Em “Anjos da Lei 2”, comédia de ação lançada em 2014, os policiais Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum) deixam a escola para trás e entram disfarçados em uma faculdade, onde precisam investigar a circulação de uma nova droga e, de quebra, descobrir se a parceria deles ainda aguenta outra missão absurda.
Depois de sobreviverem ao disfarce no ensino médio, Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum) recebem uma nova tarefa da polícia. A ordem vem do Capitão Dickson (Ice Cube), chefe sempre à beira de perder a paciência com a dupla. Agora, em “Anjos da Lei 2”, dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, os dois precisam se infiltrar em uma faculdade para descobrir quem está distribuindo uma droga entre os estudantes.
A premissa já nasce com uma piada embutida. O filme sabe que está repetindo a fórmula do anterior, mas não finge o contrário. Schmidt e Jenko mudam de endereço, de ambiente e de figurino, mas continuam sendo dois policiais adultos tentando parecer jovens, sociáveis e minimamente convincentes. A faculdade vira um novo campo de investigação, com festas, alojamentos, fraternidades, aulas, atletas e estudantes que parecem saber muito mais sobre o campus do que qualquer agente infiltrado.
A missão exige que eles conquistem a confiança dos alunos sem chamar atenção. O problema é que discrição nunca foi a maior qualidade dos dois. Jenko se adapta com facilidade ao universo esportivo e se aproxima do time de futebol americano. Schmidt, por outro lado, tenta circular entre jovens ligados às artes e à vida mais alternativa do campus. Cada um encontra um caminho possível para obter pistas, mas esses caminhos começam a separá-los.
Jenko ganha espaço no time
Jenko se encaixa no ambiente universitário com uma naturalidade quase irritante para Schmidt. Alto, atlético e sociável, ele logo ganha espaço entre os jogadores e passa a conviver com gente que pode ter acesso à droga investigada. Para a missão, isso é útil. Para a amizade, nem tanto. A afinidade dele com o grupo dos atletas cria uma distância incômoda, porque Schmidt percebe que o parceiro talvez esteja mais confortável ali do que na própria dupla.
Channing Tatum aproveita bem essa inversão. Jenko, que poderia ser apenas o policial bonito e desajeitado, vira alguém dividido entre a lealdade ao parceiro e a sensação de pertencer a um lugar novo. O filme tira graça dessa descoberta sem transformar o personagem em caricatura vazia. Ele continua ingênuo em vários momentos, mas também passa a ter mais poder dentro da investigação, já que sua entrada no círculo dos atletas abre portas que Schmidt dificilmente conseguiria abrir sozinho.
Schmidt reage do pior jeito possível, o que rende boa parte da comédia. Jonah Hill faz do personagem um homem inseguro, impulsivo e cheio de pequenas neuroses. Ele tenta compensar a distância do parceiro se aproximando de outra turma, mas leva junto sua ansiedade, sua carência e sua tendência a transformar qualquer mudança em drama pessoal. A graça surge porque Schmidt quer agir como policial experiente, mas muitas vezes parece um calouro desesperado para ser aceito.
A amizade entra em crise
Enquanto a investigação avança, a relação entre Schmidt e Jenko fica mais instável. A dupla precisa descobrir a origem da droga, identificar suspeitos e se manter no disfarce, mas o caso passa a dividir espaço com uma crise quase conjugal. Os dois discutem, se afastam, fazem alianças diferentes e começam a duvidar da parceria que os levou até ali. A piada funciona porque o roteiro trata a amizade deles com a seriedade exagerada de um romance em apuros.
Essa escolha dá ao filme uma camada divertida. “Anjos da Lei 2” não se limita a repetir perseguições, festas e confusões policiais. A ação continua presente, com investigação, risco e trapalhadas físicas, mas o centro da história está na tentativa de Schmidt e Jenko de continuar trabalhando juntos quando a faculdade oferece a cada um uma identidade diferente. Jenko se sente valorizado no esporte. Schmidt busca reconhecimento em outro grupo. A missão continua sendo a mesma, mas os dois já não olham para ela do mesmo lugar.
Ice Cube aparece como um ótimo contrapeso. O Capitão Dickson não tem paciência para sentimentalismo, desculpas ou incompetência. Suas broncas funcionam porque lembram aos protagonistas que existe uma investigação em curso, uma droga circulando e uma polícia cobrando resultado. Ele é o adulto da sala, ainda que sua irritação seja tão barulhenta que às vezes pareça outra forma de caos.
A comédia nasce do disfarce
Phil Lord e Christopher Miller apostam em uma comédia que se alimenta da própria repetição. O filme brinca com continuações, orçamentos maiores e fórmulas conhecidas, mas faz isso dentro da ação, sem parar a história para explicar a piada. Schmidt e Jenko seguem pistas, entram em festas, erram abordagens, tentam parecer jovens e descobrem que a faculdade talvez seja um lugar ainda mais difícil de decifrar do que o colégio.
A direção usa o ritmo acelerado para manter a investigação em movimento. As cenas de ação aparecem misturadas ao absurdo dos disfarces e às falhas de comunicação entre os parceiros. Quando uma pista surge, ela costuma vir acompanhada de constrangimento. Quando uma conversa parece útil, alguém exagera na atuação. Quando a dupla chega perto de organizar o caso, uma questão pessoal atravessa o caminho. O resultado é uma comédia policial que ri dos personagens, mas também permite que eles tenham afeto um pelo outro.
O grande acerto está no equilíbrio entre besteira e precisão. O roteiro sabe que Schmidt e Jenko são ridículos, mas não os trata como idiotas descartáveis. Há uma amizade real ali, sustentada por ciúme, dependência, lealdade e muitas decisões ruins. O espectador ri porque reconhece o exagero, mas também porque a dinâmica entre eles tem alguma verdade. Todo mundo já viu uma parceria mudar quando um dos lados descobre um mundo novo e o outro fica tentando fingir que está tudo bem.
Uma continuação que assume a bagunça
“Anjos da Lei 2” abraça sua própria falta de solenidade. Ele entrega ação, investigação, piadas físicas, ironia sobre Hollywood e uma dupla central com química suficiente para sustentar a bagunça. Jonah Hill e Channing Tatum funcionam porque jogam em registros diferentes. Schmidt é ansiedade em forma de agente infiltrado. Jenko é confiança atlética com lampejos de ingenuidade. Juntos, os dois transformam a missão em uma confusão organizada por gente que deveria saber melhor.
Sem revelar as viradas da investigação, a graça está em acompanhar como a dupla tenta resolver o caso enquanto lida com uma pergunta incômoda. Eles ainda são parceiros ou apenas repetem uma fórmula que deu certo uma vez? A faculdade oferece pistas, suspeitos e distrações, mas também obriga Schmidt e Jenko a encarar o desgaste da própria relação. Entre uma festa, uma bronca de Dickson e uma pista mal administrada, “Anjos da Lei 2” encontra energia naquilo que seus personagens fazem de pior. Crescer, para eles, dá trabalho. Investigar também.

