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Lançado em 2022 e ambientado no Havaí, “Um Paraíso Perigoso”, de Chuck Russell, acompanha a busca de Ryan Swan (Blake Jenner) por respostas após o desaparecimento do pai, Ian Swan (Bruce Willis), um famoso caçador de recompensas dado como morto depois de ser baleado e cair no mar. A investigação leva Ryan a uma teia de interesses que envolve Robbie Cole (Stephen Dorff), antigo parceiro de Ian, a policial Savannah (Praya Lundberg) e o empresário Arlene Buckley (John Travolta), um incorporador imobiliário com planos ambiciosos para dominar uma área da ilha conhecida como Paradise City.

A premissa tem aquele sabor clássico de filme de ação feito para uma noite sem grandes exigências, mas com elenco famoso o bastante para chamar atenção no catálogo. Ian Swan passou anos perseguindo um fugitivo acusado de matar quatro agentes do FBI. Quando finalmente chega ao Havaí seguindo essa pista, acaba atingido por tiros e desaparece no oceano. A morte presumida do personagem abre o caminho para Ryan Swan, filho distante, entrar em cena disposto a descobrir quem derrubou o pai.

O problema é que Ryan não conhece bem o território, não domina os códigos locais e tampouco carrega a autoridade do pai. Ele chega com raiva, mágoa e uma vontade de resolver tudo antes mesmo de compreender o tamanho da encrenca. É aí que surge Robbie Cole, interpretado por Stephen Dorff, ex-parceiro de Ian e figura meio quebrada, meio leal, daquele tipo que parece ter sobrevivido a muitas confusões sem aprender todas as lições. Dorff dá ao papel uma energia mais interessante do que o roteiro oferece, roubando a atenção sempre que aparece.

Ryan herda uma guerra

Ryan Swan, vivido por Blake Jenner, deveria ser o centro emocional e físico da história. Ele é o filho que tenta se aproximar do pai tarde demais, o herdeiro involuntário de uma briga que já estava em andamento antes de sua chegada. Jenner, no entanto, tem uma presença mais leve do que o filme pede. Em vez de parecer um homem pronto para entrar numa disputa violenta, ele soa mais como alguém que caiu de paraquedas numa operação perigosa e ainda procura onde deixou o manual de instruções.

Isso não destrói o filme, mas muda sua temperatura. “Um Paraíso Perigoso” funciona melhor quando assume Ryan como alguém despreparado, cercado por gente mais vivida e por ameaças maiores do que sua disposição. Quando o roteiro tenta vendê-lo como herói de ação puro, a conta não fecha tão bem. A comparação com Bruce Willis, mesmo em participação limitada, pesa. Willis sempre teve aquele jeito de parecer cansado e perigoso ao mesmo tempo, uma combinação difícil de imitar.

Savannah tenta impor ordem

No meio dessa confusão entra Savannah, interpretada por Praya Lundberg, a policial local que ainda se importa com justiça numa ilha tomada por conveniências. Ela ajuda Ryan e Robbie a avançar na apuração, mas também representa um tipo de autoridade cada vez mais cercada por interesses privados. Sua presença dá ao filme um eixo mais firme, porque a história deixa de ser apenas vingança familiar e passa a tocar em corrupção, posse de terra e manipulação política.

A investigação logo aponta para Arlene Buckley, personagem de John Travolta. Ele é um empresário do ramo imobiliário que trabalha para eleger Kane, vivido por Branscombe Richmond, ao Senado dos Estados Unidos. Buckley quer controlar Paradise City, área da ilha com valor econômico e simbólico para os moradores locais. A partir desse ponto, o filme mistura caçadores de recompensa, campanha política, violência armada e disputa territorial. É bastante coisa para caber numa produção simples, e nem sempre o roteiro consegue organizar tudo com elegância.

Travolta sabe o filme em que está

John Travolta parece compreender melhor do que muitos ao redor o tipo de vilão que “Um Paraíso Perigoso” precisa. Buckley tem pose, dinheiro e uma calma perigosa. Ele não precisa fazer grande esforço para parecer ameaçador, porque cada aparição já sugere alguém acostumado a comprar influência e se livrar de obstáculos. Travolta se diverte com essa composição sem transformar o personagem numa caricatura completa, embora o texto tente acrescentar camadas familiares que soam mais pesadas do que necessárias.

