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Frequento um restaurante que vende comida por quilo. Fica pertinho do meu local de trabalho. Para quem não conhece essa modalidade de serviço gastronômico, explico: o cliente pega um prato, serve a comida da sua preferência nos balcões e, finalmente, pesa o produto numa balança. Daí, é só se sentar, comer e pagar a conta na saída. Considera-se esse sistema mais prático, mais ágil e mais barato, embora não seja tão saboroso quanto o atendimento à la carte, tendo em vista a óbvia perda de qualidade dos alimentos que ficam ali expostos, às vezes, por longos períodos. Isso sem falar dos lambões, dos clientes inconvenientes que não lavam as mãos antes de se servirem, muitos deles, tagarelas a despejar chuvas de perdigotos sobre a comida. É melhor nem pensar, senão a gente não come.

Nessa semana, me deparei com uma situação peculiar sucedida naquele recinto. Eu almoçava só. Na mesa, à minha frente, duas mulheres compartilhavam comida num único prato. Cada qual com seus próprios talheres. Uma velha. Uma jovem. Fisionomias parecidas. Feições sofridas. Provavelmente, parentes: mãe e filha, quem sabe. Supunha que o compartilhamento do alimento fosse uma questão de perrengue financeiro. Aparentavam ser pessoas muito simplórias.

Fiquei, ao mesmo tempo, curioso e comovido com a cena. Terminei logo o rango e fui ao caixa pagar a minha conta.

— Como vai, doc?

— Piorando um pouco a cada dia, graças a Deus.

— Rá-rá-rá… O senhor é engraçado. Devia tomar mais tento.

— Eu tento. Estou tentando, mas tá difícil de acreditar.

— Jesus te ama.

— E quem não?

Rimos.

— Desculpe pela curiosidade, Sônia: sabe me dizer por que aquelas mulheres comem juntas no mesmo prato?

— Ah, o senhor notou.

— Sim. Notei. Não é uma situação comum. Ainda mais por se tratar de pessoas adultas. Quando eu fazia a faculdade, tinha um casal de namorados, dois estudantes universitários que almoçavam todos os dias, coladinhos um no outro, compartilhando o almoço do bandejão. Aquele amor grudento era de fazer qualquer um embrulhar o estômago.

— Exceto o casal.

— Exceto o casal. Dois bobocas apaixonados. Ninguém merecia um amor tão pegajoso.

— Aquelas mulheres são gente muito humilde, doc. Mal se ouvem as suas vozes. Moram longe pra caramba, numa comunidade ribeirinha que fica no norte do país.

— Será que elas se sentiriam ofendidas se eu lhes oferecesse um prato adicional de comida? Fico com pena. Não quero perguntar pessoalmente para não as constranger.

— Ainda bem que o senhor não fez a sua oferta. Não se trata de dinheiro. Já aconteceu outras vezes.

— Então, não é a primeira vez que elas comem no seu estabelecimento? Nunca as vi aqui.

— Isso não significa que elas não sejam clientes. O senhor almoça rápido demais, doc. Praticamente, engole a comida.

— Que nem um pato.

— Que nem um pato. Mais do que eu, o senhor sabe que isso faz mal à saúde. Precisa desacelerar. Mastigar com calma. Apreciar o sabor de uma boa comida, sem pressa.

— Vou andando.

— Calma lá. Não quer saber por que elas comem no mesmo prato?

— Seria ótimo, Sônia. Mataria a minha maldita curiosidade.

— São mãe e filha.

— Foi o que pensei.

— A senhorinha com cara de 60, na verdade, não passa dos 40. A mocinha tem 22; 3 filhos já nas costas.

— Eita! Estão passeando ou procurando emprego?

— Nem uma coisa, nem outra. A moça tá doente. Aquela doença.

— Aquela doença? Que doença, Sônia?

— Aquela doença. O senhor sabe.

— Câncer?

— Eu não gosto nem de pronunciar essa palavra, doc.

— Câncer de quê?

— Não sei. Nunca tive coragem de perguntar. Como o senhor mesmo disse, procuro não melindrar clientes.

— Eu sou uma besta.

— Não é não, doc. O senhor tem bom coração.

— Por que compartilhar comida no mesmo prato? Ainda mais, sendo ela uma mocinha doente. A imunidade fica comprometida. A saliva da mãe poderá lhe transmitir germes perigosos.

— Se transmite germes, eu não sei; amor, eu tenho certeza que sim. Já passei por isso. Tive câncer de mama. Putz! Falei essa droga de palavra…

— Sinto muito, Sônia.

— Não se preocupe, doc. Fiquei curada. Estou 100%. A doença faz parte do passado.

— Que maravilha.

— Outro dia, enquanto a moça claudicava até o lavabo, a mãe me contou que andam comendo juntas nas últimas semanas porque a filha perdeu completamente o apetite. Dá um trabalhão convencê-la a se alimentar. Então, a forma que a mãe encontrou foi essa: singela, insalubre, meio infantilizada, porém eficaz.

— Está funcionando?

— Está funcionando. A menina come. Come pouquinho, mas come. Já é alguma coisa.

— Tomara que ela fique bem. Câncer em gente jovem é dose.

— Deus é pai.

— Obrigado pelo almoço e pela revelação, Sônia. Não podia sair sem saber.

— Disponha, doc. Tenha um excelente dia.

O restante do dia não foi tão excelente quanto se esperava. Ruminei o caso durante horas e só consegui me livrar do seu peso após escrever. Podemos digerir essa história juntos, no mesmo prato, se me permitem. Pode ser que a realidade se torne mais palatável, não acham?

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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