No mapa do condado de Yoknapatawpha, aquele pedaço inventado do Mississippi em que William Faulkner enfiou famílias arruinadas, negros perseguidos, patriarcas em decomposição, mulheres silenciadas, bastardos, bêbados e mortos que se recusam a ficar mortos, havia uma assinatura brincalhona e sinistra: “William Faulkner, proprietário único”. A piada é boa, convém lê-la com a desconfiança que o próprio Faulkner ensinou. Ninguém é proprietário de uma terra impunemente. Muito menos de uma terra feita de culpa.
A escritura de uma terra que apodrece
Nascido William Cuthbert Falkner em 1897, em New Albany, Mississippi, e morto em 6 de julho de 1962, já Nobel de Literatura e monumento oficial da prosa americana, Faulkner passou a vida remexendo o chão de casa com uma pá enferrujada. Encontrou ali a Guerra Civil, a escravidão, a derrota confederada, a segregação, a falsa honra dos sobrenomes, a pobreza, o ressentimento, a violência sexual, o incesto simbólico entre família e propriedade. Tirou disso uma obra desigual, com páginas opacas, rompantes de trovão bíblico e uma força ainda capaz de reduzir boa parte do realismo bem-comportado a cenário de papelão.
Antes de ser lido, Faulkner quase sempre é classificado: escritor difícil, modernista, criador de Yoknapatawpha, autor de “O Som e a Fúria”, “Enquanto Agonizo”, “Luz em Agosto” e “Absalão, Absalão!”. A aspereza vem do material. O mundo que ele narrava — ou que o escolheu, se aceitarmos por um minuto o mito romântico — não cabia numa cronologia reta, numa narração honesta e obediente. Como contar de forma simples uma sociedade que passou gerações mentindo sobre si mesma?
Caddy, Addie, Christmas: os vivos falam pelos mortos
“O Som e a Fúria”, publicado em 1929, é provavelmente sua obra mais famosa e a porta errada pela qual muitos leitores entram em Faulkner para sair correndo dez páginas depois. O romance acompanha a ruína da família Compson a partir de quatro blocos narrativos, começando pela consciência estilhaçada de Benjy, homem adulto com deficiência intelectual que percebe o mundo por cheiros, sons e sensações. O leitor cai ali sem corrimão. Caddy, a irmã que concentra desejo, culpa e idealização, está em toda parte e em parte nenhuma. Todos falam dela, todos a usam para contar a própria queda; sua voz não ocupa o centro. Expulsa da sala, Caddy continua mandando na casa.
A essa experiência de desorientação se segue, no ano seguinte, “Enquanto Agonizo”, talvez o Faulkner mais cruelmente legível. A família Bundren atravessa o Mississippi levando o cadáver de Addie para ser enterrado em Jefferson. A história tem qualquer coisa de farsa bíblica: um caixão malcheiroso, filhos em estados variados de devoção, estupidez e desamparo, um marido miserável, uma travessia absurda, cômica pelo avesso, atravessada por uma dor que ninguém ali sabe nomear. Quinze vozes se alternam. Cada uma entende a morte à sua maneira. O defunto viaja menos dentro do caixão do que dentro da cabeça dos vivos.
Com “Luz em Agosto”, de 1932, Faulkner alarga o território da ferida. Lena Grove aparece grávida, caminhando com teimosia luminosa atrás do homem que a abandonou; Joe Christmas vem de origem incerta, condenado por uma sociedade para a qual a suspeita racial já basta como sentença. Christmas talvez seja a América apanhada no próprio exame de sangue. O livro tem trechos de grande beleza e passagens em que a simbologia pesa no lombo do leitor, mas não se fecha numa charada. Lena anda, Christmas sangra, e o romance continua.
“Absalão, Absalão!”, de 1936, é outra coisa. É um casarão narrativo com quartos fechados, escadas falsas, corredores que voltam ao mesmo lugar. Thomas Sutpen chega ao Mississippi com o projeto de fundar uma dinastia, o sonho americano em sua versão de latifúndio, escravidão e delírio patriarcal. Sua história é contada por gente que ouviu dizer, por gente que odeia, por gente nascida tarde demais e mesmo assim intoxicada pelo acontecido. Quentin Compson, que já vinha de “O Som e a Fúria” carregando a doença moral de sua família, reaparece em Harvard, longe do Mississippi apenas no mapa. É um romance extenuante. Em certos trechos, a frase tenta carregar sozinha a casa, a guerra, o pecado, os cavalos, os mortos e a Bíblia inteira.
O passado ficou atrás da porta, apodrecendo
Há ironia bastante em que esse escritor tão associado ao fracasso da comunicação tenha virado autoridade pública depois do Nobel de 1949, entregue em 1950. O discurso de Estocolmo, com sua defesa do “coração humano em conflito consigo mesmo”, é solene, limpo demais para quem já havia dito coisa mais dura nos romances. Faulkner já havia posto esse coração em gente esmagada por raça, dinheiro, religião e memória. Em Estocolmo, vestiu a tragédia de fraque.
A memória, em Faulkner, não salva ninguém. Proust ainda podia acreditar, com toda a sua elegância de ourives asmático, que lembrar fosse uma forma de recuperar o tempo perdido. Em Faulkner, o tempo perdido nunca se perdeu; ficou ali, atrás da porta, apodrecendo. Seus personagens lembram mal, lembram demais, lembram o que não viveram, inventam o que não suportam saber.
