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Uma garrafa de vinho pode custar R$ 30 ou o preço de um apartamento. Entre uma coisa e outra, aparentemente, existe apenas vinho, vidro, rolha e um pedaço de papel colado na frente. No mercado dos grandes rótulos, porém, esse pedaço de papel é capaz de representar uma safra desaparecida, um produtor mítico, uma parcela minúscula de terra na Borgonha ou uma história que atravessou dois séculos. É justamente aí que começa o problema.

O vinho raro reúne algumas condições quase perfeitas para a falsificação. As garrafas antigas são diferentes entre si, os rótulos envelhecem, as rolhas se deterioram, a documentação nem sempre acompanha a mercadoria e, principalmente, ninguém compra uma Romanée-Conti de dezenas de milhares de dólares para abri-la na noite seguinte com uma pizza. Muitas permanecem anos ou décadas em adegas particulares, passando de um colecionador para outro sem que o conteúdo seja provado.

Foi nesse mercado que apareceram falsificadores capazes de produzir safras que nunca existiram, comerciantes que venderam vinhos jamais comprados, quadrilhas que transformaram vinho espanhol em Bordeaux e até empresários que inventaram colecionadores milionários e adegas inteiras. Em alguns casos, havia vinho barato dentro de uma garrafa cara. Em outros, não havia garrafa nenhuma.

Os golpes abaixo são diferentes em método, escala e prejuízo. Têm em comum uma constatação menos confortável para quem imagina que preço alto venha acompanhado de segurança: algumas das maiores fraudes da história do vinho circularam justamente entre compradores que, em tese, tinham dinheiro suficiente para não serem enganados.

França · 2006–2008 · 13,5 milhões de litros

O Pinot Noir francês que era Merlot e Syrah

A E. & J. Gallo comprou no sul da França, entre 2006 e 2008, cerca de 13,5 milhões de litros de vinho negociados como Pinot Noir. Uma parte abasteceu a Red Bicyclette, marca francesa comercializada nos Estados Unidos. Convertido em garrafas de 750 ml, o volume chega perto de 18 milhões de unidades, uma quantidade considerável para uma variedade que os vinhedos fornecedores não tinham produzido.

O esquema consistia em vender como Pinot Noir vinhos feitos com uvas mais abundantes e baratas, principalmente Merlot e Syrah. A transformação acontecia nos documentos. Para o consumidor americano, o líquido chegava com a identidade comercial da variedade que havia ganhado enorme popularidade no país e pela qual importadores estavam dispostos a pagar mais.

A fraude começou a desmoronar quando autoridades francesas confrontaram os volumes vendidos com a produção efetivamente possível naquela região. A conta mostrou o que a degustação de milhões de consumidores não havia mostrado. Doze pessoas foram condenadas, e o caso tornou-se uma das maiores fraudes de variedade já descobertas no mercado europeu.

O episódio também oferece uma pequena lição de humildade. Durante anos, muita gente bebeu Merlot e Syrah acreditando estar diante de Pinot Noir. Aparentemente, sobreviveu à experiência.

França / Espanha · 2014–2016 · 4,6 milhões de garrafas

Os milhões de Bordeaux que vieram da Espanha

Bordeaux talvez seja o nome mais conhecido do vinho francês e um dos melhores exemplos de quanto a origem pode determinar o preço de uma garrafa. Entre 2014 e 2016, entretanto, comerciantes encontraram uma maneira bem mais econômica de ampliar a produção local: compraram vinho espanhol.

Pelo menos 34.587 hectolitros atravessaram a fronteira em caminhões, volume suficiente para encher aproximadamente 4,6 milhões de garrafas. Documentos eram modificados e o vinho espanhol reaparecia comercialmente como francês. Parte foi associada inclusive a denominações muito mais valorizadas, como Médoc e Margaux.

O momento ajudou. Bordeaux havia passado por safras de produção menor, enquanto a demanda permanecia elevada. Comprar vinho a granel na Espanha e promover sua mudança de nacionalidade no papel resolvia, simultaneamente, o problema da oferta e o da margem de lucro.

Cinco pessoas foram condenadas pela Justiça francesa em 2023. O principal nome do processo, Jean-Sébastien Laflèche, recebeu pena de dois anos, além de multa e proibição temporária de trabalhar no setor.

