Violência no cinema é coisa séria. Sam Peckinpah (1925-1984) sabia disso quando fez corpos sacudirem ao receber bala em “Meu Ódio Será Sua Herança” (1969), e John Woo tornou tiroteios quase um balé em “Fervura Máxima” (1992), com homens lançando-se pelos ares, pistolas nas duas mãos e pombas brancas voando sabe-se lá de onde. O que parecia exagero há trinta anos, contudo, ganhou músculos, facas maiores e uma disposição admirável para mandar às favas qualquer limite.
Uma das figuras mais interessantes dessa nova escola de pancadaria é o indonésio Timo Tjahjanto, um diretor que olha para uma briga e parece sempre concluir que ainda falta alguma coisa. Um osso quebrado, mais sangue, uma parede atravessada por alguém ou, de preferência, tudo ao mesmo tempo. Três dos cinco filmes desta lista são dele, e isso diz bastante sobre quem passou a ocupar o lugar que o cinema americano deixou vago ao domesticar seus brucutus.
Os outros dois vêm da Coreia do Sul, onde diretores também descobriram há tempos que um bom filme de ação não precisa pedir desculpas por ser absurdo. Estes cinco trabalhos disponíveis na Netflix não são apenas violentos. São insanos no sentido mais generoso da palavra: aceleram quando deveriam frear, prolongam lutas quando qualquer homem normal já estaria no hospital e fazem da inverossimilhança uma virtude. Aqui, sobreviver é detalhe. O importante é como se chega vivo à próxima cena.
A Noite nos Persegue
Ito ganhava a vida matando gente para a Tríade e talvez continuasse assim até a aposentadoria — supondo-se que assassinos desse nível tenham direito a uma —, não fosse uma garota sobrevivente de um massacre despertar nele alguma coisa parecida com consciência. Joe Taslim incorpora esse sujeito pouco dado a sentimentalismos, mas que resolve poupar Reina e, no mesmo movimento, transforma os próprios companheiros em cadáveres. A traição o obriga a voltar a Jacarta, onde antigos amigos e inimigos ainda se lembram muito bem de seu nome. Entre eles está Arian, vivido por Iko Uwais, outra fera das artes marciais cuja ascensão no crime organizado passa justamente pelo homem que conhece desde outros tempos. Daí em diante, Timo Tjahjanto desiste de qualquer cerimônia. Facas atravessam corpos, ossos cedem, móveis viram armas e apartamentos inteiros são destruídos por sujeitos que parecem incapazes de perceber quando já perderam sangue suficiente. Por trás da carnificina há a velha história do criminoso que tenta uma última redenção. O problema é que o passado de Ito não acredita em segundas chances.
Por que assistir
É o filme que melhor define a ideia de ação sem qualquer freio. Tjahjanto prolonga confrontos além do razoável e transforma cada ambiente numa coleção de armas improvisadas, com Joe Taslim e Iko Uwais levando a violência física a um nível quase inacreditável.
Através das Sombras
Ela atende apenas pelo número 13, como convém a alguém que teve roubados nome, passado e qualquer possibilidade de uma vida comum. Ainda adolescente, tornou-se assassina de uma organização clandestina que treina seus agentes para matar sem hesitar, até que uma operação no Japão sai pior que o planejado e a jovem é afastada temporariamente das missões. O castigo deveria servir para esfriar a cabeça. Acontece o contrário. De volta a Jacarta, 13 conhece Monji, um garoto de onze anos cuja mãe morre em circunstâncias suspeitas, e decide fazer aquilo que todo bom matador profissional é ensinado a evitar: importar-se. Aurora Ribero confere à personagem a mistura exata de fragilidade e selvageria necessária para que se aceite a transformação daquela menina treinada para obedecer numa máquina disposta a atacar os próprios mestres. Tjahjanto põe sua anti-heroína contra traficantes, gângsteres e colegas de profissão, esticando cada confronto até um ponto em que a resistência dos corpos deixa de fazer qualquer sentido. Ainda bem. Realismo seria um desperdício numa história em que a salvação de uma criança vale uma guerra particular.
Por que assistir
Aurora Ribero conduz uma sucessão de batalhas brutais em que Tjahjanto parece interessado justamente no instante posterior ao ponto em que qualquer diretor prudente encerraria a cena. É ação física, sanguinolenta e deliberadamente excessiva.
