Tipos cujos coração e mente irmanam-se num processo intrincado e um autodestrutivo, em que boa parte de sua energia é gasta na procura desesperada por lembranças que os movam para um lugar onde possam se refugiar da vida miserável que julgam perfeita estão no cinema — e no mundo real — desde sempre. Em “Sem Refúgio”, Nick McKinless apresenta dois anti-heróis infelizes cada qual a seu modo, travando uma luta desleal consigo mesmo para deixar o submundo enquanto podem, malgrado o invencível desejo de reparação aliado a oponentes reais que os perseguem sem trégua. O diretor e o roteirista Joshua Todd James dispõem de uma mancheia de recursos para mobilizar também o espectador nessa busca dos dois, sem que ninguém jamais se iluda quanto aos eventos que hão de se desenrolar nos noventa minutos seguintes. A fórmula se impõe e o enredo é o que menos conta.
O espetáculo caótico da guerra
Antes coordenador de dublês, McKinless é diligente quanto a atender aos anseios do público e oferece as incontáveis sequências de confrontos físicos que tornam filmes como esse uma atração à parte no intraduzível universo do cinema macho. Esse nível exacerbado de uma testosterona meio tóxica, que mais envenena que fortalece, vem personificada num homem antes nem tão vigoroso, mas decerto muito mais feliz — ou menos vulnerável à tristeza. Vivido por Scott Adkins, Sam Lorde começa como um criminoso rabugento, mas que aos poucos vai revelando as camadas por baixo do troglodita convictamente misantropo, graças a Ken, o amigo um tanto debiloide, mas sereno, com o qual divide postos em terraços e vielas durante missões de captura e execução de alvos. Como sói ocorrer nessas histórias, o bromance dos dois sacode a monotonia de sopapos e tiros, e Adkins fica menos canastrão ao lado de Jack Parr.