Nada indica que todo aquele vinho fosse necessariamente ruim. A fraude estava justamente nisso: vinho espanhol pode ser excelente, desde que não seja vendido como Margaux.

Champagne · 2022–2023 · centenas de milhares de garrafas

O Champagne produzido com vinho comum e gás carbônico

Champagne é uma das denominações mais protegidas do mundo. O nome não designa simplesmente um espumante francês, mas uma bebida produzida numa região determinada, com variedades autorizadas e métodos de elaboração submetidos a regras bastante precisas. Didier Chopin sabia disso melhor do que quase qualquer consumidor. Ele próprio era produtor em Champagne.

Segundo a investigação que chegou aos tribunais franceses, entre 2022 e 2023 seu negócio participou da produção de centenas de milhares de garrafas apresentadas como Champagne sem que fossem Champagne. Vinhos tranquilos comprados no sul da França e na Espanha recebiam aromatizantes e dióxido de carbono antes do engarrafamento.

O método evitava justamente algumas das etapas que explicam o preço da bebida original, especialmente a segunda fermentação e o período de amadurecimento. O resultado podia ter borbulhas, garrafa parecida e nome famoso, mas seguia um caminho bastante diferente daquele que tornou Champagne uma referência mundial.

Em 2025, Chopin foi condenado em Reims a 18 meses de prisão, mais 30 meses de pena suspensa e multa de 100 mil euros. Sua empresa também recebeu multa. A defesa recorreu.

O caso prova que existem maneiras mais rápidas de produzir bolhas. O problema é conseguir convencer a Justiça francesa de que continuam sendo Champagne.

Itália · 2020 · até o papel de seda foi copiado

O Sassicaia falso que copiava até o papel de seda

Sassicaia não é apenas um dos grandes vinhos da Itália. É também um rótulo reconhecível, caro e cercado por uma embalagem cuja sobriedade faz parte de sua imagem. A quadrilha descoberta pela polícia italiana em 2020 percebeu que, se a falsificação pretendia chegar ao mercado internacional, não bastaria colocar qualquer vinho dentro de uma garrafa parecida.

O grupo comprava vinho mais barato na Sicília e montava imitações do Sassicaia, concentrando-se especialmente na celebrada safra 2015. Rótulos e caixas eram produzidos na Bulgária, enquanto cápsulas e demais elementos da embalagem reproduziam o original com uma precisão incomum. Até a gramatura do papel de seda usado para envolver a garrafa havia sido copiada.

A capacidade estimada chegava a cerca de 700 caixas por mês. Uma caixa verdadeira com 12 garrafas podia custar entre 1.800 e 2.400 euros; a falsificada era oferecida por aproximadamente 500. Uma encomenda de mil caixas estaria sendo preparada para a Coreia do Sul quando a operação foi interrompida.

Toda essa sofisticação começou a ruir por uma razão menos sofisticada. Uma caixa falsa caiu de um caminhão e acabou encontrada na estrada.

A embalagem era quase perfeita. O transporte, nem tanto.

Europa · 2024 · até € 15 mil por garrafa

Os grands crus falsos vendidos por 15 mil euros

A falsificação de vinho raro deixou há muito tempo de ser uma atividade que depende apenas de um sujeito habilidoso, algumas garrafas vazias e uma impressora. Uma operação realizada em 2024 por autoridades da França, Itália e Suíça encontrou uma estrutura montada para reproduzir grandes rótulos franceses e recolocá-los no mercado internacional.

Os vinhos eram preparados na Itália. Nas buscas, investigadores apreenderam rótulos, ceras, cápsulas, rolhas, garrafas, equipamentos para remover e recolocar componentes da embalagem e estoques usados na montagem das falsificações. Seis pessoas foram presas e 14 locais foram vasculhados.

Algumas garrafas eram oferecidas por valores que chegavam a 15 mil euros. O dado ajuda a explicar por que vale a pena investir tanto na aparência. Nessa faixa de preço, poucos centímetros de papel, uma rolha envelhecida e uma cápsula correta podem representar uma diferença de milhares de euros.

O ponto mais delicado é que essas garrafas não precisam ser vendidas necessariamente por um falsificador ao consumidor final. Podem passar por intermediários, comerciantes e colecionadores que também acreditam em sua autenticidade.

Para quem compra vinho raro, portanto, saber onde a garrafa está pode ser menos importante do que saber onde ela esteve.

