É impossível não assistir a filmes como “Lutador de Rua” e não concordar com Thomas Hobbes (1588-1679). A Grande Depressão, sequência de bancarrotas causadas pelo excedente que as fábricas não conseguiam escoar; pela economia que corria solta, sem norma alguma; pelo crédito fácil a quem não tinha fundos; e pela praga do capital especulativo, veio com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 29 de outubro de 1929, e só acabou doze anos depois. Enquanto isso, cada um se vira como pode, tubarões e arraias-miúdas, em meio ao cenário de ruína e desespero que obriga todo mundo a valer-se dos expedientes mais melancólicos. Chaney, o personagem-título, vale-se de seus punhos nodosos para arrancar da vida o que nunca teve, e assim Walter Hill vai trazendo à superfície um dos mais complexos retratos da miséria humana, já em sua estreia como diretor. A vida para Chaney é mesmo solitária, pobre, sórdida, brutal e curta. E todos somos um pouco Chaney.
Filosofia na violência
Chaney é um homem sem família, sem amigos e sem passado indo do nada para lugar nenhum ao longo de toda a América, até chegar de trem a Nova Orleans no meio do inverno. Ele tem tudo de que precisa, e essa sua convicção é o norte do texto de Bryan Gindoff e Bruce Henstell, mais e mais palpável à medida que acercam-se dele as figuras nebulosas que encarnam o espírito daquele tempo, a começar por Speed, um empresário do baixo clero do boxe que agora defende algum aliciando ex-presidiários em pés-sujos, gente que aprendeu a sobreviver na marra. Nesse caso, é Chaney quem se senta à mesa de Speed e oferece seus serviços, certo de que virá a ser o melhor duelista do plantel, e não demora para que ganhe seu punhado de dólares e se estabeleça na cidade, no quarto encardido que fica-lhe tão bem. A despeito das semelhanças com joias do cânone literário dos Estados Unidos, como “Ratos e Homens” (1937), o romance obrigatório de John Steinbeck (1902-1968), Hill sabe exatamente fazer do longa que inaugura sua brilhante carreira uma peça original, brutal e sofisticada, crua e poética, movendo as cordas certas e amarrando-as a Charles Bronson, que apanha, bate e, bem a seu estilo, monopoliza as atenções. Bronson faz de Chaney um dos anti-heróis definitivos do cinema, levantando excelentes bolas para James Coburn (1928-2002), marca de um ator sensível — por mais que a cara de brucutu diga o contrário.

