Em 1929, Luis Buñuel e Salvador Dalí abriram “Um Cão Andaluz” com um sujeito afiando uma navalha e, pouco depois, uma lâmina atravessando um olho. Não era necessário entender grande coisa. O surrealismo nunca pediu licença à lógica, e o cinema descobria que também poderia servir para mostrar os sonhos mais infames, as obsessões que homens civilizados escondem, os medos que não cabem na vida acordada. Quase um século depois, continua-se tentando descobrir até onde um filme pode avançar nessa terra sem lei antes que o espectador simplesmente desista.
A Netflix tem algumas respostas. Há muita produção tida por estranha apenas porque embaralha a cronologia, inventa uma criatura exótica ou reserva uma reviravolta para o fim, mas estranheza de verdade é outra coisa. Ela aparece quando um macaco é interrogado por homicídio e ninguém parece achar isso anormal; quando o jantar com os pais do namorado começa a deformar o tempo; quando um buraco aberto no crânio permite enxergar o que os outros escondem dentro de si; quando uma casa deixa de ser cenário e parece mandar nos moradores; ou quando Augusto Pinochet levanta-se da sepultura na condição de vampiro.
Os cinco filmes abaixo pertencem a essa categoria mais rara. Não são necessariamente os mais difíceis da plataforma, tampouco os mais experimentais. São apenas aqueles diante dos quais a pergunta mais razoável, em algum momento, é bastante simples: quem teve a ideia de fazer isso?
What Did Jack Do?
Um investigador encontra seu suspeito numa estação ferroviária e começa a fazer as perguntas de praxe, tentando descobrir onde ele estava, com quem esteve e o que sabe acerca de um assassinato. O policial é David Lynch, todo de preto, fumando e fazendo aquela cara de homem que já viu coisa demais no mundo. O suspeito é um macaco-prego. Jack fala. E fala bastante. O animal responde ao interrogatório com a altivez de um gângster de filme noir, enquanto Lynch conserva uma seriedade tão absoluta que depois de alguns minutos o espectador já não se pergunta por que um macaco está sentado diante de um detetive, mas se ele matou ou não alguém. Essa pequena inversão é suficiente para que os dezessete minutos se convertam numa das viagens mais desatinadas da carreira de um cineasta que nunca teve especial apreço pela normalidade. Há uma mulher no caso, por óbvio. Ou melhor, uma galinha chamada Toototabon, por quem Jack alimenta uma paixão que parece ter-lhe transtornado o juízo. Entre evasivas, acusações e uma canção romântica interpretada pelo próprio primata, Lynch faz uma paródia policial que pode ser tudo e nada ao mesmo tempo. Talvez seja melhor não procurar cura para certas loucuras.
Por que assistir
Lynch trata o absurdo com tamanha solenidade que a piada logo deixa de ser apenas uma piada. O preto e branco, o cenário reduzido e o interrogatório levado como assunto de Estado transformam um macaco falante num suspeito perfeitamente plausível. É o tipo de experiência em que dezessete minutos bastam para desarrumar todas as expectativas.
Estou Pensando em Acabar com Tudo
Conhecer os pais do namorado já pode ser uma experiência extenuante sem que Charlie Kaufman resolva meter-se no assunto. Uma jovem entra no carro de Jake para acompanhá-lo até a fazenda da família, em algum lugar tomado pela neve, enquanto repete mentalmente que pretende romper o relacionamento. Ele fala muito, ela pensa ainda mais, e durante aqueles quilômetros alguma coisa já parece ligeiramente fora do lugar, embora seja difícil precisar o quê. A chegada à casa dos pais deveria encerrar a aflição. Faz o contrário. A mãe e o pai de Jake recebem a moça com uma cordialidade esquisita e, à medida que o jantar avança, envelhecem, rejuvenescem, adoecem, recuperam-se. Informações que ouvimos minutos antes já não parecem verdadeiras; profissões mudam; lembranças trocam de dono; a protagonista pode ter um nome e logo depois outro. Jessie Buckley sustenta esse redemoinho com uma expressão de quem também deseja entender onde foi parar, enquanto Jesse Plemons vai tornando Jake um sujeito cada vez mais difícil de decifrar. Kaufman desfaz o mundo aos poucos, como alguém que puxa um fio de uma blusa até não restar blusa alguma. Quando os dois deixam a fazenda e tornam à estrada, já não há muita razão para confiar no tempo, nas pessoas ou no que acabamos de assistir. Muito menos em Jake.
Por que assistir
Charlie Kaufman trabalha a desorientação sem depender de sustos ou monstros, alterando pequenas certezas até que nenhuma delas permaneça de pé. Jessie Buckley e Jesse Plemons mantêm a história viva mesmo quando identidade, memória e tempo deixam de obedecer às regras. É um filme que transforma desconforto doméstico em vertigem existencial.