Estados Unidos · 2005–2013 · US$ 355.811 em 24 garrafas

Bill Koch e as 24 garrafas de US$ 355 mil

Bill Koch reuniu uma das grandes coleções particulares de vinho dos Estados Unidos e, como costuma acontecer quando dinheiro deixa de ser o principal limite de uma compra, passou a disputar rótulos históricos em leilões internacionais. Em 2005, adquiriu mais de 2.600 garrafas pertencentes ao empresário Eric Greenberg numa venda organizada pela Zachys.

Vinte e quatro delas se tornariam objeto de um processo judicial. Koch havia desembolsado US$ 355.811 apenas por esse pequeno conjunto e sustentava que as garrafas eram falsas e que havia informações relevantes sobre sua autenticidade que não foram apresentadas ao comprador.

Em 2013, o júri decidiu a favor de Koch em acusações de fraude e violações das normas de proteção ao consumidor. A indenização punitiva chegou inicialmente a US$ 12 milhões, valor mais tarde reduzido pelo juiz, além dos ajustes referentes às perdas efetivas e a um acordo anterior.

Koch gastou anos e muito dinheiro investigando vinhos falsos, comportamento que frequentemente foi tratado como excentricidade de bilionário. A discussão, entretanto, ultrapassou suas garrafas.

Se uma falsificação consegue passar por coleção importante, especialistas e casa de leilões, o tamanho da conta bancária do comprador deixa de ser uma defesa particularmente eficiente.

Califórnia · 2010–2015 · US$ 20 milhões em “vinho fantasma”

A loja que vendeu US$ 20 milhões em vinhos que não tinha

A Premier Cru funcionou durante anos em Berkeley, na Califórnia, e conquistou clientes interessados nos grandes vinhos europeus. Uma parte importante do negócio vinha das vendas chamadas de pre-arrival: o consumidor pagava antes pela garrafa e esperava a chegada da mercadoria, processo que podia levar muitos meses.

John Fox, proprietário da loja, descobriu que esse intervalo abria espaço para um modelo de negócio bastante mais rentável. Em vez de comprar todos os vinhos vendidos aos clientes, passou a comercializar também garrafas que simplesmente não possuía.

Entre 2010 e 2015, Fox admitiu ter vendido ou tentado vender aproximadamente US$ 20 milhões em vinhos inexistentes. Ordens de compra falsas davam aparência de normalidade ao estoque. O dinheiro de novos compradores era usado, em parte, para adquirir garrafas prometidas a clientes anteriores, numa estrutura semelhante à de um esquema Ponzi.

Quando a Premier Cru quebrou, consumidores haviam pago cerca de US$ 45 milhões por vinhos que ainda não tinham recebido. Parte dos recursos também financiou carros de luxo, despesas pessoais e mais de US$ 900 mil gastos por Fox com mulheres que conheceu pela internet.

Ele foi condenado a seis anos e meio de prisão.

Há golpes de vinho que exigem habilidade para falsificar uma Romanée-Conti. Este descobriu que era mais barato não ter a Romanée-Conti.

Estados Unidos · 2017–2019 · mais de US$ 97 milhões

O golpe de US$ 97 milhões em que até os colecionadores eram inventados

A Bordeaux Cellars oferecia a investidores uma operação de aparência bastante sólida. Colecionadores muito ricos precisariam de empréstimos e entregariam como garantia suas adegas, formadas por vinhos raros e caros. O investidor emprestava o dinheiro, recebia juros e contava com as garrafas caso o devedor não honrasse o compromisso.

Funcionaria muito bem se existissem os colecionadores.

E as garrafas.

Segundo a Justiça americana, James Wellesley e Stephen Burton captaram mais de US$ 97 milhões de mais de 140 vítimas entre 2017 e 2019. Documentos e identidades davam aparência de legitimidade ao negócio, enquanto parte do dinheiro dos novos participantes servia para pagar rendimentos prometidos aos anteriores.

Dos mais de US$ 97 milhões recebidos, somente cerca de US$ 14 milhões voltaram aos investidores antes do colapso. O prejuízo ultrapassou US$ 83 milhões. Wellesley foi condenado, em 2026, a dez anos de prisão; Burton havia admitido participação no esquema no ano anterior.

É a fraude mais abstrata desta lista. Não houve necessidade de encontrar garrafas vazias, reproduzir rótulos ou escolher um vinho barato que lembrasse um grande Bordeaux.