Carter
Um homem acorda ensanguentado num quarto de motel sem fazer ideia de quem é, por que está ali ou por qual razão agentes armados parecem tão interessados em matá-lo. Antes que consiga formular perguntas minimamente úteis, uma voz começa a falar dentro de seu ouvido e o instrui a seguir ordens se quiser permanecer vivo. Joo Won enfrenta a ingrata missão de dar alguma humanidade a esse sujeito sem memória enquanto Jung Byung-gil faz tudo para não deixar ninguém parar e pensar. A câmera corre atrás dele por corredores, ruas, telhados, motocicletas e aviões, simulando um imenso plano-sequência que converte a história numa experiência mais próxima de um videogame tomado por anfetaminas. No centro da confusão está uma menina que precisa ser levada em segurança durante uma crise sanitária capaz de alterar o equilíbrio entre as duas Coreias, mas diplomacia nunca parece ter sido a especialidade do protagonista. Ele esmurrra, atira, cai, levanta, pilota, salta e segue adiante como se o organismo humano tivesse sido projetado para aquilo. Não foi. Esse é precisamente o divertimento.
Por que assistir
A câmera praticamente não descansa e arrasta o espectador para dentro de perseguições, lutas, motos, aviões e quedas que parecem pertencer ao mesmo movimento. É uma experiência vertiginosa que deliberadamente troca o bom senso pela velocidade.
Headshot
Um homem é encontrado quase morto numa praia e passa meses em coma até abrir os olhos sob os cuidados de Ailin, a jovem médica que insiste em acreditar em sua recuperação. Sem qualquer lembrança do passado, recebe dela o nome Ishmael e começa aquela que poderia ser uma comovente história sobre renascimento, identidade e amor, se dois diretores indonésios não tivessem outros planos. Iko Uwais mal tem tempo para descobrir quem é. Uma organização criminosa aparece em seu encalço, Ailin é sequestrada e cada novo confronto devolve ao protagonista uma parcela de uma vida que talvez fosse melhor continuar esquecida. Seu corpo sabe matar antes que a memória explique de onde veio tamanha habilidade, recurso que Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto usam para transformar amnésia em combustível para a pancadaria. A busca pela médica leva Ishmael até Lee, um chefão criminoso ligado diretamente ao passado que ele tenta recompor. Entre os dois há muito mais que uma dívida. Há homens com facas, armas e péssimo senso de autopreservação. Uwais cuida do resto.
Por que assistir
Iko Uwais transforma o próprio corpo na principal atração de uma história que usa a amnésia apenas como ponto de partida para uma quantidade desproporcional de pancadaria. As lutas são rápidas, secas e violentas o bastante para fazer cada golpe parecer definitivo.
Os 4 Malfeitores
Dina acredita conhecer o pai até que ele é assassinado. Policial dedicada e nada inclinada a fantasias acerca da vida dupla de homens respeitáveis, ela começa a investigar o crime e acaba descobrindo que o velho escondia uma ocupação difícil de acomodar em qualquer reunião familiar: comandava um pequeno grupo de assassinos profissionais. Os quatro antigos pupilos estão dispersos e supostamente aposentados, desfrutando uma vida que em nada lembra disciplina militar, mas a chegada da filha do mentor devolve todos ao ofício. Abimana Aryasatya encabeça o bando como Topan, seguido por Jenggo, Alpha e Pelor, tipos que parecem saídos de um desenho animado excessivamente violento e que Timo Tjahjanto trata com o carinho reservado aos desajustados. A procura pelo assassino de Petrus vai unindo Dina àquela família clandestina num carrossel de tiros, explosões, pancadaria e piadas deliberadamente idiotas. Aqui, o diretor deixa o sangue correr com espírito de comédia e faz seus matadores errarem, discutirem, caírem e levantarem de novo. Profissionais, sim. Normais, jamais.
Por que assistir
Timo Tjahjanto mistura a brutalidade habitual com uma comédia abertamente farsesca, deixando que assassinos profissionais se comportem como uma família completamente disfuncional. Sangue, tiros e explosões aparecem com a lógica de um desenho animado que perdeu a classificação indicativa.

