virtudes da pobreza. Ele cresce quando o personagem deixa de funcionar como instrumento pedagógico e aparece como homem cansado, tentando manter os filhos protegidos sem saber por que a esposa, de repente, olha para ele como se fosse um desconhecido. A afinidade entre Napoles e Molina encontra sua melhor expressão longe dos gracejos matrimoniais, nas cenas em que Lui percebe que aquela família provisória tem uma história anterior a sua chegada e uma dor que continuará depois de sua partida. Althea Ruedas confere a Jaja uma vulnerabilidade bem guardada, especialmente quando as ambições artísticas da garota deixam de parecer mero capricho, enquanto Achilles Wenceslao faz de Justin a presença mais espontânea da casa, sem a afetação costumeira dos meninos precoces de comédias familiares.

Delos Reyes carrega no melodrama à medida que o prazo celestial se aproxima, e certas revelações parecem calculadas para arrancar lágrimas de quem ainda resistia. Kim Molina impede que esse mecanismo fique exposto demais. Sua Lui chega ao fim sem perder por completo a ferocidade que a fizera sobreviver órfã, pobre e apavorada com a possibilidade de depender de alguém. O mês como Mary Jane não apaga essa mulher; obriga-a a descobrir o preço que outros pagavam para que sua existência permanecesse impecável. “Um Pesadelo Maravilhoso” é previsível, sentimental e longo, falhas que quase o fazem naufragar no território das parábolas edificantes. Salva-se porque, na hora de devolver a advogada a sua vida, deixa sobre a mesa uma família que não pode ser arquivada como simples erro burocrático. O céu pode corrigir papéis. Lui terá de responder pelo que aprendeu aqui embaixo.


Filme: Um Pesadelo Maravilhoso
Diretor: RC Delos Reyes
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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