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Não importa a fase aziaga, o longo jejum em Copas: o Brasil despachar o Japão nem é assim algo improvável. Mas os tais deuses do futebol parecem estar do lado do Sul Global neste torneio que, ressalte-se, ocorre majoritariamente nos Estados Unidos de Trump. Não é que o Paraguai eliminou a Alemanha? E o Marrocos antecipou as férias dos holandeses…

Escrevi o parágrafo acima quando a República Democrática do Congo vencia a Inglaterra por 1 a 0. Fui pegar um copo d’água, os ingleses empataram. Computador no colo aqui na sala, prossigo um olho no texto, outro na TV — é Copa, é o espírito.


Minha mais antiga lembrança relacionada ao maior e mais importante evento esportivo do planeta, que é a Copa do Mundo: um álbum de figurinhas que nem foi bem um álbum na verdade. Era um pôster, de plástico, em que havia um mapa-múndi com as 24 seleções que disputaram aquela competição em 1990.

Dia sim, dia não, comprava um pacote de salgadinhos lá na quitanda do seu Osmar, do outro lado da rua da minha casa. Dentro vinha uma figurinha que era sempre um personagem caricato, com roupas estereotipadas, e a bandeira do referido país. O ato de colar a figurinha, com as mãos sujas do sal oriundo dos chips, permeia a memória afetiva com a mais gostosa sinestesia.

Eu ainda não tinha nem completado 6 anos de idade.


Gol da Inglaterra.

Republicanos democráticos congoleses daqui a pouco devem estar arrumando as malas para irem embora. Uma pena.


Naquele álbum-pôster, havia uma figurinha que era a minha favorita, e nunca soube explicar o motivo. Na realidade, aquela figurinha ficou grudada não só no álbum-pôster, mas na principal gaveta que temos na memória — uma gaveta bagunçada de onde saem, bate-pronto, incontinenti e surpreendentemente, sem explicação nem motivo, as lembranças marcantes e inusitadas.

É a figurinha da Iugoslávia.

Aquela estrela vermelha no centro da bandeira me hipnotizava. Mas eu, que poucas vezes havia saído de Taquarituba, que ainda tinha os pés fincados na terra roxa e a âncora lançada nas profundezas da Rua Benjamin Constant, não nutria — porque era incapaz de tal devaneio — o desejo de cruzar o Atlântico para um dia talvez conhecer o solo iugoslavo.


Ćevapčići, fui comer pela primeira vez, ao menos ciente deste nome que então me era difícil de ser pronunciado, na Copa de 2014, aquela dos 7 a 1, aquela que ocorreu no Brasil. A trabalho, porque jornalista, fui assistir ao jogo de estreia do escrete brasileiro junto a croatas e descendentes em São Paulo. Serviram a iguaria — comum nos churrascos de todos os países outrora Iugoslávia, prato nacional da Bósnia e Herzegovina.

A esta altura eu já havia viajado o bastante pelo mundo, mas nunca havia estado na Iugoslávia, ou no que restou dela.

A esta altura eu já sabia que mais importante do que colecionar países pelo mundo é ter amigos na maior parte do mundo, como se a humanidade fosse mesmo uma utopia.

Fiz uma amiga croata.


A Iugoslávia, nome que em português seria algo como “terra dos eslavos do sul”, foi um país que existiu entre 1918 e 1992. A partir de 1945, se chamou República Popular Federal da Iugoslávia e se tornou um exemplo de socialismo não-alinhado à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

O período mais áureo — para o bem e para o mal, porque a história não é uma linha reta tampouco feita de páginas sem rasuras — foi sob o comando do ditador Josip Broz Tito (1892-1980), que governou a Iugoslávia de 1944 até sua morte.


Aqui na Eslovênia, o nome de Tito hoje estampa rótulos de cerveja, com direito a uma estilizada reprodução da estrela vermelha e à grafia destacada da palavra comunista, escrita em esloveno.

O capitalismo venceu.


Sim. É Copa do Mundo. O menino que comprava chips na venda do seu Osmar e colou a figurinha da Iugoslávia com as mãos sujas de sal agora come ćevapčići uma vez por semana, sempre reclamando que tem saudades de picanha.

No meu coração parece que a Eslovênia é o que restou da Iugoslávia, aquela estrela vermelha cujas cinco extremidades apontavam para meus dedos grudentos. Mas daqui a pouco tem Bósnia e Herzegovina contra os Estados Unidos e, depois de amanhã, o xadrezinho estiloso do time croata vai brilhar contra Portugal, que me desculpem os fãs do Cristiano Ronaldo.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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