Homunculus
Susumu Nakoshi mora num carro, embora tudo indique que sua indigência seja um arranjo muito mais complicado que simples falta de dinheiro. Ele passa os dias entre sem-teto e prédios luxuosos, como se tivesse escolhido instalar-se num ponto morto da sociedade japonesa, até conhecer Manabu Ito, um estudante de medicina rico, excêntrico e obcecado por uma ideia que faria qualquer pessoa de algum juízo atravessar a rua. Ito quer abrir um buraco no crânio de Nakoshi. Em troca, paga. A trepanação, prática antiquíssima à qual se atribuíram toda sorte de poderes ao longo dos séculos, produz um efeito que nem médico nem paciente poderiam comprovar num laboratório. Nakoshi passa a enxergar determinadas pessoas de maneira deformada, às vezes monstruosa, como se seus traumas, desejos, culpas e humilhações tivessem finalmente encontrado uma forma física pela qual escapar. Takashi Shimizu poderia conduzir tudo para o terror convencional, mas prefere complicar. Cada criatura vista pelo protagonista corresponde a alguma ferida enterrada, e ajudá-la exige penetrar em lugares que talvez devessem permanecer fechados. Logo surge outra suspeita, bastante pior: e se aquelas aberrações não forem apenas projeções dos outros? Quanto mais Nakoshi enxerga, menos consegue compreender a si mesmo. Há olhos para o mundo e olhos para aquilo que não gostaríamos de ver. Os dele passam a servir aos dois.
Por que assistir
Takashi Shimizu usa o horror corporal como porta de entrada para uma história sobre trauma, percepção e identidade. As deformações não aparecem apenas para causar repulsa; tornam visível aquilo que os personagens escondem. Essa mistura de procedimento médico, delírio psicológico e imagens grotescas dá ao filme uma estranheza que vai se tornando cada vez mais íntima.
The House
Casas guardam histórias. Algumas guardam seus moradores. Três narrativas em stop motion ocupam épocas diferentes e giram em torno de uma construção que muda por dentro, por fora e até de habitantes, mas conserva a mesma vocação para enlouquecer quem acredita dominá-la. No primeiro segmento, uma família modesta recebe a oportunidade de trocar sua vida sem brilho por uma residência imensa, erguida por um arquiteto tão generoso quanto suspeito. Os pais encantam-se com o luxo; as crianças percebem antes que aquela maravilha tem qualquer coisa de tumba. Tempos depois, um rato empreendedor reforma o imóvel para revendê-lo e libertar-se de problemas financeiros. A visita de possíveis compradores introduz uma nova calamidade, e o que começa como sátira ao mercado imobiliário vai ganhando patas, dentes e uma quantidade pouco recomendável de insetos. A última história transforma a residência numa espécie de ilha durante uma inundação interminável, agora sob o comando de uma gata empenhada em cobrar aluguel de inquilinos que não têm dinheiro nem grande preocupação com o futuro. Os bonecos são adoráveis até deixarem de ser. As paredes são bonitas até começarem a apertar. E uma casa dos sonhos, como sabe qualquer corretor experiente, também pode esconder pesadelos no porão.
Por que assistir
O stop motion cria uma aparência artesanal e quase infantil que trabalha contra o espectador quando os ambientes começam a se tornar hostis. Cada segmento encontra uma forma distinta de fazer da mesma construção um organismo estranho, ligado a ambição, fracasso e apego. A delicadeza visual torna tudo ainda mais perturbador.
O Conde
Augusto Pinochet morreu em 10 de dezembro de 2006, aos 91 anos. Pablo Larraín acha que não. Na fantasia macabra do diretor chileno, o antigo ditador é um vampiro de 250 anos que atravessou revoluções, guerras e continentes antes de instalar-se no Chile, tomar o poder e fazer o que a História registra. Agora está cansado. Escondido numa propriedade decrépita, decidiu parar de beber sangue para que a morte, enfim, faça-lhe o favor de chegar, mas nem o fim de um tirano pode ser simples quando existem filhos interessados numa herança. A família reúne-se em torno do velho muito mais preocupada com o dinheiro desaparecido que com sua iminente partida, dando a Larraín o material de que precisa para transformar a ditadura numa comédia de cadáveres morais. Pinochet sai à noite, capa ao vento, voando sobre a paisagem atrás de novas vítimas, enquanto corações humanos tornam-se iguarias e os descendentes discutem contas, propriedades e patrimônios. Uma jovem freira chega para organizar as finanças e, secretamente, exorcizar o patriarca. Só que há mais gente imortal naquela história, e uma revelação extraordinariamente absurda faz com que tudo até então pareça quase razoável. Larraín não humaniza o monstro. Faz coisa pior: deixa-o viver para sempre.
Por que assistir
Pablo Larraín transforma a figura histórica do ditador num monstro literal sem abandonar a sátira política. A fotografia em preto e branco, os voos noturnos e a família interessada na herança dão à farsa uma solenidade mórbida. O resultado é engraçado, repulsivo e deliberadamente absurdo, como se a História tivesse adquirido presas.

