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Em “Bronx”, policial francês lançado em 2020, Olivier Marchal leva o espectador a Marselha para acompanhar uma investigação que nasce de uma chacina e logo coloca policiais, criminosos e chefes de corporação em uma disputa perigosa por poder, sobrevivência e controle.

Marselha, no sul da França, aparece em “Bronx” como uma cidade onde a violência deixou de pedir licença faz tempo. O filme de Olivier Marchal começa depois de uma chacina em um bar, atribuída a homens ligados ao clã Orsoni, e coloca a brigada antigangue no centro de uma investigação que já nasce contaminada por disputas internas. Richard Vronski (Lannick Gautry), policial experiente e pouco interessado em boas maneiras, assume o caso enquanto tenta manter sua equipe unida diante de criminosos armados, rivais dentro da própria polícia e chefes dispostos a cobrar resultado antes que a imprensa, a rua e os gabinetes cobrem deles.

Vronski é o tipo de policial que conhece demais a sujeira da cidade para acreditar em expediente limpo. Ele trabalha ao lado de Willy Kapellian (Stanislas Merhar) e Max Beaumont (Kaaris), colegas que participam das operações com a mesma mistura de lealdade, cansaço e brutalidade. O trio entra em campo para rastrear os responsáveis pelo massacre, mas a investigação logo esbarra no BRB, setor comandado por Mario Costa (Moussa Maaskri), um major disposto a disputar influência, informação e autoridade. Em vez de uma polícia funcionando em bloco, “Bronx” apresenta corporações que se vigiam quase tanto quanto vigiam os criminosos.

Esse ambiente é familiar ao cinema de Marchal, que foi policial antes de virar cineasta e costuma tratar a lei como uma área cheia de rachaduras. Aqui, a experiência não vira pose. Ela aparece no modo como os agentes conversam, se olham, escondem dados e protegem colegas mesmo quando sabem que isso pode custar caro. O filme não precisa transformar Vronski em santo para torná-lo interessante. Ao contrário, sua força vem do desconforto de acompanhar um homem eficiente, mas cercado de escolhas ruins, fazendo contas morais em meio a sirenes, armas e ordens mal digeridas.

A chefia chega tarde demais

A entrada de Ange Leonetti (Jean Reno), novo comissário enviado para colocar ordem na polícia local, muda o peso da investigação. Ele chega a Marselha com autoridade formal e pouca paciência para os vícios da brigada. Seu objetivo é retomar o controle sobre uma cidade tratada quase como território perdido, mas o cargo não lhe entrega confiança automática. Leonetti precisa lidar com agentes que já criaram seus próprios pactos, chefes intermediários com ambições particulares e criminosos que conhecem o terreno melhor do que qualquer relatório.

Jean Reno dá a Leonetti uma presença contida, marcada mais por comando do que por afetação. Ele não precisa levantar muito a voz para deixar evidente que alguém vai pagar a conta. O problema é que, em “Bronx”, quase todo mundo já deve alguma coisa a alguém. Vronski tenta preservar seus homens. Costa tenta ganhar espaço. A chefia tenta impor ordem. Os criminosos tentam aproveitar cada fissura. O resultado é uma investigação que avança por pressão, mas sempre deixa alguém em posição vulnerável.

O roteiro também aproxima o drama policial da vida pessoal dos personagens sem transformar a trama em novela pesada. Manon Leonetti (Barbara Opsomer), filha do comissário, acaba ligada a essa rede de riscos, o que torna a situação ainda mais delicada para a cúpula da polícia. Zoé Vronski (Erika Sainte), esposa de Richard, também ajuda a mostrar que o perigo não fica restrito às operações. Quando um policial leva para casa o peso de cada escolha, a família passa a ocupar um lugar incômodo na equação.

Entre lealdade e autopreservação

O ponto mais interessante de “Bronx” está na forma como o filme trata a lealdade. Vronski protege seus colegas porque sabe que, sem eles, a rua engole qualquer policial sozinho. Essa proteção, porém, cobra juros. Willy Kapellian é um homem marcado por fragilidades e decisões questionáveis, e sua relação com Vronski cria uma camada importante de tensão. Stanislas Merhar interpreta Willy com ar abatido, quase sempre parecendo carregar uma dívida que não cabe no bolso. Ele não precisa explicar demais para sugerir que há algo fora do lugar.

