Discover

Adoro futebol. Chuto bola desde que aprendi a andar, após penar durante meses na famigerada fase oral do desenvolvimento infantil. Tornei-me um adulto subdesenvolvido e, hoje, só meto na boca aquilo que é absolutamente indispensável. Pudim de leite condensado, por exemplo. Como bom brasileiro, estou acompanhando a Copa do Mundo de Futebol. Não que eu seja um trouxa declarado. Não, isso não. Simplesmente, amo esse esporte e não vou permitir que a FIFA e as casas de apostas privem-me desse sentimento.

Nos últimos anos, entretanto, tenho curtido menos o futebol profissional, por uma série de fatores. O principal deles é que estou ficando velho e ranzinza. Em segundo plano: a corrupção nos bastidores do futebol, os altos preços dos ingressos cobrados nas arenas — que, antes, a gente chamava de estádios —, a escassez absurda de craques e as profundas mudanças táticas que tornaram o esporte mais truncado, mais defensivo, mais enfadonho, mais caro e mais distante do povão. Ver a bola entrando — não sejam maliciosos! — está mais difícil que aprovar a jornada de trabalho 5 por 2 no Congresso Nacional.

Aproveitando a onda da Copa do Mundo, escalei 11 situações no futebol contemporâneo que me deixam bolado. Gostaria de compartilhar essas impressões com vocês, estimados leitores.

O jogador tapa a boca com uma das mãos quando está falando. Tá aí a prova cabal da completa falência do futebol raiz. Falta personalidade aos atletas profissionais para assumir os seus atos e as suas palavras. Alguém poderá argumentar que eles agem veladamente para evitar a leitura labial, as punições das confederações e os spoilers táticos que possam ser identificados pelos adversários. Para mim, tudo balela. Penso que lhes falta atitude e coragem.

Os zagueiros recuam a bola para o goleiro, incontáveis vezes, durante a partida, obrigando-o a jogar com os pés. Todo mundo sabe que jogador vira goleiro porque não joga bem com os pés. Nas peladas das antigas, colocavam o pior jogador da turma para catar no gol, tomar boladas e ficar esperto. Goleiro bom é goleiro que defende a meta, que cata bem e, de quebra, opera milagres. Tomar gol de uma bola roubada do goleiro é o fim da picada. É ou não é?

O jogador deita-se atrás da barreira durante a cobrança de uma falta. Não é que eu não goste desse expediente. Eu odeio. Fico com urticária quando um indivíduo se deita no gramado, atrás da barreira, supostamente, para proteger um chute rasteiro desferido pelo cobrador. Essa palhaçada começou depois que o Ronaldinho Gaúcho, o Bruxo, um dos mais habilidosos jogadores da história, enganou a todos ao meter a bola rasteirinha, sob a barreira. Foi um lance genial, um feito incrível que nenhum outro jogador vai repetir, por mera falta de capacidade. Portanto, não vale a pena se humilhar, deitando no gramado que nem besta, provocando raiva não somente em mim, mas também no pessoal da lavanderia.

O impedimento centimétrico. O VAR surgiu para evitar os erros crassos da arbitragem. Até aí, tudo bem. Só que o VAR está exagerando. Considerando-se que bola na rede é o objetivo principal do futebol, anular um gol porque o atacante estava um bico de chuteira, um beicinho de pulga à frente do último defensor é revoltante. Alguém precisa enquadrar o VAR, antes que ele nos mate de raiva.

Dois jogadores ficam juntos para a cobrança do escanteio. Na autoridade de um jogador de peladas, reservo-me o direito de afirmar que essa situação é mais patética do que jogador profissional deitado atrás da barreira. O fato somente se justificaria se um jogador tocasse a bola para o outro, coisa que raramente acontece, iniciando uma inusitada jogada pelas beiradas. Portanto, não parece uma tática inteligente, se considerarmos que esse atleta “acessório” poderia ocupar a grande área, juntamente com os demais companheiros, a fim de tentar o gol. Seria pedir muito, cambada?

O jogador que vai bater o escanteio sinaliza uma jogada ensaiada, levantando um ou dois braços. Acho que esses caras estão ensaiando mal pra caramba. Apesar das gesticulações repetitivas, nada de relevante acontece; o gol, por exemplo. Parece mais uma mise-en-scène, uma enganação para confundir o adversário e para encher o saco de torcedores afetados como eu.

O uso de uniformes com cores diferentes das tradicionais. Considero um sacrilégio esse tipo de situação. Antigamente, bem antigamente, os times e as seleções possuíam dois modelos de uniformes, de cores distintas, um oficial e outro reserva, a serem utilizados conforme a necessidade, o mando de campo e as cores do time adversário. O futebol está se transformando num negócio tão milionário que nem as cores tradicionais do clube os sacripantas estão respeitando.

A simulação de agressões no rosto. Acontece muito. Tá parecendo Hollywood. Os jogadores estão passando dos limites ao se estatelar no gramado e rolar de um lado para o outro, como se estivessem nas últimas, tudo isso por causa de um leve raspão no rosto. Haja paciência com esses pernas-de-pau que simulam — e simulam mal — agressões. Jogar bola, que é bom, nada.

A frescura. Sim. A frescura. O futebol mudou muito. Nunca se viu tanta vaidade dentro das quatro linhas. Um amontoado de pseudo-craques mais preocupados com a autoimagem do que com o jogo. Penteados bizarros. Dancinhas bobas. Tatuagens até na alma. Chuteiras de cores aberrantes. De minha parte, digo e reafirmo: eu não confio em centroavantes que fazem as sobrancelhas.

O agarra-agarra dentro da grande área. É inadmissível que se perca precioso tempo de jogo afastando os marmanjos que se agarram dentro da área, durante a cobrança dos escanteios. Não compreendo por que o árbitro insiste em adverti-los, levando-se em conta que a regra é clara quanto ao cometimento de faltas dentro da grande área. Basta deixar a bola rolar e marcar o pênalti. Haja paciência, viu.

A falta de um Camisa 10. A escassez de craques no futebol parece um fenômeno mundial. Tenho alguns palpites que talvez expliquem. No caso do Brasil, creio que o futebol perdeu muito em qualidade depois que definharam a várzea, as peladinhas jogadas nos campinhos de terra, os campeonatos amadores nos bairros e a molecada chutando bola na rua todo santo dia; por outro lado, a meninada ficou ligada nas telas e as escolinhas de futebol passaram a ensiná-la a marcar o adversário e a destruir jogadas. Por que não ensinam esses guris a driblar e a meter gols?

Afirmar que estão matando o futebol pode até soar exagero, mas que tá ficando chato pra cacete, isso não tem como negar. Não me desculpem pelo desabafo. Escrevo o que eu quiser. Ninguém manda em mim. Vocês não são minha mãe. Sim. Estou pistola. Acontece que a bola caiu no quintal da vizinha e ela disse que não devolve nem a pau. É ou não é para ficar bolado?

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

Leia Também