Daí a importância de Yoknapatawpha. Chamar o condado de “cenário” é erro parecido com chamar Capitu de coadjuvante. Jefferson, a cidade que organiza boa parte desse mundo imaginário, é um mecanismo de produção de versões. As famílias Compson, Sartoris, Sutpen, McCaslin e Snopes não ocupam simplesmente a paisagem; são modos de adoecê-la. A velha aristocracia branca vive de uma grandeza que já nasceu podre, os pobres brancos orbitam entre a humilhação e a esperteza, os negros sustentam moralmente um universo que os oprime e raramente lhes concede interioridade plena. Faulkner enxerga a engrenagem, mas nem sempre entra onde ela mais dói.
A obra viu mais longe que o cidadão
A raça atravessa Faulkner como atravessava o Mississippi, por baixo da casa, por dentro da lei, no sangue que os brancos fingiam saber medir. Ele escreveu alguns dos ataques mais fortes da literatura americana ao racismo do Sul, e o homem público que falou sobre direitos civis nos anos 1950 foi, muitas vezes, decepcionante. Paternalista demais, sulista demais, no pior sentido do adjetivo. A obra viu mais longe que o cidadão, o que não absolve o cidadão nem diminui a obra. Em “Luz em Agosto”, “Intruder in the Dust” e “Go Down, Moses”, o racismo aparece não como opinião ruim de personagens ruins, e sim como estrutura de mundo. Depois de Toni Morrison, esse ponto ficou impossível de contornar. Dilsey e Lucas Beauchamp, personagens que carregam mais juízo que os brancos à sua volta, são vistos de fora com frequência maior do que seria desejável. Morrison não veio ao mundo para corrigir Faulkner; depois dela, ninguém lê Faulkner do mesmo jeito.
A mitologia do próprio Faulkner merece desconfiança. O jovem que se alistou na aviação canadense em 1918 e voltou cultivando histórias de guerra maiores que a guerra vivida parece personagem de si mesmo. O funcionário dos correios, o roteirista deslocado em Hollywood, o proprietário de Rowan Oak, o homem de uísque e silêncio, o Nobel que dizia preferir a obra à pessoa, tudo isso compõe uma figura irresistível e perigosa. Quando a lenda cresce demais, acaba sentando no colo do livro. Faulkner não precisa ser lido como santo bêbado, gênio rural ou esfinge do Mississippi. No intervalo de febre entre 1929 e 1936, abriu um romance atrás do outro e encontrou, para cada culpa, uma maneira de fazê-la falar.
No Brasil, ele sempre foi mais respeitado que popular. A literatura brasileira, mesmo depois de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, costuma olhar de lado para certos monumentos estrangeiros que chegam com fama de prova iniciática. Faulkner apareceu por aqui em ondas, com traduções esparsas, edições sumidas, retomadas de prestígio, relançamentos pela Cosac Naify e depois pela Companhia das Letras. É citado em aulas, teses, conversas sobre modernismo e aproximações com Graciliano Ramos, Lúcio Cardoso, Rosa. Com Graciliano, a conversa rende até onde pode render. Os dois escreveram a partir de regiões tratadas como margem por seus países e viram a promessa de progresso passar de botas sujas por cima de gente miúda. Graciliano escreve no osso; Faulkner deixa a frase crescer como uma árvore doente, cheia de galhos, cipós, ninhos e ossos pendurados.
Com Rosa, a conversa é outra. Os dois inventaram territórios de linguagem, mas Rosa ilumina o sertão por dentro, com religiosidade torta, humor e invenção lexical. Faulkner escreve num quarto fechado, onde a poeira dança no raio de luz e alguém acabou de mentir sobre um morto. O parentesco acaba antes que a comparação fique confortável.
A força de Faulkner cobra juros
A frase longa é a bênção e a praga de Faulkner. Nos grandes livros, ela carrega a culpa, a casa, a terra, o sangue; nos menores, carrega apenas o próprio peso. O gosto pelo bíblico e pelo trágico nem sempre lhe faz bem. Há livros em que Faulkner vira faulkneriano demais, destino comum aos autores que inventam uma temperatura própria e depois se veem obrigados a respirar nela para sempre. “A Fable”, premiado e pouco amado, é exemplo disso: cheio de ambição, boa vontade e chumbo nas pernas. O Faulkner que fica é o sujeito que põe uma família pobre carregando um caixão por estradas enlameadas, ou deixa um rapaz de Harvard se perder dentro de um relógio quebrado.
Sim, Faulkner pode ser obscuro. Sim, há passagens em que o leitor se sente tratado como intruso numa reunião de fantasmas. Vozes se sobrepõem, datas escorregam, parentescos viram armadilhas, e ninguém parece disposto a acender a luz para quem acabou de chegar. Nos grandes livros, a confusão está dentro da história. A verdade chega tarde, incompleta, contaminada por quem a conta.
Yoknapatawpha pertenceu pouco a Faulkner. O “proprietário único” morreu em 1962, e a terra ficou sem dono. Quem entra ali atravessa barro, sangue velho, mentira de família, orgulho nacional em decomposição. O leitor não volta mais limpo; volta menos disposto a acreditar em histórias bem arrumadas sobre famílias, países e passados gloriosos.

