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Em 2001, Fabrizio Collini (Franco Nero), um italiano aposentado que vive há 35 anos na Alemanha, entra em um luxuoso hotel de Berlim e mata o industrial Hans Meyer. Depois do crime, permanece no local e se entrega à polícia sem resistência. Não há perseguição, tentativa de fuga ou dúvida sobre a autoria. A pergunta que sustenta “O Caso Collini”, dirigido por Marco Kreuzpaintner, é outra. Por que um homem aparentemente pacato decidiu assassinar uma das figuras mais respeitadas do país?

A defesa fica sob a responsabilidade de Caspar Leinen (Elyas M’Barek), jovem advogado recém-formado que recebe ali seu primeiro caso importante. A nomeação poderia representar o começo promissor de uma carreira, mas o entusiasmo dura pouco. Caspar descobre que a vítima é o homem a quem chamava de Hans, presença decisiva em sua adolescência e uma espécie de segundo pai. O profissional que deveria proteger o réu também carrega afeto e gratidão pelo morto.

Caspar pensa em abandonar o caso, pois sua ligação com a família Meyer torna o trabalho doloroso e constrangedor. A permanência, contudo, passa a ser uma questão de responsabilidade profissional. Collini tem direito à defesa mesmo tendo confessado o assassinato, e alguém precisa descobrir o que aconteceu antes daquele encontro no hotel. O problema é que o acusado permanece calado. Ele admite o ato, mas fecha qualquer caminho até o motivo.

Uma defesa cercada pelo passado

Johanna Meyer (Alexandra Maria Lara), neta do industrial, foi uma pessoa importante na juventude de Caspar. O reencontro ocorre sob condições cruéis. Ela acaba de perder o avô, enquanto o antigo namorado trabalha para impedir que o responsável pela morte seja condenado sem uma investigação rigorosa. A relação entre os dois traz afeto, ressentimento e desconforto, porém o roteiro não transforma Johanna em simples peça romântica. Sua presença recorda a Caspar que cada descoberta profissional terá um custo fora do tribunal.

Do outro lado está Richard Mattinger (Heiner Lauterbach), advogado experiente que representa a família Meyer. Mattinger foi professor de Caspar e conhece muito bem as fraquezas do antigo aluno. Seguro, elegante e dono de uma carreira respeitada, ele trata o julgamento com a tranquilidade de quem já percorreu aqueles corredores muitas vezes. Caspar, por sua vez, ainda parece um visitante usando roupa emprestada. A diferença entre os dois rende ao filme algumas de suas passagens mais interessantes.

Mattinger apresenta uma possibilidade de acordo que encerraria o caso sem uma investigação demorada. Collini assumiria formalmente a culpa e receberia uma acusação menos grave. Para um defensor inexperiente, a proposta parece razoável. Para Caspar, porém, aceitar significaria arquivar a pergunta que o cliente se recusa a responder. Ele decide examinar o crime com mais cuidado, mesmo sabendo que essa escolha poderá prejudicar sua relação com Johanna e sua entrada no meio jurídico.

O silêncio de Fabrizio Collini

Franco Nero interpreta Collini com poucas palavras e grande contenção. O personagem quase nunca oferece ao advogado aquilo que ele precisa. Não pede compaixão, não inventa desculpas e tampouco tenta parecer inocente. Seu silêncio pode irritar, sobretudo porque Caspar depende de informações para formular qualquer defesa. Ainda assim, o ator faz daquele bloqueio uma presença humana, marcada por cansaço, culpa e uma dor antiga que o filme revela aos poucos.

Caspar passa então a trabalhar com o material disponível. Ele consulta registros, observa as provas apresentadas no tribunal e revisita lembranças da casa dos Meyer. Certos detalhes associados ao industrial começam a destoar da imagem generosa preservada pela família. O jovem advogado percebe que a reputação pública da vítima talvez esconda fatos anteriores ao período em que os dois se conheceram.

A investigação leva Caspar até documentos relacionados à Segunda Guerra Mundial e à atuação alemã na Itália. A busca também desloca “O Caso Collini” do mistério criminal para o drama histórico, sem abandonar o julgamento que movimenta a história. O assassinato cometido em 2001 passa a carregar marcas de crimes muito mais antigos, preservados em arquivos oficiais e decisões jurídicas tomadas décadas antes.

Quando a lei protege o passado

Marco Kreuzpaintner organiza o suspense pela liberação gradual dessas informações. As recordações da infância de Caspar mostram sua intimidade com Hans Meyer e tornam cada descoberta mais dolorosa. O advogado não pesquisa um desconhecido. Ele examina a vida do homem que o acolheu, pagou seus estudos e lhe ofereceu um modelo de sucesso. Quanto mais avança, menor fica a distância entre seu dever no tribunal e sua história pessoal.

Elyas M’Barek sustenta bem essa mudança. Caspar começa inseguro, dividido entre a admiração pelo antigo professor e a dívida afetiva com os Meyer. A investigação exige mais firmeza, embora o personagem nunca vire um herói infalível. Ele erra, hesita e sofre para separar lembrança de evidência. Essa vulnerabilidade aproxima o espectador de um assunto jurídico que poderia se tornar pesado nas mãos de uma produção menos atenta ao drama humano.

O filme também possui alguns excessos. A música insiste em avisar quando uma informação merece solenidade, mesmo quando a cena já cumpriu essa tarefa. Certas passagens históricas recebem uma carga emocional maior do que precisavam. Ainda assim, o enredo mantém o interesse porque oferece uma questão poderosa. Uma lei pode ser tecnicamente válida e, ao mesmo tempo, preservar uma injustiça?

Inspirado no romance de Ferdinand von Schirach, “O Caso Collini” combina investigação, drama de tribunal e memória histórica em uma narrativa acessível. O longa explica o suficiente para que o público acompanhe os termos jurídicos, mas preserva a humanidade de quem está envolvido. Caspar precisa escolher entre a conveniência de encerrar seu primeiro grande processo e a obrigação de abrir documentos que ameaçam a reputação da vítima. Ele permanece no caso e leva os arquivos ao tribunal, mesmo sabendo que nenhuma das famílias sairá intacta daquela audiência.


Filme: O Caso Collini
Diretor: Marco Kreuzpaintner
Ano: 2019
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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