Max Beaumont, vivido por Kaaris, ocupa outro espaço dentro da equipe. Sua presença é física, seca, menos verbal. Ele funciona como alguém preparado para entrar onde a conversa já perdeu serventia. Esse contraste entre os integrantes da brigada ajuda Marchal a manter o filme em movimento. Cada personagem oferece uma resposta diferente ao mesmo ambiente. Vronski calcula. Willy vacila. Max age. Costa provoca. Leonetti cobra. Ninguém parece confortável, e essa é uma das graças sombrias do filme.

Há também uma ironia discreta, quase amarga, na forma como “Bronx” observa seus policiais. Eles se comportam como homens capazes de enfrentar uma quadrilha armada, mas tropeçam quando precisam lidar com hierarquia, vaidade e culpa. É o tipo de humor seco que não vem de piadas, e sim da constatação de que uma reunião de chefes pode ser tão ameaçadora quanto uma emboscada. Em Marchal, a burocracia não salva ninguém. Às vezes, apenas oferece uma sala mais iluminada para o desastre entrar.

A investigação vira armadilha

A presença de uma testemunha-chave aumenta a tensão do caso e desloca a investigação para um terreno ainda mais perigoso. A partir desse ponto, a pergunta deixa de ser apenas quem matou no bar. O filme passa a observar quem controla a informação, quem pode falar, quem precisa calar e quem ganha com o vazamento de cada detalhe. Marchal trabalha bem essa sensação de cerco. A câmera acompanha deslocamentos, corredores, carros e encontros tensos sem transformar a ação em enfeite vazio. O movimento interessa porque alguém pode perder proteção a cada nova ordem.

Mesmo quando aposta em tiroteios e perseguições, “Bronx” continua mais forte nos bastidores da violência. O bar atacado, a delegacia, os gabinetes e as ruas de Marselha formam um circuito de pressão. Não há refúgio estável. Quando Vronski avança, Costa se aproxima. Quando Leonetti cobra, a equipe se fecha. Quando uma prova surge, alguém tenta controlá-la. O filme cria suspense não apenas pela ameaça dos criminosos, mas pela dúvida sobre até onde a própria polícia pode ir antes de virar parte do problema que promete combater.

Essa opção dá ao longa um sabor mais áspero do que glamouroso. “Bronx” não vende a criminalidade como espetáculo elegante, nem trata seus policiais como justiceiros de cartaz. Há ação, há violência e há uma dose generosa de brutalidade, mas a narrativa se sustenta melhor quando expõe o desgaste de quem atua nesse meio. Vronski não é um herói luminoso. É um homem competente, perigoso e cercado por escolhas que fecham portas enquanto abrem outras piores.

Um policial sem inocentes

Olivier Marchal faz de “Bronx” um filme de ação criminal duro, por vezes carregado demais na atmosfera sombria, mas eficiente ao mostrar uma polícia atravessada por rivalidade, medo e cumplicidade. O elenco ajuda a dar peso a esse universo. Lannick Gautry segura Vronski com frieza e tensão interna. Jean Reno empresta autoridade a Leonetti. Moussa Maaskri faz de Costa uma figura incômoda, dessas que parecem estar sempre um passo perto demais. Kaaris e Stanislas Merhar completam a brigada com presenças bem distintas.

“Bronx” mantém o leitor da cena, ou melhor, o espectador, perto das decisões concretas dos personagens. Quem protege quem. Quem entrega informação. Quem se cala. Quem usa o cargo para pressionar. Quem atravessa a fronteira da lei porque acredita não ter mais alternativa. Sem entregar suas viradas principais, o filme cresce na percepção de que cada escolha de Vronski cobra um preço dentro e fora da polícia. Em Marselha, ninguém precisa fazer discurso para se comprometer. Basta atender o telefone, entrar no carro e seguir para a próxima ordem.


Filme: Bronx
Diretor: Olivier Marchal
Ano: 2020
Gênero: Ação/Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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