O filme também insiste em aproximar a relação de Buckley com o filho da relação entre Ian e Ryan. A intenção é criar um paralelo entre pais duros, filhos marcados e legados tortos. A ideia, porém, pesa sobre uma narrativa que teria mais força se abraçasse sem culpa seu espírito de ação policial de sessão da tarde tardia. Há tiros, perseguições, negócios suspeitos e paisagens paradisíacas. Às vezes, isso bastaria. Nem todo filme precisa parar para explicar a dor de cada homem armado em cena.

O Havaí domina a tela

O grande trunfo de “Um Paraíso Perigoso” está no cenário. O Havaí surge com praias, matas, cachoeiras e estradas que parecem mais carismáticas do que boa parte dos personagens. A beleza da ilha cria um contraste interessante com a sujeira dos negócios de Buckley. Enquanto os personagens discutem morte, terra e poder, a paisagem lembra o tempo todo o tamanho do prêmio em disputa. Dá para entender por que tanta gente quer se apropriar daquele lugar, ainda que o roteiro diga isso de maneira um tanto carregada.

Essa força do cenário também denuncia as fraquezas do filme. Em várias cenas, a atenção escapa da investigação e vai para o fundo da imagem. Não por falta de esforço do elenco, mas porque a história perde precisão ao tentar juntar muitos assuntos de uma vez. O suspense avança melhor quando Ryan, Robbie e Savannah seguem uma pista concreta. Quando a narrativa se afasta disso para sublinhar sentimentos ou explicar alianças, o ritmo perde fôlego.

Bruce Willis deixa sua marca

“Um Paraíso Perigoso” ganhou divulgação como um reencontro entre Bruce Willis e John Travolta, o que cria uma expectativa maior do que o filme pode entregar. Willis aparece pouco, e boa parte da ação ligada a Ian Swan depende de cortes e soluções discretas. Ainda assim, sua presença tem peso especial. Este foi um dos últimos trabalhos do ator antes de seu afastamento da carreira, e é difícil assistir sem lembrar a importância que ele teve para o cinema de ação.

Nas cenas em que contracena com Travolta e Stephen Dorff, Willis recupera algo de sua velha centelha. Não é uma volta plena ao astro de outros tempos, mas há lampejos de ironia, firmeza e presença. Para quem cresceu vendo Willis dominar filmes com um meio sorriso e uma frase seca, esses momentos têm valor afetivo. Travolta também ganha nesses encontros, porque a simples reunião dos dois atores carrega uma memória de cinema que o roteiro, sozinho, não alcança.

Um filme B sério demais

A maior fragilidade de “Um Paraíso Perigoso” é levar sua própria história com solenidade excessiva. O filme tem todos os ingredientes para uma aventura despretensiosa, violenta e charmosa. Há um herói em busca do pai, um parceiro veterano, uma policial determinada, um vilão rico, um projeto imobiliário suspeito e um paraíso ameaçado. Quando trabalha com esses elementos de forma mais simples, o longa diverte. Quando tenta parecer mais profundo do que é, fica mais pesado e menos envolvente.

Ainda assim, há certo prazer em acompanhar esse elenco circulando por um Havaí ensolarado, mesmo quando o roteiro tropeça nas próprias ambições. Stephen Dorff injeta vida nas cenas, Travolta sustenta o vilão com categoria e Bruce Willis oferece uma despedida involuntária que dá ao filme uma camada de melancolia. “Um Paraíso Perigoso” não entra para a lista dos grandes suspenses de ação, mas cumpre parte do que promete. Entrega tiros, intriga, paisagens bonitas e a curiosidade de ver três atores conhecidos tentando salvar uma história que, sozinha, se perderia facilmente na praia.


Filme: Um Paraíso Perigoso
Diretor: Chuck Russell
Ano: 2022
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
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