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Lançado em 2005 e dirigido por Susan Stroman, “Os Produtores” leva para a Broadway uma fraude tão maluca quanto precisa. Max Bialystock, vivido por Nathan Lane, é um produtor teatral decadente, acostumado a viver das sobras de um prestígio que já não paga as contas. Seus espetáculos fracassam, seu nome perdeu força nos letreiros e sua rotina depende da boa vontade de senhoras ricas, que ainda enxergam nele algum charme perdido entre flores, promessas e visitas nada inocentes.

A mudança começa quando Leo Bloom, interpretado por Matthew Broderick, aparece em seu escritório para revisar a contabilidade. Leo é um contador tímido, ansioso e preso a uma vida burocrática que parece menor do que seus sonhos. Ao analisar os números de Max, ele percebe uma brecha perigosa. Um espetáculo fracassado pode render mais dinheiro do que um sucesso, desde que os investidores coloquem mais recursos do que a produção realmente precisa e ninguém receba lucro depois da estreia.

Max ouve aquilo como quem acaba de receber uma sentença de liberdade. Para ele, a ideia não parece crime, parece salvação com figurino. O plano é simples no papel e desastroso na prática. Os dois precisam levantar dinheiro, escolher a pior peça possível, contratar uma equipe incapaz de salvá-la e torcer para que tudo afunde na primeira apresentação. A graça de “Os Produtores” nasce dessa lógica torta, em que vencer significa perder em público.

Do escritório ao golpe

A relação entre Max e Leo sustenta boa parte da energia do filme. Nathan Lane interpreta Max com o vigor de um vendedor que se recusa a admitir falência. Ele fala alto, gesticula demais, ocupa os espaços com fome de palco e trata cada pessoa como uma possível fonte de dinheiro. Matthew Broderick faz o caminho oposto. Seu Leo é contido, assustado, quase infantil em alguns momentos, mas guarda um desejo real de escapar da mesa cinzenta e descobrir se ainda existe vida fora dos relatórios.

Essa diferença transforma a dupla em uma engrenagem cômica eficiente. Max empurra, Leo hesita, Max insiste, Leo entra em pânico, e o plano continua andando mesmo quando tudo sugere que seria melhor parar. O filme trabalha com esse contraste sem esconder sua origem teatral. As entradas são marcadas, as reações têm ritmo de palco e os números musicais preservam uma energia de espetáculo apresentado para uma plateia grande. Em alguns trechos, isso deixa a adaptação menos cinematográfica. Em outros, dá ao elenco o espaço que ele precisa para respirar.

O roteiro também se apoia em uma piada moral bastante afiada. Max e Leo não querem criar arte, nem mudar a Broadway, nem conquistar uma nova geração de espectadores. Eles querem fracassar com método. O problema é que até o fracasso exige competência, agenda, contrato, elenco e um mínimo de organização. Para dois homens tentando ganhar dinheiro com o pior espetáculo do ano, há trabalho demais envolvido.

A peça errada pelos motivos errados

A busca pela obra perfeita para dar errado leva Max e Leo a “Springtime for Hitler”, musical escrito por Franz Liebkind, personagem de Will Ferrell. Franz é um autor excêntrico, obcecado pelo Terceiro Reich e convencido de que sua peça merece respeito absoluto. A escolha é ofensiva o bastante para parecer uma garantia de desastre. Para Max e Leo, aquele texto tem tudo o que eles procuravam. Mau gosto, delírio, risco e uma chance mínima de aceitação.

Will Ferrell interpreta Franz em um registro exagerado, mas coerente com o espírito da história. Ele surge como alguém que transforma devoção absurda em exigência contratual. Max e Leo precisam lidar com suas manias porque dependem dos direitos da peça. A cada passo, o golpe fica menos confortável. O que começou como cálculo contábil passa a envolver autor, diretor, audições, ensaios e uma rede de pessoas que podem atrapalhar o plano ou, pior, fazê-lo dar certo.

A direção da peça dentro do filme fica com Roger De Bris, vivido por Gary Beach. Ele entra na trama como a aposta ideal para arruinar qualquer chance de prestígio. Vaidoso, teatral e cercado por uma atmosfera de camarim permanente, Roger parece mais interessado em brilhar do que em salvar o espetáculo. Ao seu lado, Carmen Ghia, interpretado por Roger Bart, reforça o tom farsesco das reuniões e dos bastidores. A produção cresce, mas Max e Leo perdem controle sobre o que colocaram em movimento.

Ulla muda a temperatura da farsa

A chegada de Ulla, interpretada por Uma Thurman, acrescenta outro tipo de confusão ao escritório. Ela aparece em busca de oportunidade e logo é contratada por Max e Leo, que veem nela beleza, presença e utilidade para tornar a produção mais atraente. Ulla não está ali apenas como ornamento. Sua presença muda a dinâmica entre os dois homens, principalmente porque Leo passa a enxergar no teatro algo além do dinheiro escondido.

Uma Thurman assume Ulla com leveza e consciência do absurdo ao redor. A personagem entra em um ambiente dominado por trapaças, recibos e intenções ruins, mas traz uma segurança que desmonta a rigidez de Leo. O filme usa essa entrada para aquecer a comédia sem abandonar o enredo. O golpe segue em curso, os ensaios se aproximam e a produção precisa parecer legítima o bastante para enganar todo mundo até a estreia.

Essa é uma das boas sacadas de “Os Produtores”. A história nunca depende apenas de piadas soltas. Cada número musical, cada visita e cada encontro de bastidor serve para colocar o plano em uma situação mais arriscada. Quanto mais Max e Leo trabalham para fabricar um fracasso, mais gente entra na sala, mais documentos circulam e mais difícil fica sumir depois da cortina.

Uma sátira sobre sucesso e mau gosto

“Os Produtores” fala sobre Broadway com afeto e veneno na mesma medida. O filme ri da vaidade dos artistas, da fragilidade dos produtores, da fome por aplauso e da facilidade com que uma ideia ruim pode ser defendida com muita convicção. A comédia funciona melhor quando observa pessoas levando a sério uma missão completamente ridícula. Max trata a fraude como um retorno triunfal. Leo trata o golpe como uma fuga possível. Franz trata sua peça como uma reparação histórica. Roger trata tudo como chance de estrelato.

Susan Stroman, que também dirigiu a montagem teatral na Broadway, mantém o material perto de sua origem. Isso explica tanto a força quanto algumas limitações do filme. Há momentos em que a câmera parece mais interessada em registrar a performance do que reinventá-la para o cinema. Ainda assim, o elenco compensa boa parte dessa rigidez com timing, presença e disposição física. Nathan Lane domina a tela com uma comicidade quase atlética. Matthew Broderick constrói Leo a partir de medo, desejo e ingenuidade. Will Ferrell se encaixa no delírio com energia suficiente para parecer perigoso e patético ao mesmo tempo.

A comédia musical aposta no excesso, mas sabe onde está seu centro. “Os Produtores” acompanha dois homens que tentam enriquecer com o fracasso e acabam presos ao próprio espetáculo. O filme diverte porque trata o golpe com a seriedade de uma grande produção, cheia de contratos, ensaios, números musicais e egos inflamados. Max e Leo querem controlar a queda, mas a Broadway tem vontade própria. Quando as luzes se acendem, o plano já saiu do escritório e ganhou plateia.


Filme: Os Produtores
Diretor: Susan Stroman
Ano: 2005
Gênero: Comédia/Crime/Musical
Avaliação: 3.5/5 1 1
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