A adega inteira cabia nos documentos.

Londres · 1985 · 105 mil libras por uma garrafa

As garrafas de Thomas Jefferson

Uma garrafa de Château Lafite 1787 apareceu num leilão da Christie’s em Londres, em 1985, trazendo gravadas no vidro as iniciais “Th. J.”. O comerciante Hardy Rodenstock dizia que ela fazia parte de um conjunto encontrado numa antiga adega em Paris e relacionado a Thomas Jefferson, que viveu na França, conhecia vinho e manteve registros de suas compras.

A combinação entre Lafite, 1787 e Jefferson transformou a garrafa numa peça histórica. Christopher Forbes pagou 105 mil libras por ela, estabelecendo um recorde. Outras garrafas atribuídas ao antigo presidente americano apareceram depois no mercado, e Bill Koch comprou quatro por aproximadamente US$ 500 mil.

As dúvidas cresceram quando Koch decidiu investigar a procedência. Os registros de Jefferson não ofereciam a confirmação esperada, e especialistas contratados pelo colecionador apontaram problemas nas inscrições feitas no vidro, que teriam características compatíveis com ferramentas modernas.

Rodenstock sempre sustentou que as garrafas eram autênticas e não houve condenação criminal que permita afirmar que ele as tenha produzido. O cuidado é necessário porque a história das chamadas “garrafas Jefferson” permanece ligada a uma longa controvérsia de autenticidade e procedência.

Foi suficiente, entretanto, para alterar a maneira como o mercado passou a olhar vinhos históricos.

Numa garrafa de 1787, o líquido importa muito. A história que acompanha o líquido talvez importe ainda mais.

Estados Unidos · 2008–2014 · US$ 28,4 milhões em restituição

Rudy Kurniawan e a fábrica doméstica de grandes vinhos

Rudy Kurniawan não entrou no mercado de vinhos raros como um desconhecido tentando vender garrafas suspeitas numa esquina. Frequentava degustações com alguns dos maiores colecionadores dos Estados Unidos, comprava grandes Borgonhas, tinha fama de possuir memória gustativa excepcional e se tornou uma figura conhecida num meio em que experiência e reputação funcionam quase como moeda.

O problema apareceu de forma mais clara em 2008, quando garrafas do Domaine Ponsot provenientes de sua coleção foram preparadas para um leilão em Nova York. Entre elas havia Clos Saint-Denis de safras que começavam décadas antes de 1982.

Laurent Ponsot percebeu imediatamente a impossibilidade. Seu domaine só começou a produzir aquele vinho em 1982.

A investigação avançou até março de 2012, quando agentes federais entraram na casa de Kurniawan, na Califórnia. Encontraram garrafas vazias de grandes vinhos, rótulos, cápsulas, rolhas, carimbos de safra e materiais usados para remontar embalagens. Kurniawan comprava vinhos mais baratos, fazia misturas e as colocava em recipientes que poderiam ser vendidos como raridades.

Foi condenado por fraude em 2013 e, no ano seguinte, recebeu dez anos de prisão, ordem de confisco de US$ 20 milhões e determinação de pagar US$ 28,4 milhões às vítimas.

A condenação resolveu o destino do falsificador. Não resolveu o das garrafas.

Kurniawan colocou vinhos no mercado durante anos, e não há como saber com precisão quantas falsificações ainda permanecem em coleções particulares. Algumas podem ter sido revendidas. Outras talvez estejam cuidadosamente armazenadas, cercadas de documentação, seguro e controle de temperatura, aguardando a valorização da próxima década.

Nesse mercado, uma garrafa falsa continua valendo o que alguém acredita que ela seja.

Até que seja aberta.

Revista Bula

A Revista Bula é uma plataforma digital brasileira fundada em 1999, que atua como revista e também como editora de livros. Com foco em literatura, cultura, comportamento e temas contemporâneos, adota uma linha editorial autoral, com ênfase em textos opinativos e ensaísticos. Seu conteúdo é amplamente difundido por meio das redes sociais e alcança milhões de leitores por mês, consolidando-se como uma das referências em jornalismo cultural no ambiente digital. Além da produção de conteúdo editorial, a Bula mantém uma linha de publicações próprias, com títulos de ficção e não ficção distribuídos em formato digital e impresso.

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